domingo, 28 de dezembro de 2008

Resoluções Drásticas


se você já cansou de ver sua conta no vermelho, de ser íntegro, honesto, digno e fiel aos seus princípios; se já se deu conta de que este mundo definitivamente não tem lugar para os poetas, romancistas, pintores, cineastas, dramaturgos, escultores, filósofos, estetas e todos aqueles que sonham com um mundo mais justo e mais belo, talvez seja hora de aproveitar alguma das minhas resoluções...

Resoluções Drásticas

No ano que vem fecharei os olhos para o Belo e não mais procurarei estrelas em céu nublado. Queimarei todos os meus livros, principalmente os de filosofia e poesia. Não acreditarei mais nos utópicos e dos poetas manterei distância. Comprarei livros novos, especializados na "difícil" arte de vencer na vida sem fazer esforço ou de enganar os trouxas sem nenhum escrúpulo.
No ano que vem me filiarei a um partido e me tornarei capacho de algum político. Me especializarei na "nobre" arte da estupidez e engodo. Farei tudo que o mestre mandar e se ele disser que a Terra é quadrada, assinarei embaixo. Me tornarei exímia na "fabulosa" arte de escrever palavras vazias em discursos cheios de más intenções. Anularei de tal forma minha integridade e compostura que no final serei recompensada: virarei presidente de alguma estatal.
No ano que vem babarei o ovo de alguma estrelinha ou de algum galãzinho bonito que de arte só entendem a de revistas versadas em fuxicos e babados. Me esquecerei de Cacilda, Fernanda, Marília, Dina, Isabel, Natália, Ítalo, Walmor, Autran, Borghi, Petrin, Gracindo, Procópio e tantos outros, verdadeiramente abençoados por São Shakespeare. Por falar nele, o descanonizarei e o enviarei para o limbo, junto com o velho Lear.
No ano que vem desafinarei meus ouvidos e vibrarei com o máximo de lixo musical que conseguir ouvir. Quebrarei todos os meus discos de Jobim, João Gilberto, Maria Callas, Nara Leão, Elizeth Cardoso, Maysa, Ellis, Wanda Sá, Edu Lobo, Caetano, Mutantes, Gil, Maysa, Amália Rodrigues, Charlie Parker, Os Cariocas, Tom Waits, Marina Lima, Dorival, Nana, Ray Charles, Bessie Smith, Billie Holliday, Luis Melodia, Etta James, Jacques Brel, Edith Piaf, Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Joan Baez, Clementina de Jesus, Cartola, Dr. John, Nina Simone, os Chicos (Buarque e Cesar)... e comprarei todas as éguinhas-pocotó que encontrar pela frente.
No ano que vem me tornarei guru de alguma estrelinha, astro do futebol ou de uma nova emergente e cobrarei fortunas por cada palavra (?) que eu vier a falar. Aliás, não falarei nada. Guru que é bom é aquele que olha, fica calado e mantém um ar distande, acima de qualquer mortal.
No ano que vem farei previsões para o ano seguinte e aparecerei em todos os canais de TV (de preferência com o telefone para consultas devidamente creditado na tela). Vaticinarei acidentes e mortes de celebridades (sem citar nomes, é claro!), seguidas por possíveis triunfos da seleção, casamentos e divórcios de artistas, gongorras financeiras e desilusões políticas (como se isso fosse novidade!).
No ano que vem esquecerei o meu curso de Filosofia e arrumarei um diploma em alguma universidade holística ou de marketing empresarial. Ministrarei palestras e darei workshops caríssimos, voltados para temas ardilosos tipo "Descobrindo o seu Eu Interior", "Os Anjos e os Negócios", " Torne-se Afrodite em Dois Dias" e "Os Deuses Empresariais". Estarei rica em pouco tempo e nunca mais ficarei no vermelho. Platão, Kant, Sartre, Descartes, Hegel, Hume... certamente entenderão minha completa falta de princípios e excesso de fins.
No ano que vem fundarei mais uma igreja evangélica e afirmarei que Jesus cura em suaves prestações e que o Paraíso pode ser financiado pela Caixa Econômica sem assinatura de qualquer avalista. Tirarei encostos, exorcizarei demônios e vícios, muito mais barato que qualquer outro concorrente. E se os meus sermões convencerem, me tornarei dona de uma estação de tevê e de um partido político.
No ano que vem terei me tornado tão medíocre, tão abjeta, que se eu morrer nem o Diabo aceitará minha alma.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sweet Sertralina

Doce,
amarga na euforia.
Biombo das dores
oculta os ais
e escorre a vida... feliz.
Cadê meu comprimido?
Já desceu pelo canal da garganta?
E cadê eu que não me encontro
com a minha dor?
Cadê meus ais,
e sei lás?
Onde foi parar a lágrima
que nascia, eterna,
entre a ladeira do nariz
e o túnel dos olhos?
Ah, sweet sertralina,
tão doce como os adoçantes,
artificiais...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Janis Ian & Eu


Hoje a encontrei esquecida no quarto,
lacrada em dezenove voltas de durex.
Grogue, pastosa, aguda.
Zonza de cuba libre e gotas de calèche.
Lanhada no rosto, braços e virilha.
"Society's Child ild...ild...",
me disse,
repetindo a última sílaba.
Depois, apontou para uma agulha.
Não houve jeito de tocá-la.
O tempo tinha rodado

em vinil...



obs: se você gosta das minhas sandices (deve haver pelo menos um alguém que goste), dá uma passadinha numa livraria que eu estarei lá, esperando, sob o nome de Senhoras do Santíssimo Feminino, da editora Rosa dos Tempos. E... se de repente minhas sandices já tiverem se espalhado por todo o seu organismo, como um vírus ou uma bactéria vital, dá uma espiadinha em meus outros livros, tá?

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Joni Mitchell & Eu


Não usou relógio,
não foi apressada
e achou que Deus era um bicho-papão.
Andou de taxi,
mas só nos grandes,
velhos e amarelos.
No azul catou notas de blues,
dissonantes, tristantes.
No verde encolheu e encolheu
até parir em little green.
Em Jó só conheceu Joni,
a dos dós, dos rés e dos sis.


Obs: se você quer se dar ( não vale pedir para alguém) um presente de natal pra ficar guardado no cofrinho da memória, passa numa loja de discos e leva a Joni Mitchell pra casa. E se der tempo ( e sobrar dinheiro ) dá um pulinho numa livraria e me leva também - eu juro que sou uma hóspede comportada - disfarçada de Senhoras do Santíssimo Feminino, da editora Rosa dos Tempos ou de Amor se Faz na Cozinha, da editora Bertrand, ou de Guadalupe e As Bruxas, da editora Planeta.

sábado, 25 de outubro de 2008

Dezessete Palmeiras, Rua Paissandu & um Rio Grande


Da praia,

dezessete palmeiras até minha casa.

Dezessete gigantes

a guardar passos e tropeções.

Na primeira esquina,

uma lanchonete, americana.

Do lado outro da rua,

um rolls-royce negro

estacionado em uniforme espera

de fumaça continental.

Quarenta e cinco passos adiante,

sapatos sem pés em vitrine

e frascos de remédios em prateleiras,

geometricamente posicionados

entre a marquise

e o buraco do suicida.

