segunda-feira, 31 de março de 2008

Dorothy Parker

Quando o fantasma de Virgínia
aqui em casa veio morar
não chegou desacompanhado
e trouxe outro pra assombrar.
Enquanto Virgínia vagava encharcada
entre os livros da biblioteca
Dorothy fuçava gavetas e armários
experimentando vestidos e sapatos
com ares de boneca.
Virgínia chorava pelas rugas
e pelos cabelos grisalhos.
Dorothy a socorria com cremes
e penduricalhos.

Um dia, Virgínia deu de andar cismada. Sentava calada num canto da sala e de lá não saía nem se Fátima a chamasse. Folheava um velho álbum de fotografias, enquanto resmungava aflita: “Deve estar por aqui aquela senhora que toda manhã cisma em me aparecer no espelho!”.

O Revolver dos Beatles

No ano de 1966 ganhei dos Beatles um revólver. As pessoas da casa nunca tinham visto uma arma tão estranha. Não era de aço, não tinha cano nem tambor. Mas como era certeira. Se o apontasse para o taxista ele não corria perigo. A senhora Eleonor Rigby (uma inglesa que morava no apartamento ao lado) não precisava esconder a carteira dentro do sutiã, o dorminhoco do segundo andar podia dormir tranqüilo, e aqui e acolá se estabelecia a ordem. Os marinheiros navegavam em submarinos amarelos, as moças diziam o que queriam dizer, e os dias sempre amanheciam ensolarados.Embora não tivesse calibre nem balas, o revólver que ganhei dos Beatles era mais poderoso do que qualquer canhão. Dos seus tiros os pássaros não fugiam e ao som do tiroteio qualquer passarinho podia cantar. O revólver não tinha dono. E por mais que o Dr. Robert (o americano do oitavo andar) afirmasse que ele era só seu, a verdade é que não era só dele. Era nosso e de quem o quisesse na sua vida. E como se quis. Mas como do amanhã ninguém sabe, chegou o dia que o colocaram de lado. Trocaram-no por um tal revólver de um certo Dr. Colt. Um homem sisudo, amargo que nem fel. Dizem que sofria dos males da bílis e das alucinações das enxaquecas.Não sei se por causa do amargor dos tempos ou de uma sociohepatite endêmica, as pessoas guardaram o revólver dos Beatles nas gavetas e encaixaram o do Dr. Colt nas cartucheiras. Os marinheiros pintaram de cinza o submarino amarelo; a senhora Eleonor Rigby mandou colocar três trancas na porta; o taxista que a servia deu de ter medo dela e dos outros passageiros; o dorminhoco passou a sofrer de insônia; John Lennon foi abatido na porta de casa e a polícia e os bandidos se espalharam por aqui e acolá.Durante todos esses anos preservei na vitrola o revólver que ganhei dos Beatles. Vez por outra o empunho... quando os tempos estão sombrios e o mundo precisa dar uma chance à PAZ .

sábado, 29 de março de 2008

Os Adultos São Tão Bobos


Luiza, do alto dos seus cem anos, não gostava dos adultos. Com eles era ríspida, malcriada, sarcástica e (por que não?) dissimulada. Dizia que eles lhe provocavam gazes. E não sei se por verdade ou encenação, costumava arrotar e soltar puns fedorentos quando algum adulto lhe tomava o tempo! Gostava mesmo era de crianças. Adorava conversar com elas e trocar guloseimas. Bem verdade que nas horas das trocas, Luiza se aproveitava da idade e trocava um biscoito por dois chocolates e cinco balas puxa-puxa (tinha todos os dentes,inclusive um de leite!). Mas as crianças não ligavam para estas pequenas chantagens anciãs. Trocavam de bom grado. Luiza, do alto (ou baixo?) dos seus cem anos sorria com a boca escorrendo açúcar... Quando fiz treze anos, Luiza começou a me olhar de gueira. Intensificou as trocas e, propositalmente, passou a trapacear com mais frequência. Me dava um biscoito e ficava só esperando. Respirava aliviada quando eu lhe retornava três pirulitos, um chocolate e um coração de abóbora. Não dizia uma palavra. Escorria o açúcar e me dava um beijo. Aos dezoito anos, intrigada pelas trocas diárias, acabei lhe indagando pela razão dos "ufas" e de tantas trocas. Luiza, limpando a boca com a barra da saia me respondeu: - Eu só estou me certificando de que você não cresceu. Me disse isso e mais nada. Retornou ao açúcar e a sua colcha de retalhos. Morreu pouco tempo depois, dormindo. Não tomou café com leite com todos da casa. Preferiu os sonhos que os anjos acabavam de assar para ela!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Círculos & Retas

Luiza era avessa às retas. A aversão era tão imensa, que ela acabou se transformando num todo redondo, numa espiral de carnes concêntricas que arfavam e se movimentavam em círculos. Tinha sido redonda desde que nascera de uma barriga redonda num domingo redondo de uma noite de lua redonda. Caminhava em círculos e assim chegava muito mais depressa a lugares que quase ninguém chegava. Não tinha pressa. "A pressa é reta", ela dizia com um sorriso redondo. E não sei se pela falta de pressa ou mania de andar em círculos chegou atrasada no encontro com a Morte. Quando chegou, a Morte já tinha ido embora, cansada de tanta espera.Foram necessários 110 anos para que as duas finalmente se encontrassem.








Texto extraído do meu livro Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand

Um Escritor Sem Literatura


Conheci José na casa de Vitalina, numa segunda feira sem graça em que procurávamos nos distrair jogando víspora. Chegou bem na hora em que eu me preparava para botar um caroço de feijão sobre o número sete e completar o cartão. Talvez por isso, por ter estragado a festa da vitória, não lhe tenha dado a devida atenção e , confesso, o tratado como um reles vendedor de enceradeira. Um tipo tão insignificante que nem enceradeiras completas vendia. Negociava escovas para elas. É, aquelas redondinhas, espinhentas, que rodam velozes debaixo da engrenagem. Vovó o tratava com a mesma reverência que dedicava aos figurões que a visitavam. "Escovas dão brilho!", dizia ela, servindo ao pobre infeliz o melhor licor da despensa. A segunda feira além de monótona, já estava estragada, ou se preferir, encerada. Eu, com o feijão no bolso, implorava aos céus que levassem o pobre homem para a casa ao lado. Mas os céus não costumam ouvir as preces dos jogadores e simplesmente fecharam os ouvidos. Perdi o gosto da vitória para um par de escovas de enceradeira! Descrente do poder dos santos, do espírito e até de Deus, encolhi-me no sofá e espichei ouvidos irônicos para a ladainha do vendedor. "Essa escova espalha a cera com a mesma elegância de um poema de Rimbaud", dizia ele, arrematando a fala com algumas estrofes de "Iluminações". Ôpa, escovas iluminadas e ainda por cima letradas? A ironia cedeu vez à curiosidade. A tarde escorreu como um piso encerado, entremeada por escovas, ceras, enceradeiras , liquidificadores ( ele estava pensando em ampliar os negócios), filosofia, literatura, história e psicanálise.Vitalina, analfabeta por imposição do seu tempo, sorvia cada palavra. Com o passar das horas, as escovas enceravam os seus olhos e lhes davam brilho. Um brilho tão intenso que ofuscava! Depois da venda o homem se levantou para se ir embora. Perguntei-lhe o seu nome: "José da Silva, vendedor de escovas e escritor sem literatura", respondeu-me. Durante anos o vi tocando a campainha para vender badulaques. Até que um dia sumiu, evaporou da mesma forma que as enceradeiras. Vendeu escovas e letras. Morreu sem literatura, mas formou literatos. O feijão carunchou e não senti o tal gosto da vitória, preferi aprender como polir assoalhos com versos de Verlaine...




quinta-feira, 27 de março de 2008

A Morte no Khol dos Olhos das Meninas



Os olhos do deserto já não refletem a noite no khol dos olhos das meninas, nem desaguam líquidos no oásis das beduínas. O deserto enviuvou, secou como a vagina da Medusa a menstruar sangue dos soldados, Cristos dependurados, corpos açoitados . Os olhos do deserto foram furados pela lança do cowboy de Édipo, pelo falo de um deus camelô, cheirado e embriagado, a vender armamentos de guerra e ações de petróleo pela TV . Vai levar, freguês? APROVEITA QUE É HOJE SÓ! Mísseis a preço de ocasião. Compra um e leva de brinde um canhão! Os olhos do deserto se esconderam aterrados em buracos. Olhos à procura da Mãe . Querem voltar pra casa. Querem o khol, o carmim e a vulva. Querem a brisa morna das noites dos jardins da Babilônia, o calor dos seios da amada Ishtar. Exaustos, acuados, torturados, órfãos de Nabucodonosor, os olhos não querem mais o sangue viscoso do negror das florestas petrificadas em óleo.

Os olhos do deserto não querem fumaça a cegar os olhos das mesquitas, nem morte a gelar a carne das suas meninas. Querem olhar outra vez o sêmen do pênis do Eufrates a engravidar as tamareiras. Querem as fitas, os rodopios, os véus e as verduras e frutas das mulheres do mercado. Querem de volta o cio e a ternura do sândalo e das especiarias. Querem recontar estrelas e reinventar uma nova matemática. Os olhos do deserto não querem mirar a imagem dos seus filhos mutilados em fotografias. Ao deserto basta somente mirar a Lua e parir caminhos nas estrelas...

quarta-feira, 26 de março de 2008

Spell


Preciso de agulhas de ouro
uma gota do sangue de uma
virgem
uma estrela ainda viva
um retalho da colcha de alguma rainha
uma nota musical desconhecida
e um novelo de raios da lua.
Preciso também de um eclipse
(e se possível, uma tempestade)
Necessito urgentemente de ventos
e também de calmarias.
Depois de misturar tudo no meu caldeirão
finco o seu corpo num meteoro
rasgo a noite com uma tesoura de luz
invoco o fantasma de Cole Porter
e vamos ao Village
escutar uns blues!
Quando VITA se apaixonava, não escrevia cartas nem poemas. Saía para o jardim e fazia feitiços!

terça-feira, 25 de março de 2008

Vita & Virginia

Na orla do andar, disfarçavam-se em avós
lavavam lençóis e cerziam os buracos das meias
tricotavam a vida com linhas e laços sem nós
como duas aranhas a tecer teias.
Vita bordava jardins em ballet de linhas
remendava o mundo num bem-me-quer.
Virgínia rezava Ave Marias e Salve Rainhas
para um deus transformado em mulher.
Costuravam fantasias e bordavam caminhos
Decifravam enigmas e corriam na contramão
Exalavam maresia e ventavam moinhos
Refogavam sonhos no fogão.
Vita me deu a fúria dos mares bravios
a saudade do porto e a fome das navegações.
Virgínia deu-me a química dos desafios
os pontos, as vírgulas e as interrogações.
Quando morreram, não viraram estátuas de praça
e lentamente a fumaça do tempo as foi levando.
Hoje, quando tudo está vazio e sem graça
me visto com as duas e na Orla Ando.

Certa vez uma cartomante me disse que os fantasmas de duas mulheres me atormentavam. Sugeriu um trabalho. Pediu dinheiro e alguns badulaques. Ficou furiosa quando eu respondi que lhe daria em dobro, contanto que as duas ficassem.

Rezas

Quando o céu se anuviava em cinza e os ventos varriam as calçadas e os telhados da casa, Luiza, minha bisavó, queimava as palmas que pegara na Procissão de Ramos, agarrava-se à imagem de Santa Bárbara e acendia uma vela. Depois cobria os espelhos da casa, escondia as facas e tesouras, murmurando estranhas palavras, rezas que sua mãe lhe ensinara e que suas netas e bisnetas já não queriam aprender.
Na solidão de seu quarto, Luiza domava a tempestade que caía lá fora, trazendo-a para seus olhos, derramando-se em lágrimas. A modernidade e a pressa nos impediam de acarinhá-la e rezar a seu lado... Luiza morreu sem me ensinar suas rezas. Levou-as com ela, deixando-me órfã nas noites de tormentas.
Mas como dizia Vitalina, "tudo que se procura, se acha", hoje dedico os meus dias a procurar as rezas que Luiza um dia tentou me ensinar.


texto extraído do meu livro, Guadalupe e as Bruxas, publicado pela Editora Planeta



segunda-feira, 24 de março de 2008

Chapéus

As lobas cismam que os chapéus são barcos
que bóiam nas águas do eterno.
Guardam pedras nos bolsos do casaco
e se afogam no gozo divino do inferno.
Todos os dias elas planejam suicídios
lixam as unhas
compram vestidos
e chapéus.
No toucador erigem altares arredios
e com unhas polidas arranham o céu.
São lobas de muitos mantos
Gotas
doces de Channel
Não são amadas pelos santos
E muito menos vão pro céu.
Virgínia acreditava que o céu e a terra eram só das santas. No seu paraíso os santos nem chegaram a ser expulsos, porque lá não entraram.

Fátima e Virgínia

Nestes tempos de guerras santas e cruzadas modernas, tenho me exilado em Mangualde, lá pelos picos das montanhas que velam por Portugal. Enquanto no mundo de baixo os homens se deliciam com as artes da guerra, da prepotência e da desesperança, me farto em pastéis de clara e fios d'ovos do Aveiro.Vez por outra monto o lombo de uma mula e visito Fátima, a Virgem. Não vou ao santuário. Virgínia me ensinou um lugarzinho sossegado onde a Virgem "fica de folga" e brinca com as crianças. É um cantinho perdido entre o templo e um parque. Um pedaçinho de recreio, um tantinho de infância. Lá, Virgínia me apresenta toda orgulhosa para a sua grande amiga. "Espia Fátima, olha só como a miúda cresceu!".Em tempos de calmaria a Virgem sempre se dispõe a um papinho, mas os tempos não estão nada calmos e a pobre moça nem tempo tem para comer as guloseimas que as crianças lhe trazem. Sim, devo dizer que as virgens são muito gulosas. Elas adoram açúcar e mel. Detestam azedices e abominam as carnes sangrentas. Mas voltando ao assunto. Fátima anda muito preocupada. Seu rosto de menina já apresenta rugas e os olhos, antes vivos e curiosos, ficaram turvos como a fuligem destes tristes dias...
Virgínia, com os seus dedos roliços e mãos de camponesa, tira do bolso da saia um delicado terço. Um terço de contas de cristal. Ajoelha-se ao lado da virgem e começa a sussurrar ave-marias. Vez por outra as duas se entreolham e baixam os olhos para a terra. Eu, que não tenho um terço, rezo com pedrinhas. As crianças, com balas e pirulitos. Algumas mulheres rezam com anéis, estrelas e alianças de casamento. Outras, entoam fados de Amália.Do alto da terra as plantas rezam ao sabor do vento. O rio reza no correr das correntes. Os pássaros rezam construindo ninhos. O sol, esse eterno brincalhão, reza se escondendo por detrás das nuvens. O dia se faz escuro, mas não há medo: todos nós estamos ali, rezando por novos dias de sol.