Depois do sinal, verde, é claro,

mais cento e cinco passos

e alguns sacolejos dos dedos

ao longo de grades enferrujadas.

Parada obrigatória na cerca de ficus.

Alguns assovios e depois fuga,

dos lacerdinhas.

Enfim, os últimos passos.

Dois bancos de mármore

num jardim art deco.

186 arfadas

mais nove degraus de um rio grande

que descia em tapete vermelho

para desaguar em elevador de madeira

com botões de marfim,

grade dourada e um poço escuro.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Tubinhos, Traças & Chaves


Cadê meu velho armário?
Em quais cabides
se esconderam os tubinhos,
as kilts inglesas
e os conjuntos de cashemere?
Cadê os sapatinhos baixos,
cavados até o dedão?
Cadê as tardes de sábado
e vitrola suitcase
preparada para a festa?
Cadê a festa?Quem apagou a luz
e chamou o síndico?
Cadê Billie que não canta,
Chet que não sola,
João Gilberto que não namora
e Elvis que não rebola?
Em qual buraco se meteu
a dor trágica dos amores
sempre não correspondidos?
Em qual vácuo do ar
se dissipou o pinho silvestre
do cheiro dos meninos?
Cadê o coração que não dispara,
a voz que não defunta a garganta
e a boca que não molha?
Chaves trancaram o armário
e no centro do quarto vazio
um espelho em viuvez
reflete um bau de lembranças...
roídas pelas traças.
Obs: se você gostou, dá uma lida em meu livro O Feitiço da Lua, publicado pela Editora Bertrand. Aposto que você gostará.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Sorvete, Jóias & Freud

Aos sábados, pela manhã, Nazair me levava para tomar sorvete na Colombo. Depois, empanzinada de caramelos, calda de morango, cobertura de chocolate, marshmellow coroado por rubra cereja, eu a seguia pelas vielas estreitas do centro da cidade num cortejo bizarro de experimentações de chapéus cujas plumas me provocavam espirros, vestidos negros de lantejouladas transparências, sapatos suspensos por agulhas que quase alcançavam o céu. A cidade era então um mistério acetinado, um enorme rolo de tecido prestes a rolar do balcão e cobrir a gigantesca Avenida Rio Branco, que por sua vez não era um rio nem era branca.
A peregrinação se aproximava da hora do a qualquer momento quando Nazair gentilmente, com a característica desplicência dos ricos de bolso e espírito, empurrava uma transparente porta de vidro decorada por floreados e letras douradas. Nessa hora meus olhos ardiam como se mirassem o sol, um sol travestido de diamantes, esmeraldas, trançados de fios de ouro e platina que lânguidamente penetravam pelos dedos, punhos, colo e orelhas de Nazair. Mesmo sem ter a mínima idéia do que era sexo, rotulei-o como uma porta de cristal aberta para lânguidíssimos movimentos de gemas. Sexo era isso e ponto final.
Alheia as minhas conjeturas eróticas, Nazair escolhia algumas jóias que ritualísticamente eram colocadas em caixas de couro negro estofadas com cetim. As jóias eram cadáveres de belas adormecidas em ataúdes escuros, à espera de um beijo. Morte e sexo se trançavam num mesmo nó, num instante de gozo e desfalecimento, numa porta que se abria para uma caixa que se fechava. E eu ainda nem tinha lido Freud...



Se você quiser conhecer um pouco mais de Nazair, dê uma lida em meu livro, Guadalupe e as Bruxas, publicado pela Editora Planeta.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Salto 2 1/2 sob Livros

Em ponta de lua crescente
equilibravam-se.
Jazidos em ataúdes de papelão
como defuntos siameses
em triste arremedo de Shakespeare.
Sob colcha de celofane aguardavam
o badalar do relógio da etiqueta
- suiçamente exato -
deitar um livro sobre a cabeça
e depois riscarem o piso da sala
em monótono passeio de soldados.

Grafite, Sartre & Lee Konitz

Por que lapiseiras não tocam?
Grafites bem que podiam tocar.
Improvisar notas
sem verbos
conjunções
preposições
sinais.
Grafites deviam ser maleáveis
rápidos e reticentes
como um solo de Lee Konitz.
Grafites bem que podiam ser soltos,
etéreos
ásperos
inexplicáveis.
Grafites deviam parar de tentar
explicar o mundo,
pessoas
estados e tempo.
Grafites deviam esquecer a náusea
e ouvir mais música.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Cuba Libre & Saias


Num atlas talvez desenhado por um cartógrafo bêbado, Cuba encontrava-se geograficamente situada entre o quarto, o corredor, o salão e o quinto andar de um prédio art déco da rua Paissandu. Longitude 186, latitude 5. Coordenadas invariáveis de uma república cujos únicos furacões e abalos sísmicos se resumiam ao farfalhar das saias a ventar rebolados e às imperceptíveis fendas que os saltos agulha, 8.5, abriam no assoalho impecavelmente encerado.
Por vezes, muitas vezes, maremotos agitavam cubos de gelo em mares de uísque e ojos verdes se faziam heridos de sombras. Nessas horas as batidas dos corações se confundiam com as dos bongôs e as narinas ventavam quentes arrullos de palma. Nessas horas, invariavelmente Conceição, a copeira que se achava musa de Cauby, me descobria escondida no corredor de uma alfândega que barrava meninas de dez anos de idade. Cuba era então para mim interdita e até os quatorze anos me foi negado visto de entrada em seu território.
Talvez pelas conversas que meu pai trocava com os amigos a respeito de uma mestra maestra que executava, no topo de uma serra, sonatas e rapsódias com uma porção de alunos tão pobres que tocavam violinos com arcos de facões enferrujados e por falta de instrumentos de percussão disparavam balas por toscos rifles, ou pelos suspiros que as mulheres trocavam no banheiro - entre novas camadas de batom, pó de arroz e lufadas de channel nº 5 - ao se referirem a um magnético guerrilheiro, meu interesse pelo país foi crescendo tanto que um dia ludibriei os fiscais alfandegários e entrei de clandestina na ilha, escondida atrás de uma poltrona.
Cuba, acolhedora das boas revoluções, acolheu-me. Revelou-se em pleno farfalhar acetinado de saias, no aroma de lavanda e pinho a exalar das barbas, nas risadas intervaladas pelo escorrer do álcool garganta abaixo, na fumaça dos charutos encontrando-se no ar com a dos cigarros equilibrados em longas piteiras. Fumar era naquela época tão livre como Cuba.
Minha permanência no país durou até o momento em que fui rastreada pela burocracia (infelizmente, até no estado revolucionário ela existe) e deportada para o meu quarto, tendo que atravessar o país de pijamas. A humilhação - como acontece com os verdadeiros revolucionários - não abalou minha fé na revolução e por muitos anos freqüentei Cuba na clandestinidade. Se fui descoberta? É claro que sim. Porém, retornei muitas vezes. Não seriam as deportações que me roubariam o gozo de ouvir Ibrahim Ferrer e o tilintar do gelo dentro de copos de Cuba Libre.



obs: se você gosta dos meus textos, que tal ler meus livros? De prima, indico Guadalupe e as Bruxas, editado pela Editora Planeta e Senhoras do Santíssimo Feminino, editado pela Rosa dos Tempos, um selo da Editora Record.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Donas

Domina são donas sem domínios
dominam o nada
dispensam o tudo.
Domina são donas dos desígnios,
conduzem o destino em entrudo.