domingo, 23 de março de 2008

Nódoa Santíssima

Poucas vezes presenciei o milagre da transubstanciação. E, embora a professora de catecismo afirmasse que ele acontecia quando a hóstia era engolida, a explicação não me convencia. Para mim, o corpo de Cristo não era uma lâmina insossa, desprovida de volume e líquidos. Não, definitivamente as hóstias não eram o corpo de Cristo! Eu já o tinha visto pendurado entre os seios fartos de Vera. Já o tinha flagrado banhando-se no rio de suor que descia pelo colo dela. Já tinha testemunhado seu amor quando, por causa de um abraço mais apertado de Raimundo, louco de ciúmes, ele se cravou no peito de Vera. A mancha de sangue nunca mais desgrudou do vestido e ficava ainda mais nítida com as lavagens. Vera até tentou tingir a roupa, mas foi em vão. A mancha ficou ainda mais viva. Com o tempo, o vestido transformou-se num Santo Sudário doméstico e vieram mulheres em romaria para vê-lo e tocá-lo. Cristo, aconchegado entre os seios de Vera, aprovava. Gostava de ouvi-las reclamando das patroas e fazendo planos para o Carnaval. Gostava de vê-las desnudas em frente ao espelho experimentando roupas. Gostava tanto, que nessas horas a mancha ficava molhada.
texto extraído do meu livro, Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand

sábado, 22 de março de 2008

Bulimia Quântica

Ontem, depois do jantar
vomitei o mundo.
Enfiei o dedo na
garganta
e deixei verter
os sinais vermelhos
as leis
os nãos
os deves
e os sins
Depois...
Voltei à mesa
comi com as mãos
e lambi os dedos.
Mastiguei ruídos
e limpei a boca na toalha.
Das regras, VITA só acatava as menstruais.

Sábado de Aleluia

Quando nasceu, o pai negou-lhe a paternidade e recusou-se a ver o seu rosto. "Filho de maldade que não vale a pena, pequena como vida pequena e morte mais pequena que um dia haverá de ter", vaticinou o Demo entre as labaredas dos quintos do inferno, arremessando-o à Terra.
Brotou dela como as larvas e os vermes, outonando o ar com um cheiro insuportável de enxofre. Guri fétido, feio como o desespero dos suicidas, gorduroso como as banhas dos rufiões, ardiloso como a lábia dos escroques, traiçoeiro como as assombrações. Mescla de larva e demônio, foi renegado por um outro pai e refogado em óleo fervente para morrer de uma vez. Mas, maldade pequena, mesquinhez pequena, por ruindade obscena não morre e teima em viver só pra rançar o mundo.
O pai, que não era o pai verdadeiro, pois ruindade pequena carece de autenticidade e cai como luva na fôrma das falsificações, mostrou-lhe a porta da rua e benzeu-se três vezes quando ele saiu.
A mãe, que não era a verdadeira, pois ruindade pequena não há útero que segure, implorou a Deus que desse ao menino um tico qualquer de humanidade. Deus benzeu-se três vezes e fingiu não escutar o pedido. Fechou os olhos e tapou os ouvidos, feliz por não ter mexido naquela massa...podre...fétida...catinguenta.
Sem pai nem mãe, verdadeiros ou falsificados, a ruindade pequena pensou-se humano e mesclou-se entre os homens, como se fosse um deles. Pequeno - demasiadamente pequeno - foi se fazendo entre roubos, vilanias, engodos e dissimulações . Encheu os bolsos de dinheiro, estufou a pança do poder e pisou todo aquele que se metesse no seu caminho com a sola da pequenez de sua maldade pequena. E era tão pequena aquela alma pequena que por vontade ainda mais pequena, casou-se.
Sem falo verdadeiro ou falsificado, eunuco como os vermes que um dia hão de comê-lo, apequenou a mulher e fingiu ter filhos. Mas, você sabe, fingimento pequeno se descobre à distância, de modo que não convenceu como pai.
Sem a luxúria enorme do pai verdadeiro que recusou-lhe veracidade, sobrou-lhe somente o arremedo de um galã decadente a seduzir as filhas. E de tão mal e pequeno ator que era, transformou uma peça grega em número de bas-fond de quinta categoria. E de tão pequeno desempenho dramático, não mereceu nem vaias.
A mulher, apequenada na pequenice de um casamento menor que a aliança do dedo anular, de joelhos anulou-se perante a tevê e o altar de santos. Em volume máximo e tomada por interferências onde não mais se distinguia a imagem, horizontou-se sem horizontes e acabou morrendo. Morte injusta, injustíssima!
O filho do Tinhoso (que por sinal sempre deixou bem claro não ser seu pai) foi envelhecendo e apequenando cada vez mais a maldade, até tornar-se um velho com cara e movimento de velho. "Velho safado", Deus dizia, quando o via sem querer. "Desgosto do mal", o Diabo repetia, quando ouvia coisas que dele se dizia.
E assim, rejeitado por Deus e pelo Diabo, criou-se um impasse: depois de morto, quem o receberia? A Morte, por vocação solitária ou por profunda aversão aos medíocres, recusou-se a acolhê-lo. "Que pene pela eternidade e permaneça vivo, decompondo os ossos e a carne. Que se coma sozinho e se engula como ameba!", vaticinou a Morte, virando-lhe as costas.
E assim foi feito. Sem lugar nem pai que o acolhesse, o danado ficou a vagar pela Terra, amargando os homens. Com cara e movimento de velho hoje se dedica aos crimes que sempre cometeu. Estúpido e tolo a vangloriar-se da vida eterna de uma morte que teima em não se enterrar.

Lili Marlene

Eu queria ter as pernas da Dietrich
e o olhar fatal da Greta Garbo
Queria beber champanhe
e morrer entre pílulas e lingerie
Queria estar nua no jornaleiro
ser musa do sexo dos adolescentes
Queria ser objeto de desejo
e cortar a vida com os dentes.
Eu queria ser
metafisicamente fútil
recitar Verlaine como se vai ao cinema
Queria cultivar o inútil
e esquecer qualquer teorema
Queria ser complicada e difícil
falar tolices por puro prazer
ter aquele ar de quem paira por cima
e morre de tédio em viver.
Queria ser samba-enredo
figurinha de álbum
decalque de criança
Beber a vida até o último gole
e do mundo levar lembrança
.
Vita não perdia o seu tempo sonhando com amores, dinheiro, terrenos e mansões. Ela tinha coisas mais interessantes para sonhar. Certa vez levou dois anos procurando botões redondos, transparentes, e que tivessem dentro uma flor. Os botões caíram como uma luva no vestido que o amado desabotoou...

Apocalipse Now

Quando Luiza, por gulodice ou conhecimento, me falava do apocalipse, falava em fome, em comida rareando na terra e bocas famintas implorando um só grão de feijão. O apocalipse de Luiza não era assombrado pelas cornetas dos quatro cavaleiros, pela névoa sombria da morte, nem pelas dívidas e juros pelos pecados. Para ela, o apocalipse roncava dentro das barrigas que nem lombrigas. Quando Luiza a ele se referia, girava nas mãos um terço de caroços de azeitonas, vindo lá das bandas de Jerusalém. Caroços-contas, abençoados pelas raízes das oliveiras que banhavam saladas e fritavam bolinhos de chuva nas tardes chuvosas.No girar (ou frigir) das contas Luiza benzia o alimento enquanto guardava sementes dentro de uma lata. Depois, enquanto o almoço descansava naspanelas, sorrateiramente desaparecia no corredor da sala e escondia a lata sabe-se lá onde. Ao sentar na mesa abençoava o alimento como se aquela fosse a última vez que comia. Mastigava cada bocado como se mastigasse o Éden e a carne de Deus. Ao terminar, levantava-se da cadeira e se achegava à janela com um punhado de arroz para os passarinhos. "Comida se divide com homens e bichos", dizia com ares de filosofia. No céu, Pascal agradecia. Quando morreu não teve tempo de revelar o paradeiro da lata e a família, talvez ocupada pelo funeral ou esquecida das "maluquices" de Luiza, dele não se preocupou em saber. O tempo correu e todos nós envelhecemos. O Apocalipse Lombriguento foi esquecido e o terço de azeitonas mofou dentro de um velho baú. Só fui me lembrar da latinha quando fiquei sabendo dos tais transgênicos. Corri à velha casa e escavei cada recanto. Foram precisos muitos dias para que a descobrisse num fundo falso de uma gaveta da cômoda. Puxei a tampa com cuidado e lá estavam sementes de alface, abóbora, feijão, coentro, beterraba, cenoura, quiabo, giló, maxixe, berinjela, agrião, couve, repolho, laranja, manga, morango, tangerina, açafrão, erva-doce, melissa, melão, melancia e até papoula. Tampei a lata com muito cuidado (Luiza dizia que o apocalipse é bisbilhoteiro) e a levei para casa. Continuei o trabalho de Luiza e hoje a latase multiplicou. E se você, ao ler esta história acreditar nas palavras de uma velhinha de 110 anos que nunca contou mentiras, pegue uma latinha e comece aguardar sementes. Quem sabe a gente com isso vença o Lombriguento e distribua a fartura à Natureza quando os tempos se tornarem famintos e a esperança,transgênica.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Identidade

Sou assim confusa e estabanada
a um passo do exagero e da exaltação.
Não encontro meio-termo em nada
e sempre corro na
contramão
.

Sou assim mescla de anjo e vampiro
em busca de
hóstia e sangue
excessiva no ar que respiro
e
atropelo como um tanque.

Sou assim anônima e exibida
bem próxima do carnavalesco.

Nas paixões não tenho medida
e busco um amor dantesco
.

Sou assim primitiva e tribal
num fio entre a razão e a loucura.

Não consigo ser racional
e reviro latas na rua escura.


Vita & Virgínia me ensinaram que a vida não pode ser mais ou menos, que as emoções não permitem o morno e muito menos o banho-maria. Aprendi a lição e hoje oscilo entre as queimaduras e a hipotermia.


Bordéis Matemáticos


Bordados de néon nas bordas
anéis de oferta
numa caixa de Corn Flakes.
Barras redondas
franjas geométricas
esqualidez sexual.
Um tapete felpudo
um cadáver desnudo
uma Barbie ancestral.
Batons franjados
nos lábios das senhoras
bordas cosméticas
calcinhas sem elástico.
Mulheres janelas
dobrando fronhas
alisando lençóis.
Adição tristonha
subtração insana
lógica profana.
?
Quando o relógio da sala anunciava as seis horas da tarde, Vita dependurava o pano de prato no cabide da cozinha, desamarrava o avental, enchia uma taça de vinho, apagava a luz da sala e ligava o rádio. Pela janela a luz da lua entrava lhe fazendo uma serenata. Vita engolia o vinho e mastigava um antigo namorado

Freecortes

Eu cortaria o céu
se tivesse uma navalha
só pra ver se sangrariam estrelas.
Eu cortaria os pulsos
se tivesse um bisturi
por pura exibição e chantagem.
Eu me tornaria um ladrão
se tivesse coragem.
Arrombaria o seu amor
e limparia o cofre.
Quando o natal se aproximava, a cozinha de Virgínia misteriosamente ficava com cheiro de mel. E se você esticasse um pouquinho mais o olhar decerto avistaria uma abelha. "A rainha", como Virgínia dizia. Confesso que não era tarefa fácil encontrá-la. Havia muitas panelas, bules, xícaras, potes, tigelas, peneiras, coadores, paninhos e panões que anuviavam a vista e escondiam a danada sabe-se lá onde. Mas depois de transcorrido o tempo, entre os amassos na massa do pão , a modelagem dos biscoitos e a cascata de chocolate sobre os pães de mel, eis que surgia a fujona!
Mas não pense você que a abelha era uma abelha comum. Não, a abelha da cozinha de Virgínia possuía "estranhas" propriedades. Era uma abelha mágica! Dadeira de dádivas, ouvideira de desejos. E como ela dava e ouvia!
A abelha da cozinha de Virgínia gostava de ouvir as coisas que até Deus duvida; era mestra em realizar os desejos impossíveis. Aliás, quanto mais impossíveis eles fossem, mais ela se esmerava em torná-los fáceis e banais. Mas não pense você que ela dava tudo isso de mão beijada. Para tanto era preciso seguir algumas recomendações. A primeira, e talvez a mais importante, era imaginar coisas que corassem e dilacerassem as convicções. Ah, essa era tão difícil como encontrá-la em meio as tralhas da cozinha! Com um pouco de imaginação corava-se de pronto, mas dilacerar as convicções... era osso duro de roer! Mas quando a tarefa era cumprida, não havia jeito de voltar atrás. A danada cumpria a palavra!
Depois, a danada sumia deixando no ar um zumbido e a impressão de que tudo não passara de um sonho. E era nessa hora que entrava em cena a magia: Virgínia retirava do forno um enorme pão de alecrim com formato de abelha."A Rainha", como ela mesma dizia! O comíamos à meia-noite do dia 24 de dezembro, regado com muito vinho e manteiga de nata. Virgínia nos pedia entâo para reservarmos o último naco e o guardássemos para a massa do pão do natal seguinte. "Coisas de Portugal", como ela mesma dizia.
Não sei se pela magia da abelha ou pelo tempero de mel, o ano transcorria regado ao doce aroma de uma colméia escondida num pé de alecrim...

quinta-feira, 20 de março de 2008

Trópico de Guadalupe

Vitalina costumava dizer que "na vida nada aparece por acaso". E ela estava certa.
GUADALUPE surgiu em minha vida por coerência e encontro marcado, santíssimo. Não havia como fugir, da mesma forma que as Américas não puderam fugir de Colombo. Era para ser como foi e ... "vontade divina ninguém discute", como bem dizia minha avó Virgínia.
E por ter sido como era para ser, foi e continua sendo mágico. Guadalupe ajudou-me a assumir minha própria mestiçagem, a minha e a nossa latinidade indígena, africana, espanhola e portuguesa. Com seu manto de estrelas, Guadalupe nos deu os rostos morenos, os olhos negros, os lábios carnudos, o samba, a rumba, a cúmbia, o bolero, o tango, o frevo, ... os orixás, os encantados, os sagrados.