Domina são dominós femininos
que riscam pontos na escuridão.
Ferozes e meigas como felinos
Senhoras da ruptura e da perversão.

Domina são barcos sem marinas,
missas negras sem Papa e sem latim.
Domínios de tules e bailarinas
Tatuam os lábios com rubro carmim.

Domina são donas sem
que dão à luz e engolem a vida
nas tripas sangrentas do nó.





Virgínia rezava para Fátima. No avarandado do fundo da casa conversava com a moça azul que chegava ao final da tarde. Conversa azulada, encantada, refogada. A moça ajudava o preparo da janta enquanto Virgínia orava e catava feijões. Orações culinárias, ensopadas, encorpadas. De tão íntimas, eram uma. Virgínia era Fátima e Fátima era Virgínia. Uma era virgem. A outra, nem tanto.

domingo, 17 de agosto de 2008

Mother Spell

Que um dia você não se perca
entre a cozinha e o corredor.
Que vire Houdini e abra
correntes e baús fechados.
Que não assuma dívidas
por maternas fibras desdobradas.
Que não se obrigue a nada
que o coração não mandar.
Que não tenha medo do mundo
nem das cidades nem dos subúrbios.
Que não tema o pânico de si
e como spiderman agarre sua alma.
Que se perca em amores impossíveis
mas possibilite-se.
Que desperdice o tempo
pois a vida não usa relógio.
Que cresça,
diminua,
encolha e alargue
quando der na veneta.
Que desoriente como Alice,
que apresse como o coelho,
que escape como Snark,
que confunda como Peter Pan.
Que fuja de Otelo
mas persiga noites quentes de verão.
Que seja o que já é
o que será
e o que já foi sendo.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Janelas e Colchas

Quando a bainha da saia da noite arrastava pelas calçadas, acendendo os postes da rua e tocando os passarinhos para casa, Vitalina me chamava para tecermos a nossa colcha de sonhos na janela. Arrastávamos então duas cadeiras e no chão deixávamos os cestos, onde guardávamos o nosso material de trabalho: dois pares de raios de lua como agulhas, e risos, dores, desejos, tristezas, lembranças, raivas, fracassos, decepções, medos, amores, desamores, ilusões, realidades, desesperos, descrenças, entusiasmos, alegria e fé, enrolados em diversos novelos.
Sentávamos bem próximas do parapeito da janela e enquanto a saia da noite farfalhava faróis a buzinar aflitos para chegar em casa após um dia inteiro de trabalho, inalávamos o perfume da noite e começávamos a tecer.
A princípio, por ocasião das primeiras laçadas, atrapalhei-me com o manejo das agulhas e ainda não tinha muitos novelos ao meu dispor. Os raios de lua, embora eternos, de tão flexíveis eram difíceis de manejar. Diferentemente de Vitalina, que tinha uma variedade de novelos, os meus eram uns poucos metros de fio: o dos amores, um pouco menos, e o da fé, um pouco mais roliço, apresentando pequenos nós que embaralhavam o tricotar.
Vitalina dizia que a prática e mais novelos viriam com o tempo. E que os nós no fio da fé eram para ser assim mesmo, "porque senão não é fé".
Também custei a me acostumar com a falta de visibilidade do trabalho. A colcha parecia não passar daquela primeira tripa de laçadas que inicia o crochê. Vitalina ria da minha impaciência, dizendo que no início as colchas da janela são difíceis de se ver. E torcendo na agulha um fio, arrematava: "a veneziana do tempo é que dá forma às colchas".
Texto extraído de meu livro A Casa da Bruxa, publicado pela Editora Planeta.

sábado, 9 de agosto de 2008

Dive David


Dive
David
Tongue língua
Lynch.
Silent noise.
Dive
Deep
David.
Lance insight
Lynch.
Is
land ilha
Dive
Deep
David.
Beyond
mais ali
Lynch.

Morrer Morrindo


Quando o sol esfriava a cabeça do cristo redentor e o fogo do desejo piscava no céu, disfarçado em primeira estrela, a língua da cidade balbuciava orações. Ave marias. Pai nossos. Salve rainhas. Credos. Água no copo. Radiofonia romana em césares subindo ladeiras.
Depois, quando a noite caía, acendia-se uma vela. De sete dias. Para um anjo em guarda. A intensidade da chama media a espada. Longa, se intensa; curta, se pálida. Em casos extremos as asas e a espada eram reforçadas pelo éter das almas benditas. "Alma dos inocentes, daqueles que morreram rindo com a boca e os olhos", dizia Benedita, a babá de Mauro, meu irmão caçula.
Morrer sorrindo... Como alguém pode morrer sorrindo? Morrindo? Morrer era então morrir. "Mas só para poucos", Benedita revelava, iluminada pelo tremeluzir frio da vela.
Quando morriu, num casebre perdido na clareira de uma favela, congelou o olhar de esperança e os deixou de herança para os filhos. Um tico de esperança muita. O mesmo tico que Deus deve ter deixado quando morriu para criar o Todo Tudo Possível.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Mais Além de Paris


La vie en rose
nem sempre piafa.
Paris blecauteia
em passos torpes.
Mais pourquoi sont-ils
si médiocres?
Rio,
Paris,
Mar de Espanha...
Que importa o lugar
quando almas são pequenas?
Lugares são lugares.
Ruas,
pedras,
rios,
vielas,
janelas,
portas,
putas,
marginais,
escroques.
Cidades são iguais
nos mapas.
Mas os homens,
os verdadeiros,
não se adequam a geografias.

sábado, 2 de agosto de 2008

David Lynch & Eu

Embora o anonimato do tradutor acabe criando uma espécie de timidez patológica, desta vez não me contive: traduzi o livro do David Lynch!!!
O livro, Em Águas Profundas, é de extrema delicadeza, um primor de pensamento, doce que nem doce de leite. Me faz feliz pensar que de alguma maneira, por mais escondidinha que seja, participei desta obra tão delicada. Gisela Zingoni, minha doce amiga e baita editora da Gryphus, deu-me o mais precioso presente quando me deu o livro para traduzir.
Agora espero ansiosamente, tietemente, que David autografe um exemplar só para mim. Ufa! estou emocionada. O livro é uma obra definitiva, irreversível, de delicadeza e humanismo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Mixing André Mux



Drumond bem que apontou
certos anjos...
Tortos,
avessos,
caóticos.
Não segui o sinal
e ele chegou:
do lado do avesso,
no centro da mesa,
num ali mais além
do acolá.
Misturou melancia
com gelo e vodka.
Caímos bêbados
na cozinha porão de Ana.
Desde ali,
uns aquis e acolás
misturados.
Fixados em plumas
de vedetes.

Este é pra você, André.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sincréticas Avós


Vitalina dizia que "não há impossível que não se realize com uma boa receita". A sua convicção era tanta que, quando ouvia alguém reclamando de que algo não corria bem, ela dava um profundo suspiro, fechava os olhos por alguns segundos e depois surpreendia o aflito, dando-lhe algumas de suas receitas, que iam dos "Quiabos da Felicidade" às "batatas do Dinheiro".

Virgínia, por sua vez, não era tão eclética com as receitas e achava que "não há mal que não se cure com um doce", conforme ela mesma dizia. Acreditava tanto nessa máxima que ela me parece ter sido a única avó a substituir a tradicional canja dos convalescentes por arroz-doce.

Confesso que na infância fui seduzida pela magia de Virgínia e que muitas vezes inventei dores em troca do seu famoso pudim de pão, ou de uma farta fatia de pudim do céu.

Embora poderosas e eficazes, as magias não eram iguais. A magia de Vitalina, pagã por natureza e coração, era mais explícita e desprovida de qualquer culpa cristã ( o seu famoso vinho de Eros que o diga...). Já a de Virgínia, católica e fervorosa devota de Maria, era menos envolvida com a gula da carne e mais voltada para as transcendências ( ela dizia que "as santas, os santos e os anjos não gostam de muitas intimidades"). Apesar de tão diferentes, o engraçado é que as duas formavam um perfeito equilíbrio que só entendi muitos anos mais tarde, quando estudei o maravilhoso sincretismo religioso que acontece no Brasil...
Texto extraído do meu livro "A Casa da Bruxa", publicado pela Editora Planeta
as receitas estão lá...

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Relapsos Diários

Relapsos Diários Para a Juventude
ou
Como Viver Na Corda Bamba Em 10 Lições


Escrever não é nada tão lindo para mim. É uma mistura de amor e horror. É me achar e me perder ao mesmo tempo. Volto pra casa, e me distancio do mundo dentro de uma boca negra e sem dentes.
Dei um nome pra isso. Sou um Maníaco-Depressivo Literário. Meu comportamento em relação ao que faço oscila entre a auto-adulação aguda e a mais profunda subestimação. As vezes tudo está perfeito, e as vezes tudo está errado. Ainda não sei se me encaixo no Top Ten ou no Under Ten. É, escrever é mais carnal do que se possa pensar. Gostaria de ter estabilidade em relação ao meu ponto de vista.
MEU EGO

é uma infinidade de pequenos Danieis
que correm e me matam.
Meu ego é uma horrível múltipla escolha.
Eu gostaria de pelo menos poder ser Byron.
agora é o momento pra um poema, não é?
Ah, vai se foder!


Único fato: Eu nunca estou a altura de mim mesmo. E por mais que tente, tudo o que consigo ser é alguma outra pessoa. BURNIN' IN HELL? WHAT CAN I TELL?

o DIA após o NATAL. O DIA DE NATAL. the night before christmas. sempre um jantar e umas risadas e umas horas a gastar e o natal não abre a boca pra porra nenhuma. é o que eu vejo pela janela. o dia de natal. e porra nenhuma. ainda tem algumas sobras da night before christmas. um milhão de pessoas e sobras. AH! SOMOS SOBRAS DE NATAL, DE QUALQUER MANEIRA. COMO SOBRAS DE GUERRA. DESPEDAÇADAS. MISSAS DO GALO E PERUS ENFURNADOS NOS FORNOS DA FAMÍLIA OCIDENTAL. O NATAL OCIDENTAL. O HOMICÍDIO ORIENTAL.

Uma vez eu subi num PALCO. Uma noite iluminada de um festival literário, recheada por poemas divididos em ESTROFES SIMÉTRICAS e estudantes adolescentes carregando pais e avôs. Mas eu era tímido, novo e esperto demais pra me apresentar pra uma multidão de FAMÍLIAS ÁVIDAS POR SANGUE. Um moleque qualquer leu o poema no meu lugar. Não era nada demais, uma nojeira empolada sobre Vlad Tepes, na época em que eu pensava estar polido em cima de Notredame. O garoto arruinou com a poesia. Mas FODA-SE, o poema já era ARRUINADO por si só.

Regra número 1: escreva e fale para si mesmo. mas nunca fale para outrem o que você escreve para si mesmo. fale para outrem o que você não fala para si mesmo. fale para si mesmo o que você não fala para outrem. escreva o que não é escrito, fale o que não é falado. e deixe eles pensarem o contrário.

Sou um escritor ou um malabarista?

gostaria de poder girar malabares da mesma forma que giro palavras. poderia fazer um circo e tanto.

Espero on line pelo resultado de todas as provas finais que fui obrigado a fazer na faculdade. Qual dentre tantos urubus solenes de garras manchadas por chocolate derretido e uma trilha de bombons em seu caminho irá me presentear com uma reprovação? Eu tenho uma infinidade de opções. Suas lógicas jurídicas os levam à belíssima conclusão de que eu sou um resíduo tóxico, um delinqüente pós-juvenil agonizando pelos corredores universitários e com todo o lixo cósmico do universo flutuando pelas órbitas de uma cabeça vazia, alguém a se trucidar com reprovações e repreensões. É claro que nenhum deles jamais entrou no meu site. Talvez se entrassem...sua lógica seria reforçada ainda mais. ha,ha,ha.

ha, ha, ha é o caralho.

As férias não foram feitas pra se pensar em universidades ou em universos, o que no fim das contas dá no mesmo.
regra número dois: deixe que eles pensem que você está pensando. e sempre pense o que eles não estão pensando que você está pensando. se for para expelir pensamentos alheios, não pense, seja burro. essa será a atitude mais sábia a se tomar.

O dia: cinzento. molhado. escorrendo pelos cantos escuros de um céu dormindo. caindo no meu quintal como um presente aberto e sem surpresas. aviões despedaçados atrás das montanhas e televisores. O dia: hoje. sábado pela manhã. 4 de janeiro. e o tempo correndo em círculos numa grandiosa e brilhante circunferência de mortes e infâncias perdidas. perdidas ao longo do caminho metálico do progresso. hoje eu estou teclando na frente do computador e uma pessoa varre a chuva da rua e tudo está bem dentro do silêncio.

Termino o meu segundo romance e posso ver que ele irá passar das 150 páginas que eu desejava. Estou na 142 e ainda existem coisas a serem esclarecidas. Não sei se ele será tão bom para os outros como é para mim e não sei se ele é tão bom para mim quanto será para os outros. As idéias do final se misturam com as idéias do começo. O começo do terceiro romance. Existem muitos romances por aí, e eu só faço a minha parte...

Decidi ser um desgarrado de ideologias e comportamentos.


Me decepcionei com todas as tribos. No fundo todos eles são um bando de idiotas e bundinhas perfumadas.

A galera da zueira é superficial demais. E acha qualquer tipo de sopro de vida dentro de um cerebelo uma verdadeira perda de tempo, uma grandessíssima chatice. Eles não sabem porra nenhuma, nem mesmo trocar as próprias fraldas. Vão acabar virando um amontoado de merda cor-de-rosa cheirando a chiclete mastigado. São tão imbecis a ponto de ostentar a imbecilidade.

A galera intelectual é metidinha demais. Se acham uns refinados. E se aproximam da "arte" a ARTE que eles fazem biquinho para pronunciar, não porque gostem de ler ou de escrever ou de ouvir um som ou de tirar um som, mas usam esse tipo de coisa apenas para exibir um statusZINHO imbecil. Eternos críticos. São escritores não para escrever mas para dizer que escrevem. Admiram determinado escritor não porque sentem no fundo de suas tripas de merda as palavras escritas que ele imortalizou, mas apenas porque é "CULT" (blearg...) e AVANT GARD. No momento em que o povo começa a escutar o que o tal intelectualzinho está dizendo e a admirar também o seu escritor preferido, ele fica fulo da vida pelo fato do seu ídolo ter caído no gosto geral. Ora, meu caro, você não gostava do sujeito? Devia estar feliz por ele estar se popularizando... Ou será que você só gostava do CULT que ele lhe proporcionava? se quer saber... VAI TOMAR NO CULT!