E sob seu manto descobri a América, a América das muitas Américas, a América dos antepassados e do futuro.







texto extraído do meu livro Guadalupe e as Bruxas, publicado pela Editora Planeta

Anais Nin e Eu

Certo dia, numa tarde chuvosa e com gosto de guarda-chuva, tio Ivo entrou pela porta e me disse: "Para conhecer o amor e as mulheres, leia Anais Nin." Levei a sério suas palavras. Vesti uma capa, peguei dinheiro na gaveta e fui à livraria Leonardo da Vinci procurá-la. Nessa época, Anais só falava inglês e francês. Não liguei. Comprei um bom dicionário. O gosto de guarda-chuva abandonou a tarde, e o sol abriu as pernas da cidade. O tempo passou, e Anais acabou aprendendo português. Quando tio Ivo morreu, por pura coqueteria, Anais recebeu-o do outro lado com um acentuado e sensual "Bem-vindo!"



texto extraído do meu livro, Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand

Varal Noturno

Entre o pregador
o fio e o pano,
um olhar de moça assustada
estica-se como um elástico
pronto a prender um rabo-de-cavalo.
Sensação de roupa na corda,
vento com cheiro de água sanitária
Uma lambida de cloro
Arreganhar de pernas
Lavadeiras modernas
Eternas.
Entre o sabão e as águas vaginais
a liberdade das perversões
agitadas nos varais.
Desvios oclusos
sinais vesgos.
Enxágüe e não deixe pistas,
a menor mancha
pode estragar o trabalho.
Esfregue as pregas
e as bordas.
Lave e enxágüe à noite.
Cuidado com corantes.

Um dia as duas chegaram com folhas de papel celofane, linha e cerol. Perguntei se faríamos uma pipa. Se despiram, abriram os braços e responderam: “Vem voar com a gente menina. A pipa fica para os meninos!”

quarta-feira, 19 de março de 2008


Um dia Virgínia me deu um terço de cristal e um livrinho de orações com capa de madrepérola. Disse-me que o infinito e a terra estavam ali guardados. Não me ensinou o catecismo nem contou a saga dos santos. Omitiu martírios e não falou dos anjos. Falou de mulheres que apareciam nas grutas, nas nuvens e sobre as árvores. Mostrou-me madonas a amamentar rebentos. Foi nesse dia que descobri que Deus é uma mulher grávida

Vide Bula


Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?
Que fome é essa que me embrulha o estômago?
Que gordura é essa que me assombra?
Que desgosto é esse que me amarga a boca?
Que fúria é essa que me faz biliosa e feia?
Que espelho é esse que reflete essa desconhecida?
Em qual farmácia encontro o remédio?
Se ao menos eu achasse a bula...

terça-feira, 18 de março de 2008

Sexus


Conheci Henry Miller num almoço na casa de Nazir. Ele me olhou da estante e piscou o olho. Apaixonei-me à primeira vista. "Um amor impossível!", comentaram minhas amigas do colégio. Afinal, Henry era muito mais velho e "proibido para menores". Não dei atenção às proibições e pedi-o emprestado a Nazir. Ela o emprestou de bom grado. Levei algum tempo para devorá-lo - Henry é metódico e gosta de etapas! No colégio, as meninas morriam de inveja. Não fui egoísta e emprestei-o para elas.
texto extraído do meu livro Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand

Águas Femininas


Nos banheiros da minha vida, as mulheres reuniam-se para narrar aventuras interditas e fantasias malditas, e para planejar noites de beleza e prazer. Nas suas paredes, impregnavam-se perfumes das mais variadas essências, vozes dos mais variados tons, vidas das mais variadas formas, assombrações das mais variadas épocas, curativos dos mais variados machucados, sangue das mais variadas menstruações, idéias dos mais variados pensamentos, deuses dos mais variados panteões, palavras das mais variadas páginas, linhas dos mais variados desenhos, curas das mais variadas doenças e banhos dos mais variados líquidos...
texto extraído do meu livro A Casa da Bruxa, publicado pela Editora Planeta

Ontem perdi meu daimon na pia. Bem verdade que ela estava escorregadia pelo detergente, um pouco sombria de gordura , soterrada pela louça de vários dias.Mas nada disso consistia em razões para engolir meu daimon! Ela o engoliu por pura gula. Para fugir do tédio circular do bom-bril na panela. Quis o meu daimon para fantasias escusas, dessas que só se vê nos filmes... O meu daimon não se fez de rogado. Escorregou na viscosidade do detergente e foi sumindo pela garganta escura da pia. A louça, essa entediada dama amante dos horários, torceu o nariz e lançou olhares maledicentes...Na solidão ladrilhada da cozinha, restaram eu - sem meu daimon - e o exército de panelas, pratos, copos, talheres e quinquilharias plásticas. O relógio, impaciente nos seus ponteiros, apontava para as funções do cotidiano. E o meu daimon, evadido sabe-se lá em qual confim do esgoto. Peguei então três xícaras de farinha, três ovos, uma xícara de leite, uma colher de chá de fermento, duas xícaras de açúcar , uma pitada de sal e cinco gotas de baunilha.Coloquei tudo numa tijela e bati um bolo ( sem daimon ). Assei-o em forno moderado. Não o comi. Estava solado como a alma das mulheres que perderam seus daimons!A pia? Essa acabou o perdendo numa curva do cano.


No amor e na cozinha há de se comer sempre com os olhos, passear a língua sobre os lábios e engolir todos os líquidos da gula. Deve-se elevar a imaginação a céus nunca dantes navegados e cobiçar com a intensidade dos avarentos. Não se deve poupar um milímetro do fio do desejo, nem o guardar para olhares futuros. O olhar da gula não tolera poupanças e é sempre perdulário.
texto extraído do meu livro, Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Aeróbicas


Não explicar nada.
Não tentar saltos abruptos.
Não forçar os músculos.
Esquecer os aquecimentos.
Alongar vírgulas e reticências.
Não forçar a barra.
Mergulhar no caldo sem levantar gota.
Ignorar o apito.
Não olhar o placar.
Não buscar medalhas.
Perder a competição e enxugar o suor.
Por fim, uma vitamina & um suspiro em círculos.
UM SOLO DE CHET...

Métricas

Vita costumava dizer que "o comprimento não é coisa dos centímetros e metros". O seu sistema métrico ignorava os tracinhos das réguas e era definitivamente avesso às fitas.Media no olho. Olhava sabe-se lá para qual ponto, estendendo um fio imaginário que vez por outra me surpreendia com a exatidão neo-científica de uma bruxa analfabeta. Invertia a lógica e ria-se de qualquer tonto que tentasse convencê-la da inexatidão dos seus cálculos. Um dia, chegou lá em casa um homem estúpidamente alto, comprido como uma vara, e ela nos disse que ele era "baixo que nem verme minhoquento". Minhoca?! O homem media quase dois metros! Mas olhando para o tal ponto incógnito, Vita insistia em afirmar a minhoquês do gigante. De nada adiantou medi-lo, exibir a prova definitiva da fita métrica. Vita não se convenceu. Continuou afirmando que o gigante não passava de uma minhoca. O tempo passou e um belo dia estourou uma notícia na casa: o grandão dera um desfalque no banco que trabalhava! Vita nos olhou e sorriu zombeteira: "Eu não disse que o tal era baixo que nem verme minhoquento?"... Desde então, tenho procurado no espaço o tal ponto incógnito. Aposentei as réguas e fitas métricas, e estico os centímetros entre as pestanas. Descobri que o tal ponto pode estar no intervalo criado pelo piscar dos olhos. Ali, no vácuo da percepção. Escondido e exposto, em movimento e parado. Com o exercício desta neo-ciência, percebi que a métrica transcende o comprimento, altura, circunferência e peso. Me dei conta de que, por mais disparatado que seja, a métrica pertence ao universo dos adjetivos e não dos números. Sim! A analfabetice de Vita estava certa: " emSão as palavras que esticam, encolhem, engordam e emagrecem o mundo.".

domingo, 16 de março de 2008

Asas em Tempos não Idos


Ontem decidi que este ano não vou fazer 57 anos: assumirei minhas 57 asas. Vou mergulhar rasantes sobre o mar de Ipanema e aterrisar no Pier com 20 asas. Não me valerei de nenhum freio, afinal, com 20, quem deles necessita? Serei perdulária e me valerei de mais duas, só pra tomar um porre no Lamas e repousar a bebedeira sobre as páginas do Livro Vermelho de Mao e as folhas desgastadas do Écrits, de Lacan. Depois, mal sustentando as pernas, recolherei 11 asas e ganharei um beijo do menino sardento (seria Felipe, Luis ou Luis Felipe?) nas escadas do prédio, entre o segundo e o terceiro andar. Mas desta vez não ficaremos presos pelos nossos aparelhos ortodônticos e escaparei da vergonha. Não temerei uma provável gravidez já que terei a ciência da décima terceira asa que, apesar de odiar a monotonia científica da professora Célia, me garantiu que beijos não engravidam. Já devidamente tranquilizada, vou inventar uma nova matemática e das 13 asas pularei para a décima oitava. Empinarei o nariz e sobrevoarei as salas do velho IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais). Não assistirei as aulas de Lógica Matemática e desta vez não levarei bomba. Repetirei ad eternum as aulas de Metafísica e recitarei Aristóteles de trás pra frente (Platão, dividirei com os mais íntimos). Nos corredores, de preferência no da cantina, tramarei revoluções , mas desta vez optarei pelas estéticas. Está certo, confesso, ainda acredito no povo no poder, mas o que fazer quando as 38 asas sobressalentes me filiaram ao partido do Belo e me repetem que a arte unida jamais será vencida? Mas não importa, com a arte no poder, o povo está junto.
Este ano, quando a próxima asa encaixar nas minhas costas, o tempo não terá nenhuma importância. Vou ir e voltar na hora que me der na veneta. Serei idosa sem tempos idos.

sábado, 15 de março de 2008

Voodoo

Benedita enterrou muitas agulhas em muitos bonecos. "Raça desgraçada que não merecia viver", ela dizia, sibilando sons de uma boca sem dentes. Olhos postos nas alturas, em busca de um Deus que a compreendia como ninguém.

"Deus que nada, menina! É Satanás que ela invoca a cada furo!", dizia Vera, a cozinheira, benzendo-se, respeitosa. Se era Deus ou o Diabo, eu nunca Soube e de nada adiantaria saber: as agulhas, as linhas e as tesouras, por artes sabe-se lá de quem, descumpriam os desígnios, celestes ou infernais, e em pouco tempo davam cabo do infeliz.

Morte espetada, furada, cortada, amarrada com tal maestria que nem os doutores descobriam a causa. "Seu Osório morreu na noite passada. De nó nas tripas. Amanheceu de olhos esbugalhados, como se tivesse visto o Demo bem na hora de morrer!" disseram as empregadas do prédio ao comentarem a "misteriosa" morte do morador do segundo andar.

O mistério não era assim tão misterioso. Benedita trabalhara na casa de Seu Osório e diziam as más (?) línguas que o homem a despedira sem pagar uma montanha de salários atrasados. "Menos um nesse mundo que não é de Deus nem do Diabo", Benedita comentou, indiferente, ao saber do falecimento. "Indiferença suspeita", Vera afirmou, sabedora do boneco, igualzinho ao falecido, que Benedita espetava todas as noites, no redondo sombrio da meia-noite.

Se a morte se deu pelas agulhas enterradas na hora exata que a Mortíssima aceita a ajuda dos mortais, ou por coincidência despropositada, isso ficou entre Deus, o Diabo, a Mortíssima, e o atestado de óbito : sufocamento acidental; causa desconhecida, óbito ocorrido na zero hora. Exata.

Na hora do enterro do "morto sem alma", como Benedita disse para Conceição, a arrumadeira, Benedita prendeu o espírito ruim numa caixa amarrada em sete nós. Não enterrou. Despachou o embrulho na encruzilhada da Marquês de Abrantes com a Paissandú, rodeada por nove velas pretas emborcadas para baixo.

No dia seguinte, ao passar por lá a caminho do colégio, lá estava Seu Osório, esmigalhado pelas rodas dos carros e dos bondes. "Esse não encarna mais", Benedita falou arreganhando as gengivas. Se o vodu impediu que a ruindade de Osório não mais encarnasse, isso é coisa que só os parapsicólogos podem responder. O que sei é que depois do passamento (era assim mesmo que ela falava), o elevador nunca mais rangeu ao passar pelo segundo andar.

Quando Benedita ficou tão velha que já não podia trabalhar, retornou para sua amada Minas Gerais. Deixou-me um presente sobre minha cama: uma caixa de papelão branco, atada por uma larga fita de cetim cor-de-rosa. Dentro dela alguns bonecos, agulhas, tesoura e linha.

A Lua dos Malefícios



Quando a lua avermelhava no céu, Luiza catava ervas no terreiro, defumava a casa e as meninas (na casa só moravam mulheres). Cerrava as janelas, acendia velas e rezava o terço. Nessa noite não dormia. Vigiava o mundo. Velava os vivos. Ouvia vozes que ninguém mais ouvia. Dentro da casa, as meninas rezavam. Do lado de fora, os vizinhos espiavam. Luiza sabia que no dia seguinte as crianças da rua a acompanhariam com troças. Não ligava. "São anjos", ela dizia. Luiza compreendia a inocência dos anjos e sabia que eles nada podiam fazer. "A inocência às vezes é estúpida", filosofava com os seus botões. Sua mãe lhe ensinara a temer a hemorragia da lua. Dissera que era um aborto. A lua vermelha abortava pragas. Quando ela abortava, o Canhoto enchia a pança de maldade. Deus não podia fazer nada. Estava a léguas de distância, brincando com os anjos. A terra ficava entregue ao Canhoto e a Lua, à sua enfermidade. Luiza quis saber por quê a Lua, que era tão forte, ficava fraca. A mãe lhe respondeu: "Para mostrar como os homens são estúpidos.". Luiza acatou de bom grado a resposta. Seguiu os seus dias tomando conta do céu. A princípio, quando ainda acreditava na reversão da estupidez, bem que tentou avisar aos vizinhos que o céu prometia catástrofes. Ninguém lhe ouviu. Ela viu então a Lua ficar vermelha antes da primeira guerra, antes do mar engolir o Titanic, antes da segunda guerra, antes do massacre no Vietnã, e antes de muitas epidemias. Como ninguém lhe deu ouvidos, preferiu silênciar e guardar para si os prenúncios das tragédias. Concluiu que a estupidez é coisa que não se reverte. "É obra do canhoto", definiu. Morreu com o terço na mão, pedindo à Mãe que velasse pelos estúpidos. Se na hora de se encontrar com a Morte, viu ou não uma outra Lua Vermelha, isso ficou entre ela e a Morte. Só sei que não faz muito tempo, a Lua deu de sangrar no céu...


Miséria Física

Se havia uma coisa que em Vitalina provocava compaixão até pelo seu pior inimigo, sem dúvida era a miséria física. "Na hora da doença se esquece de qualquer desaforo", ela dizia, ao mesmo tempo em que preparava um xarope para alguém que não queria ver "nem pintado de ouro".