Me decepcionei com todos eles. Ninguém é sincero e todos se escondem atrás de pequenas auto-afirmações. Isso me faz bocejar mais do que qualquer aula de matemática que eu já tenha freqüentado.

Regra número três:
Se puder
seja um desgarrado.
As garras esmaltadas das iaras
e sereias
cibernéticas
rasgam fundo
e desfiam
almas.
por isso que eu vejo filmes de terror vagabundos e sangrentos
mesmo que os refinados digam BLEARG...
por isso que eu leio Dostoieviski
e Cortázar
mesmo que os zueiros digam BLEARG...
porque HENRY & FRANK
MILLER
falam a mesma língua.
e eu falo a minha língua.


Texto de Daniel Frazão, extraído de seu site, http://www.beatbblearg.hpg.com.br/ Vale a pena dar um pulinho lá e conhecê-lo. O site é belíssimo.


sexta-feira, 11 de julho de 2008

Não Quero Ser John Malcovich




Não quero ser John Malcovich.


Prefiro ser Antonio Cicero.


Se soubesse do meu desejo


Cicero soltaria uma gargalhada,


me mandaria plantar batatas


e ser eu mesma.


Malcovich é só um americano


com síndrome de europeu.


Cicero é universal.


Sem síndrome.


terça-feira, 1 de julho de 2008

Casa, Física & Polegares

Quando saía de casa, Vitalina carregava com ela a casa. E de nada adiantava tentar convencê-la do excesso de carga, porque ela não escutava. Simplesmente trancava os ouvidos e balançava os ombros com desdém, lançando a quem lhe aconselhava o mesmo olhar que dirigia aos estúpidos. "Onde já se viu deixar a casa em casa?", perguntava com ar de reprovação. Ao conselheiro restava o silêncio e, na medida das hipóteses, a resignação de ajudá-la a carregar a sacola...
Certa vez, um conselheiro mais intrépido, recém-saído de um curso de Física, bem que tentou demonstrar a impossibilidade "física" do deslocamento das casas pela cidade. Vitalina, que naquele dia estava na posse do seu melhor humor ( ou quem sabe interessada nas leis da Física ), deixou que o pobre infeliz traçasse uma profusão de cálculos, retas, curvas, pontilhados, vetores e incógnitas sobre pilhas de papel.
Ao chegar na última folha, após uma exaustiva exposição do deslocamento da massa no espaço, o físico arrematou os cálculos com um pomposo resultado: IMPOSSÍVEL! Vitalina ficou por momentos em silêncio, rodando os polegares em direções opostas. Eu, que já conhecia o trajeto desses dedos e sabia muito bem aonde eles podiam chegar, bem que tentei impedir o desfecho, convidando o físico para conhecer as gardênias que acabavam de florescer. Mas os homens de ciência são teimosos e entre gardênias e definições sempre optam pelas últimas. Assim ele preferiu se agarrar aos seus cálculos e fechar os olhos para o trajeto assimétrico da curva dos polegares.
Se ele tivesse prestado atenção no movimento dos dedos de Vitalina, não ficaria tão espantado com a resposta que ela deu aos seus cálculos. Se pelo menos tivesse medido a trajetória e o ritmo daquelas curvas, não teria ficado com cara de tolo ao ouvir sua resposta. Ah, se ele tivesse apreendido aquele instante em que as curvas, dando um rodopio no tempo e no espaço, cessaram o movimento com movimento e pararam em lugar nenhum, isso o impediria de expor a face da burrice quando ela, categórica, lhe disse: "Onde já se viu deixar a casa em casa!"
Depois dessa resposta, Vitalina virou de costas e foi preparar a casa para um passeio. Na bolsa guardou o banheiro, o quarto e a sala. Na gola do vestido pregou a cozinha com um broche. No bolso da saia abrigou o quintal e os móveis. Abriu as janelas por detrás dos olhos e escancarou as portas do coração. Não levou chaves. Não trancou recintos.
Texto extraído de meu livro A Casa da Bruxa, publicado pela Editora Planeta.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Parcus Tristes



Porcus tristes. Amei a expressão e troquei o ‘o’ pelo ‘a’, para torná-la mais de acordo com o mundo tristíssimo em que vivemos. Um mundinho careta, abominavelmente comprometido com as falcatruas, as ignomínias e o desamor.
Ah, parcus tristes, como foi que a humanidade foi parar no esgoto e não se deu conta? Por que continuas a me olhar com esses olhões de vaca triste? Por que o teu leite tem o gosto das lágrimas e tua carne, o sangue da violação?
Por que te tornaste um sacrifício estéril e nem as virgens te honram? Por que tanta paura e solidão no trabalho das tuas parcas irmãs?
Por que a agulha, a tesoura, e o tear delas já não norteiam os homens e inspiram os poetas?
Ah!, parcus tristes, por que emagreceste e te tornaste um esqueleto que assusta as noites e enegrece os dias? Por que já não habitas os confins do Egeu, junto aos lamentos e uivos do homem? Por que assumiste o lugar de Eros? Por que trancafiaste o pequeno deus?
Por que viraste uma afirmação sem perguntas que insiste em não me ouvir?
Agora os tempos são de Parcus Tristes - o deus que o homem, em sua insensatez, elegeu como guardião.

terça-feira, 24 de junho de 2008

A Arruda e a Ruta Graveolens


Dona Belinha é a pessoa mais sábia que conheço. Nunca saiu de Friburgo, não passou do ginásio e muito menos leu Sócrates. O seu conhecimento não percorreu os corredores das universidades nem as páginas dos livros. Saber genuíno, visceral, integro, digno. Não possui a arrogância dos "cultos" nem o pavonismo dos deslumbrados. É um saber matuto, humilde, delicado e receptivo. Não se aborrece com o outro nem disputa palitinhos com este. Recebe o mundo de braços abertos e sempre tem um sorriso para consolar os aflitos. Não é televisível (a humildade não combina com as telas), não é colunável... É bojudo e pleno como um domingo de sol, carinhoso como o afago de um filho, gentil como o laçado do tricô de uma velha. Nunca deu cursos e fica vexada quando lhe pedem para que ensine. Quando a conheci lhe pedi que me ensinasse. Me conduziu então a sua cozinha e serviu-me café com broa de milho. Falou-me dos netos, bisnetos, e dos seus tempos de mocinha. Perguntou-me sobre a minha vida. Quis saber os nomes que dela fazem parte. A tarde transcorreu entre lembranças e sonhos. Quando sai, percebi que tinha aprendido a lição do mundo. Desde então ficamos amigas. Trocamos sonhos, costuramos idéias e bordamos caminhos. Vez por outra por lá aparecem outras amigas e juntas colhemos ervas, criamos perfumes, cozinhamos xaropes e unguentos. Belinha ri quando chamo a arruda de "ruta graveolens". Perto dela o conhecimento acadêmico vira um menino vaidoso e sem sentido...