Quase ninguém entendia aqueles momentos de trégua, quando Vitalina suspendia as rusgas enquanto colhia ervas e criava remédios para os seus maiores inimigos. "Coração cristão", muitos diziam, "alma magnânima", outros repetiam. Vitalina ria.


Levei muitos anos para desvendar o mistério e só o solucionei quando um dia, ao ver minha avó preparando um dos seus unguentos para uma vizinha que liderava uma campanha difamatória contra ela, perguntei pela razão de tanta generosidade. Com cara de nojo, ela me respondeu: "Não há nada mais humilhante que lutar com um inimigo doente!"




Texto extraído de meu livro O Caldeirão da Prosperidade, publicado pela Editora Planeta.

O Tarô de Guadalupe


Margarida não lia o tarô: lia as cartas. Lia sem que você pedisse. Por puro prazer e "necessidade". Se você não se interessasse em saber o que nas cartas estava escrito, ela não se importava e lia do mesmo jeito. Em silêncio.
Depois, levantava-se da mesa, guardava o baralho numa gaveta do móvel da sala, ia até a cozinha, pegava um copo d'água e o levava até o quarto. Depositava-o em silêncio sobre a mesinha de cabeceira, entre as imagens de Nossa Senhora da Glória, Santa Edwiges, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora Aparecida, Menino Jesus de Praga, Santo Antônio e mais alguns anjinhos. Sentava-se então na beirada da cama e rezava baixinho.
Se a reza se dava por aquilo que vira nas cartas ou por culpa de a elas ter recorrido ( Margarida era católica apostólica romana e temente a Deus ), isso não vem ao caso. Rezava em busca de um horizonte que as janelas do apartamento não mostravam. "Rezava para não chorar!", Vitalina certamente diria.


Texto extraído de meu livro Guadalupe e as Bruxas, publicado pela Editora Planeta.

O Pão da Abelha


1 colher de sopa de sal
1 colher de sopa de folhinhas (frescas) de alecrim
30 gramas de fermento fresco ou 2 colheres de sopa de fermento em pó
cerca de 7 xícaras de farinha de trigo
2 1/2 xícaras de água
1 colher de sopa de manteiga amolecida
1 ovo ligeiramente amolecido
1 gema
1 colher de sopa de mel

Modo de Fazer:
Numa tigela grande misture o sal, o alecrim, o fermento e 2 1/2 xícaras de farinha de trigo. Numa panela com capacidade para 2 litros, esquente a água e a manteiga em fogo baixo, até ficar bem quente. Adicione gradualmente os líquidos aos ingredientes secos, bata a mistura vigorosamente. Acrescente mais 3 1/2 xícaras de farinha e bata até obter uma massa macia e pegajosa. Coloque-a numa tigela e cubra; deixe crescer até dobrar de volume (uns 30 minutos). Abaixe a massa e transfira-a para uma superfície polvilhada e amasse até ficar lisa e elástica (leva uns 10 minutos). Como é difícil encontrar uma forma com o formato de abelha, sugiro transferir a massa para uma forma redonda (e pensar que a abelha deu uma engordada!), untada e enfarinhada e deixá-la crescer por uns 30 minutos. Antes de colocá-la no forno pincele com a gema batida com o mel e depois asse por 30 minutos.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Aparecidas

Se não fossem mulheres, não "apareciam". Decerto enviariam mensageiros para anunciar a sua chegada ou criariam algum pretexto para aparecer. Não boiariam em águas profundas, não mergulhariam em charcos, não habitariam grutas nem vagariam por regiões áridas a semear rosas. Surgiriam na marra, à frente de batalhões ou de algum dragão decapitado.

Se não fossem mulheres, decerto apareceriam só para parecer. Por exibição ou por umbigo não cortado, girariam as próprias células em torno do si: mesmo, idêntico, imutável.

Mas como eram elas e não eram eles, deram de aparecer em santidade quântica. Por pura aparecência se espalharam por grotas, oceanos, rios, lagos, janelas e charcos. Em silêncio. Sem alarde. Por gosto muito além da língua e do paladar.

E foram mastigadas em comunhão profana por toda ela outra que aparecia. Em princípio eterno, sem Verbo e ponto final, abraçaram o mundo em santíssima reticência.

Senhoras do Santíssimo Feminino


Talvez por saberem o quanto é difícil retirar as nódoas dos vidros, elas não apareceram nos das minhas janelas. Preferiram as vias do inconsciente e das sincronicidades junguianas. Mas a despeito dos recursos que utilizaram, a verdade é que chegaram. Em bando. Como um cortejo de mulheres em busca de uma liquidação que valha a pena. Chegaram em brilhos, com o mesmo sol ofuscante que um dia banhou os olhos de um índio lá pelas bandas do México. Não me pediram nada nem revelaram segredos quanto ao destino da humanidade. Me disseram que só queriam conversar e mais nada. Acostumada com as assombrações que teimam em me visitar desde menina, não me assustei nem achei estranho. Afinal, que diferença haveria entre o fantasma de minha bisavó Luiza e a aparição de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro? Se muitos encontraram refúgio sob o manto da Virgem, sob as saias negras de Luiza muitas crianças escaparam das palmadas dos pais. Eliminada a hipótese de qualquer diferença, recebi as Senhoras (e o seu séquito de santas) com a mesma intimidade que um dia recebi Dona Lua (e o seu séquito de deusas) de vó Vitalina e os orixás de Vera, a doce cozinheira da minha infância. Entediadas com as pompas que os mortais lhes reservam quando com elas querem falar, as Senhoras respiraram aliviadas quando se viram em meio a um bando de mulheres a tagarelar na cozinha. O riso, antes aprisionado por um contorno sutil de imagem, explodiu solto, livre e sem compromissos. Os véus foram retirados e deixados nos encostos das cadeiras. As mãos, dormentes pela incômoda posição de eterna prece, soltaram-se ávidas, à procura de um naco de pão ou de alguma guloseima. Os braços, antes enrijecidos na intenção de um abraço impossibilitado pelo gesso, descobriram os desenhos dos gestos e o calor do toque. Enfim, agora estavam livres para ser somente mulheres. Mas como dizia Vitalina, " mulheres são mães dos milagres"...
Na foto,Vita e Nazir; Senhoras de extraordinária força.
Obs:texto extraído de meu livro, "Senhoras do Santíssimo Feminino" editado pela Editora Rosa dos Tempos.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Um Livro Heróico.


Plínio Sandoval é tudo, menos o herói que o título deste segundo romance do escritor carioca Daniel Frazão sugere. Desempregado, passa os dias observando as moscas de seu decadente apartamento em Copacabana morrerem dilaceradas pelo ventilador de teto enquanto cultiva pensamentos homicidas em relação a seus vizinhos de prédio – o síndico boçal e o casal que transa enquanto ouve sinfonias de Wagner – e toda a humanidade. Isso quando não pensa em dar cabo da própria vida. Sandoval só consegue esboçar um sorriso solitário quando lembra de Julia Monerat, seu amor platônico da adolescência, que ficou para trás na cidade natal, no interior do estado.
Sem nenhum amigo além dos colegas de trabalho e uma velha prostituta, Plínio tenta sobreviver numa cidade voraz, lidando com as desilusões, injustiças e desigualdades cotidianas. Sua trajetória muda, mas ainda assim sem nenhum ato heróico, quando recebe um telefonema do irmão, que ainda mora no interior, informando da morte de um tio do qual ele nem se lembra e da possibilidade de uma polpuda herança. Era a chance que ele tanto esperava para finalmente mudar de vida. Com seus últimos trocados, Plínio compra um terno barato para o enterro, a passagem de ônibus, e retorna à cidade de sua infância para encarar seus fantasmas.
Mas a papelada se atrasa e, para sobreviver enquanto espera a leitura do inventário, o trágico anti-herói resolve arrumar um emprego. O único adequado para suas qualificações – ele cursara apenas um período de faculdade para em seguida abandonar tudo – é o de ajudante de médico-legista no Instituto Médico Legal. Enquanto esquarteja corpos em decomposição, Sandoval reflete sobre a própria existência e fantasia sobre o seu amor perdido de juventude. Quando o testamento finalmente é aberto, seu conteúdo é inesperado.
Um relato original e tragicamente divertido sobre a efemeridade da existência humana, protagonizado por um herói relutante e de caráter duvidoso, criado pela prosa fluida e gótica deste novo e promissor talento da literatura nacional.

Mistéricos


Elas lavam louças
e desintegram a cozinha
num gozo volátil de detergente.
Arranham as panelas como éguas
que rasgam o mundo com os dentes.
Penteiam-se como as cadelas
lambem seus corpos
como as esponjas lambem panelas.
Como brilham.
Como brilham...
Descascam as batatas
Cortam maçãs
Arreganham vaginas aquáticas
enquanto descaroçam romãs.
Virgínia areava as panelas como se fosse colocá-las na caixa de jóias. Polia inumeráveis vezes entre jorros de água e oceanos íntimos.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Camas




Nos quartos de minha infância, as camas falavam e me ensinavam valiosas lições. Com a de Nazair aprendi que Afrodite, apesar de ser a deusa das seduções, também expressa a ternura das mães e o aconchego das amigas. Na sua colcha de pele macia enroscaram-se amantes em noites de frio, amigas trocaram segredos íntimos e crianças buscaram refúgio. Foi na maciez de um urso disfarçado em colcha que as minhas primeiras gripes foram curadas.Filha predileta do centauro Quíron, Nazair tinha o dom da cura, mas não pôde frequentar uma escola de medicina por causa da rigidez do seu tempo. Assim, sem diploma nem ajuda de enfermeira, seguiu os passos da mãe,Vitalina, e tornou-se curandeira assistida por um urso tão eficaz que, da noite para o dia, Nazair se viu responsável pelos sarampos, cataporas,caxumbas, resfriados, otites, amigdalites, apendicites, dores de dente e febres de todos os seus sobrinhos. Não sei se pela maciez da pele de sua colcha, ou se pelas aventuras tatuadas nas noites de frio ou pelo tropel de Quíron no seu quarto, era na cama de Nazair que os males iam embora. O urso-colcha cobriu a sua cama até o instante em que seus sobrinhos cresceram e deixaram de ver o centauro, as fadas do armário e os anjos do quarto. Um belo dia foi-se embora da mesma forma que se foram o sarampo e a catapora. Sumiu como por encanto! Não perguntei a Nazair para onde ele tinha ido. A tristeza não comportava explicações... Hoje, quando a Ceifadora já podou tantos galhos da minha família, me dou conta de que, por mais que o tempo passe e as lembranças se tornem rasgos de esquecimento, o quarto de Nazair permanece nítido na minha memória, habitado outra vez por Afrodite, Quíron e um urso disfarçado em colcha. E me dou conta de que os toques mágicos de uma feiticeira são imunes ao tempo e ao esquecimento.

obs 1: texto extraído de meu livro ,"A Casa da Bruxa", Editora Planeta do Brasil

obs 2: foto de Nazair

terça-feira, 11 de março de 2008

Santa Maria da Terra

No dia em que Maria nasceu, sem porquê nem quê, a terra deu de sangrar lá no Grotão das Moscas, onde penavam as carcaças dos desvalidos e amaldiçoados. Lugar seco, cruel e malvado, renegado até pelo Diabo.
Maria nasceu bem na risca que separava o mundo dos vivos do charco dos assombrados. Nasceu de vida morta, de uma vagina seca que nem o chão a queimar a sola do cortejo que acompanhava o cadáver. Nasceu embrulhada em dois embrulhos: uma caixa de ossos descarnados e uma rede poída, rota e encardida.
Parida sem contrações nem berro,
Maria brotou no mundo bem no instante em que a primeira pá de terra seca foi lançada na cova. Brotou assombrada, sem susto, em meio a ladaínhas e velas.
Talvez pelas chagas do
Cristo
da mãe ou pelo pouco de placenta que restara, a terra sangrou justo na hora em que Maria ia ser com a mãe enterrada.
Não sei se por crença num Deus que por eles não velava ou por medo de um Capeta que os renegava, o povo deu à Maria o nome da Terra.
Como não nasceu filha de Deus nem enteada do Diabo, Maria cresceu sem milagres. Por falta de um pão que servisse de molde não o multiplicou e por excesso de mortos não teve tempo para ressucitá-los. Mas conheceu o calvário de perto, com os olhos que a terra há de comer.
Seja pela ausência de milagres ou pela carência absoluta de maldade
, Maria cresceu tão comum que um belo dia ficou invisível como a gente do seu povoado.
Embora nos contos de fadas a invisibilidade seja um poderoso instrumento mágico, para
Maria era corriqueirice mesmo. Era o estado máximo de uma vida desnotada, em branco, daninha como o mato.
E assim invisível
Maria da Terra foi erodindo e secando o pouco de água que tinha. Não deu frutos, não pariu rebentos, não brotou na primavera nem germinou no inverno. Penou calvários sem cruz, mas munida de enxada.
Tal qual erva daninha que toma conta de terra ociosa - que de tão ociosa só serve para alimentar
o gozo de quem a possui -, Maria, sabe-se lá por quais artes de quem, um belo dia pariu um milhão de larvas.
Não sei se por carência de mãe que ensinasse as coisas de mulher ou se pelo estado comum de
substantivo sem gênero, Maria confundiu as larvas com filhos. Alimentou-as com o pouco de pirão de farinha que tinha e amamentou-as com as lágrimas da humilhação.
Quando as larvas atingiram o tamanho certo para arar a terra que não era de Joana, nem de Pedro, nem de José, nem de Severina, nem de Antônio, nem de Raimundo, nem de Donana e sim
de um alguém que de tão visível nem precisava aparecer, Maria deu uma enxada e uma foice para cada filho.
Na invisibilidade comum dos assombrados, ninguém se assombrou com as larvas a arar a terra. No roçado não havia lugar para os assombros e o horror e a morte conviviam em assombrada comunidade.
O Tempo foi escorrendo entre os calos das mãos de Maria da Terra até que um dia, sem ser convidado, adentrou pela casa acompanhado da
Morte. Maria não se avexou pela miséria da casa e repartiu com as visitas o pouco de vida que ainda tinha.
Maria morreu assim que os visitantes tomaram o rumo do Grotão das Moscas. Na manhã seguinte foi outra vez embrulhada em dois embrulhos: uma caixa de ossos descarnados e uma rede poída, rota e encardida.
Sete dias após os vermes terem comido o pouco de carne que tinha,
Santa Maria da Terra fez o primeiro milagre: no roçado, as larvas criaram asas e viraram borboletas.
Não sei se pela santidade do milagre ou se pelo pólem que as borboletas espalharam no ar, os olhos do povo invisível olharam e se reconheceram no olhar do outro, se viram belos, viram a terra que era de todos e descobriram que tinham asas para voar.
As borboletas? Ah, essas andam voando livres pelos campos e estradas, espalhando o pólem da visibilidade e agitando as asas em coloridas bandeiras...

Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!