Nair e Apuleio


Nair partiu para o outro lado sem ter conhecido as artimanhas do amor. Morreu quando ainda era uma menina, uma mocinha que adorava bailar sobre os patins. Um dia rodopiou tanto, que vazou o mundo dos vivos e foi parar lá pelas bandas do Rio Letes. Ficou amiga dos deuses e dos semideuses que escreveram sobre eles. Conheceu o amor pela voz de Apuleio. Ficou tão impressionada, que procurou Eros e Psique para "passar a limpo" a história que o autor tinha escrito sobre o romance dos dois. O casal confirmou cada palavra. Quando Eros me flechou pela primeira vez, Nair recomendou-me Apuleio.
Texto extraído de meu livro Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand

terça-feira, 17 de junho de 2008

Uma Gata Absíntica

Rachel amava os gatos
e a vida.
Odiava os medíocres.
Com esses era ranzinza,
impaciente e ... implacável,
por que não?
"De noite vira bruxa",
diziam os vizinhos.
Rachel ria e bebia absinto.
Absíntica, enigmática,
tão maníaca por mitos
que beirava a mitomania.
De tanto amar os gatos
acabou virando uma...
gata.
Revirava latas de caviar
e lambia lascas de camembert.
Uma gata de gosto
fino,
sutil,
refinado.
Um dia subiu no telhado
com o violino
e o cálice de absinto.
Abriu os braços,
esticou a coluna,
arrepiou os pêlos
fechou os olhos
e parou o coração.
Num salto mortal se foi
para o outro lado do mundo.
Sem vassoura
atravessou a lua
virou uma estrela.

Rachel Melamet era uma gata. Uma amiga gata que deixou de miar nos telhados daqui da Terra porque Deus (sempre Ele) a chamou... no cio.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Honesty

Dá-se uma chance.
Quem a conhece?
Como reconhecê-la?
Chances.
São tantas...
Podem estar
num viés de aspas
num ponto e vírgula,
numa reticência...
É só procurar.
E... tomar uma atitude.
Pequena,
milimétrica,

depende de quem precisa de
uma chance de
vestir-se de novo de
humanidade de
gente de
bem.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Advogados, Santos e Guevara


Dr. Plínio Marcos Pinheiro da Silva, o São Plínio daqui de casa, despontou na minha vida muito antes que o conhecesse e o canonizasse. Confesso; canonizei-o sem consultar Roma nem o bispo da cidade. Fui direto a Deus, dispensei intermediários e não apresentei provas de nenhum milagre. Deus, por onisciência ou bisbilhotice celeste, já conhecia os milagres do santo e acatou a santidade. Eu devia ter desconfiado de tamanha presteza. Devia ter desconfiado que Deus esconde sempre uma carta no bolso...
Conheci São Plínio quando eu era criança e ele nem desconfiava da minha existência. À época, ele morava no fogo do olhar de Sobral Pinto, o vizinho advogado e amigo de ranzinzices de Vita, minha avó. "É fogo da justiça", vovó me disse no dia que perguntei e quis saber se queimava. "Queima só os injustos; os justos, ele aquece", ela respondeu com ares de sabedoria.
Vita canonizou São Sobral Pinto quando avistou, lá da Rua Pereira da Silva, os canhões subindo pela rua Paissandu e invadindo o Palácio da Guanabara. Canonização de emergência. Sem pompas. Sem comunicar a Deus. "O Bisbilhoteiro já está careca de saber das artes santas do doutor Sobral", Vita me disse apressada enquanto distribuía os cartõezinhos do vizinho para algumas mães que choravam o desaparecimento dos filhos, engolidos pela metálica goela de um gigantesco tanque verde-oliva, estacionado de costas para a baía da Guanabara e de frente para um mar de estudantes.
O Direito, ou "sacerdócio dos justos e corretos... tão poucos" - como um dia me revelou o professor Roberto Lyra, jurista amigo de meu pai que de tão muita justeza e corretice me convenveu a não canonizar o próprio pai para não recair em nepotismo aos olhos de Deus -, fazia parte da minha vida como o sol que nascia todas as manhãs, o mar do Flamengo a se encrespar tímido em imperceptíveis ondas, o pimentão com açúcar saboreado às escondidas, os trabalhos de matemática exigidos na escola e as multiplíssimas pessoas que por mim passavam todos os dias.
Por artes da hermenêutica ou por operação geométrica da mais pura matemática, naquele tempo o pouco contava mais que o muito e as injustiças eram combatidas pelos salmos do Processo Civel e Processo Penal. Pelo comprometimento com a retidão e pela sensibilidade com a dor (e as posses) do cliente. Honorários? Esses eram marxísticamente equilibrados: os ricos pagavam em gorduras que não lhes faziam falta e os pobres, com esperança, galinhas do quintal, couve da horta, broa de milho "assada pela patroa" e a palavra (naquele tempo ela valia) de que acertariam as contas quando tudo melhorasse. Invariavelmente, por ímpetos são jorgísticos ou por puro deleite de Deus, as coisas melhoravam e as contas eram acertadas.
Eu devia ter desconfiado do jogo obscuro do Divino Jogador quando Roberto Lyra se foi, seguido por Sobral Pinto, Heleno Fragoso e os tantos poucos que partiram. Eu devia ter desconfiado quando a mente clara de meu pai turvou-se pela sombra das asas negras do mensageiro Alzheimer. Mas como pimenta nos olhos do outro é refresco e ainda não havia pingado nos meus, chorei os mortos e segui minha vida sem me dar conta de que o Jogador tramava novas cartadas...
Foi então, no dia em que um inventário nos pegou de surpresa, com a rede armada para os ilícitos que quase sempre acompanham as partilhas, que me vi, junto com minha família, ardida pela mais poderosa pimenta. Os santos, aqueles santos de carne e osso que certamente nos socorreriam já não estavam presentes. Nossos bolsos - como os bolsos de todos aqueles que optam pela trilha da Arte, da Cultura e da Solidez da Honestidade e Dignidade Humanas - estavam vazios e os honorários dos tantos muitos eram muito caros. Foi assim que surgiu o Dr Plinio Marcos Pinheiro da Silva, que assumiu nosso caso e por ele batalhou como só São Jorge (e outros tão poucos) batalharia. Indignou-se quando os muitos da outra parte nos lançaram as mais torpes acusações, revirou seu estômago guevarista quando os muitos da outra parte - tentando anular a voz da juíza que nos dera a inventariança - alegaram que nosso "estado lamentável de pobreza" nos tornava futuros ladrões. Foi nessa reviravolta estomacal que reparei que seu amor pelas motocicletas e pela justica tinha um padroeiro: São Che Guevara.
O tempo passou entre agravos de instrumento, petições, prestações de contas não prestadas, processos apensados e recursos - nem sempre fiéis à justiça - dos muitos da outra parte. São Plínio em momento algum vacilou em sua fé por nossa verdade e com sua lança de fogo nos protegeu como se fôssemos seus próprios filhos.
Não sei se por prole incomensuravelmente enorme (não era só a nós que ele defendia) que exauria suas forças, ou pelo jogo obscuro de Deus, certo dia São Plínio deu de definhar e definhar e definhar e definhar e foi definhando. Mesmo com o corpo agonizante ainda encontrou forças para digitar uma petição, pedindo à juíza um prazo de suspenção do andamento do processo. "Sobrestamento; um tempo para vocês encontrarem um dos muito poucos", ele me disse num telefonema.
Como São Plínio era um santo canonizado pelo coração do povo e o amor dos mais fracos, deu-se um milagre: do nada, do outro lado do fio do telefone, surgiu a Drª Ana Michelle Lula, nossa nova advogada, devidamente canonizada. E como o poder de santo guevarista é mais veloz que a mais poderosa motocicleta, não contente por nos ter apontado Santa Ana Michelle, São Plínio nos acenou com a certeza de que embora poucos, os muito poucos ainda transitam pelos corredores dos fóruns e pelas praças que são do povo como o céu é do condor: por vias também santificadas fez com que Angela Dutra de Menezes, uma grande amiga escritora, me apresentasse o Dr Wagner Brito, advogado, devidamente canonizado.
Não sei se pela doença que já o enfraquecera o bastante, ou pela pressa de entrar no jogo obscuro de Deus, São Plinio partiu como os outros muito poucos que eu conhecera. Pelos anos de convívio com tal alma guevarista que só acelerava a motocicleta nas horas de necessitadíssima justiça, compreendi as regras do jogo obscuro de Deus e vi a carta guardada no bolso: Ele, o Onisciente, o Criador de tudo, está selecionando os bons advogados que O assessorem no dia do Juízo Final...



Este texto foi escrito para um dos melhores advogados e seres humanos do mundo: Plínio Marcos Pinheiro da Silva, que passou pela vida com tal dignidade que em sua breve passagem por este mundão de Deus (e do Diabo), fez o mundo respirar mais JUSTO.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Uma Rosa de Plástico


Vitalina cultivava rosas no jardim. Brancas, vermelhas, amarelas e, por incrível que pareça, rendadas. Gostava de acordar de manhãzinha e aspirar o "cheiro do amor", como ela mesma costumava definir o misterioso aroma das rosas. Não era egoísta e compartilhava com os vizinhos aquele prazer rosado. Cedia rosas para os buquês das noivas, para os caixões dos defuntos, para os cabelos das moças, e para as bruxas amigas que com elas fabricavam estranhas poções. Vivia feliz entre um canteiro e outro, e achava que um dia o mundo todo cheiraria a rosa...
E assim, nesse cotidiano rosáceo, Vitalina testemunhou eleições e golpes. Viu Juscelino passar em frente à sua casa e lhe deu uma rosa. Recebeu Goulart com um botão bem vermelho. Tonteou com tanto perfume que acabou acreditando em Jânio, e lhe deu também uma rosa. Rosa esta que lhe causou uma rusga na vizinhança: Sobral Pinto, o seu amado vizinho, enfureceu-se com o cartaz de uma vassoura que Vitalina cismou em pendurar na janela. O que Sobral nem de longe desconfiava é que Vitalina era uma bruxa ativista que pensava que a tal vassoura era um simples logotipo do PBA, Partido das Bruxas Anárquicas.
Vitalina recusou-se a ceder suas rosas ao golpe. Escondeu-as atrás de uma cerca e à noite, quando a cidade toda dormia, regava-as e podava os espinhos. As rosas cresceram clandestinas. Aprenderam a despitar o aroma e só se abriam quando não havia ninguém por perto. O comunismo rosado era mal visto naqueles dias... Mas Vitalina, militante convicta do PBA, sempre arrumava um jeito de dividir suas rosas com os vizinhos. E foi assim que uma noiva casou-se com um buquê de rosas disfarçadas de jasmins e uma alma cruzou o Leto segurando uma rosa travestida em lírio...
Vitalina não viveu para ver a libertação dos seus canteiros. Morreu durante o reinado golpista. Não levou suas rosas para dar de presente a Hades. Deixou-as comigo junto com um misterioso aviso: " Não deixe que a Rosa de Plástico entre no canteiro."
Depois da sua partida, corri a fazer um cartaz: PROIBIDO ROSA DE PLÁSTICO. Finquei-o bem na entrada dos canteiros. As rosas, avessas a toda e qualquer falsificação, agradeceram.
Até que chegou o dia que Vitalina tanto temia: uma rosa de plástico surgiu nas cercanias. Chegou exalando um perfume barato, uma santidade medíocre, uma ternura suspeita. Escondeu os espinhos, pensando que assim seria bem recebida. Que tola. A tonta não sabia que as rosas nunca escondem os seus espinhos... Mas a Rosa de Plástico pouco sabia das rosas e de tanta ignorância se nomeou Rosinha. Que tola. A tonta não sabia que as verdadeiras rosas não aceitam os diminutivos...
E assim, as rosas de Vitalina expulsaram aquela tosca falsificação.
Mas como a Rosa de Plástico é por demais insistente e a todo custo (e muitas custas) tenta invadir os jardins, repito mais uma vez o aviso que Vitalina deu antes de ir se encontrar com Hades: cuidado com a Rosa de Plástico e o Garotinho que a acompanha.



Escrevi este texto há muitos anos e hoje comprovei a sabedoria de Vitalina quando ao ligar o rádio ouvi a notícia do indiciamento do ex governador Garotinho num processo de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Os Olhos de Ecio Mello

Farinha de trigo
água, sal e fermento.
Alguns temperos...
inconfessáveis.
E lá estava ele,
assado,

na temperatura certa.
Olhos que olhavam,
mastigavam a vida
em nacos.
Sorriu.
Elogiou a textura
e deu-me um jantar de presente.
Que presente!
Na sobremesa serviu olhos...
melados.
"Olhos de criança",
ele disse.
Papo de anjo, pensei.

domingo, 25 de maio de 2008

Morrida de Saudades




Hoje à noite,


Ina latiu.


Abanou o rabo.


Pediu um biscoito.


Depois foi caçar leões,


lá na Rodésia.


Ao partir,


me lambeu.


Acordei morrida.


Atrás da lux dos olhos de André Mux,


à cata da rainha de Adriana Reis,


em busca das maçãs do rosto de Ana Durães.


Acordei morrida de saudades,


dos meus amigos.






sábado, 17 de maio de 2008

Ashes

No meu funeral, quero me vestir de cetim.
quero um batom vermelho como sangue
e perfume de jasmim.
No meu funeral, quero estar gostosa
como uma estrela saída da tela.
Quero poetas, pintores, cantores, e atores
mas não quero nenhuma vela.
No meu funeral quero piadas e risadas
quero beijo na boca, vinho, e perversão.
E... por favor, não fechem o caixão.


Virgínia era trágica como os precipícios. Escondia Shakespeare no olhar. E embora devota, era irmã das pragas. Amaldiçoava os injustos, os cruéis e os malvados com a justiça e a bondade das madonas.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Afazeres

1. Morar em Friburgo só pra sentir mais saudade do Rio.
2. Fazer pão nas tardes de inverno, ao som de Cat Stevens
(ou de Joan Baez ou dos cânticos da novena da vizinha beata).
3. Semear sementes na horta e gozar com a colheita.
4. Morrer de saudades do Piauí
e me banhar nas águas do Poty
(mesmo sendo elas meras lembranças)
5. Ouvir a voz dos poetas e refogar arroz com coentro.
6. Ter esperança, muita esperança e sempre esperança.
7. Fazer geléia de morango silvestre (este ano a colheita foi boa).
8. Fazer o doce de leite que o Moacy Cirne me ensinou
(dá uma trabalheira danada!).
9. Ouvir os fados de Amália e o fado de Callas .
10. Ser esquizofrênica até a última célula
e achar que ainda vale a pena acreditar no Belo.
11. Ter esperanças de que as pessoas comprarão Apenas Um Herói, livro de meu filho, Daniel Frazão, recém lançado pela Editora Rocco.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Babalu, a Violência e Olinda

Quando as pernas ainda eram fortes e nenhuma bala lhe cruzava o caminho, Olinda subia o morro de São Carlos a contar cada degrau da ladeira. Sem pressa, sem medo de polícia nem bandido. Subia carregada de tecidos. Lãs, popelines, shantungs, brocados e mais os aviamentos. Era costureira. A melhor costureira que as madames do asfalto já tinham conhecido.
Costurava panos e pregava botões na vida. Remendava meias e destinos. Nas horas vagas, quando os pés desgrudavam do pedal da máquina de costura, Olinda escutava as cantoras do rádio. Gostava de ouvir Ângela, a menina que conhecera no coro da igreja, a louvar Babalu, um Deus que não conhecia. Nessas horas, o mundo era para ela mais uma conquista do Zinco. Conquista almada, alinhavada com linhas de notas musicais...
Quando as cantoras se despediam e os reclames anunciavam as maravilhas do talco Cashemere Bouquet, Olinda desligava o velho rádio e ia para o portão, munida de cadeira e caixa de costura, conversar com as vizinhas. A brisa morna do fim de tarde embalava as conversas. Naquela época, recheadas de casamentos, primeiras comunhões e batizados.
Era nessa hora que Olinda sentia orgulho de estar ali, bem no alto do São Carlos, bem acima das feiúras que ela via todo dia no asfalto. E era justamente por causa dessa feiúra que ela trazia os tecidos para costurar em casa. Ali os alfinetes não espetavam o corpo das freguesas, as pences se postavam geométricas um pouco abaixo dos seios e um pouco acima da cintura. Pura questão de simetria, dizia a patroa, dona da loja chique em que Olinda trabalhava.
Se era questão de simetria ou magia (dizem que Olinda herdara os dons das linhas e tesouras de uma velha feiticeira), isso ninguém sabia. Olinda guardava bem os seus segredos. Guardados a dezenove chaves, os segredos operavam verdadeiros milagres.
Quando o carnaval se achegava matreiro, manso e regado à cerveja, Olinda lá estava ao pé da máquina, bordando as fantasias da Unidos de São Carlos (que para ela nunca deixara de ser a Deixa Falar). Bordava com tanta maestria que a escola brilhava na avenida, aclamada por uma arquibancada que nem de longe desconfiava que as luzes das lantejoulas e as plumas das passistas eram obra da mais fina costura. Olinda, com os olhos pregados na televisão, relembrava cada remendo na dor e privação de cada lantejoula. Relembrava os sonhos costurados nas franjas da porta-bandeira, a esperança bordada no chapéu do mestre-sala, e sorria com seus botões, ciente do seu trabalho de costureira.
Durante anos foi a responsável pelas fantasias da escola. Formou aprendizes e chegou até a pensar em um dia fundar uma escola de corte e costura para as escolas de samba. Mas o trabalho na loja não deixou que o sonho se concretizasse. E assim o sonho de perpetuar os remendos do samba foi ficando para trás, como um alguém a acenar na despedida de um navio.
O tempo passou e Olinda continuou no morro. A loja chique fechou e as freguesas do asfalto já não queriam mais se parecer com a Conceição que Cauby cantava. A Deixa Falar caiu para o segundo grupo, os vestidos de casamento foram comidos pelos cupins e as cantoras do rádio emudeceram. A cadeira perdeu as pernas e as vizinhas ficaram mudas. Mas Olinda continuou no portão, só que desta vez contando os mortos e se desviando das balas...
Hoje, quando a tarde se despede do dia e uma lua enorme surge no céu, Olinda lá está no alto do Zinco, sentada numa cadeira sem pernas a acenar para o asfalto, pedindo a Babalu que olhe pelos panos rotos que as suas mãos já não conseguem remendar.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dali, Daqui, De Lá, De Acolá.

A variedade de universos que se escondia dentro dos banheiros da minha vida nunca me deixaram constrangida nem culpada pelas transformações. Essas transformações faziam parte da tradição mágica das mulheres de minha família. Assim, não me assustei quando aos cinco anos inundei as pastilhas brancas do assoalho com o sangue vívido e pastoso de uma fenda no pé, produzida pela lâmina vítrea de um caco de Chanel5. O âmbar do perfume mesclou-se com o vermelho do sangue, pontilhando ilhotas de lajotas portuguesas. Portugal nunca esteve tão próximo e tão concreto para mim. Naquele instante fui Carmina, Urraca, Afonsa, Domingas e todas as mulheres que me antecederam numa Lusitânia mais além da baía de Guanabara. Não tive medo. O sangue pingou os rostos ocultos na minha face.
Quando os adultos me encontraram no banheiro, gravando no chão as pegadas de um jogo sanguinolento de amarelinha, custaram a entender a razão do meu silêncio; e, sem argumentos, preferiram atribuí-lo ao choque. Eu estava em estado de choque, cortada pela lâmina de Oyá e fulminada pelo seu raio.
Somente Virgínia, a senhora avó da verde Mangualde, viu o rosto da Deusa refletido na transparência da água que vertia do chuveiro. Somente Virgínia viu as faces ocultas na face de uma menina que, no dia em que completava cinco anos, escalou as brenhas íngremes da Serra da Estrela, disfarçadas em bancos de madeira, e travestiu de neve a chuva de granizo que insistia em cair lá fora. E foi nessa hora em que enxergou séculos nos meus cinco anos que Virgínia disse: "A miúda cortou-se como se cortou minha mãe!".

Nesse dia, muitos anos antes de ler, Oui 2, L' arcangelisme scientifique de Salvador Dali, entendi as suas palavras:


Minha metamorfose é tradição, porque tradição é precisamente mudança e reinvenção de uma outra pele. Não se trata de uma cirurgia estética ou de uma mutilação, e sim de renascimento. Eu não renuncio a nada. Eu continuo.
+ + +
Texto extraído do meu livro A Casa da Bruxa, publicado pela Editora Planeta

terça-feira, 22 de abril de 2008

Bullgáricas


Eu nunca fui à Bulgária
e muito menos conheci um búlgaro.
De lá não pude trazer nada
E mesmo se pudesse
a alfândega confiscava.
Aliás, no dia que consegui o visto
o aeroporto estava em greve.
Fui então ao açougue e comprei um bife
um corte de bull sangrento
suculento
que na frigideira
como Zeus
me deu a Europa.

Saudades de Jorge Salomão




Pseudo blues
Jorge Salomão



Dentro de cada um


Tem mais mistérios do que pensa o outro


Uma louca paixão avassala a alma o mais que pode


O certo é incerto,


o incerto é uma estrada reta


De vez em quando acerto,


depois tropeço no meio da linha


Tem essa mágica


O dia nasce todo dia


Resta uma dúvida


O sol só vem de vez em quando


O certo é incerto,


o incerto é uma estrada reta


De vez em quando acerto


Depois tropeço no meio da linha
Cadê você, meu amigo? Estou com saudades.

Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!