quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sincréticas Avós


Vitalina dizia que "não há impossível que não se realize com uma boa receita". A sua convicção era tanta que, quando ouvia alguém reclamando de que algo não corria bem, ela dava um profundo suspiro, fechava os olhos por alguns segundos e depois surpreendia o aflito, dando-lhe algumas de suas receitas, que iam dos "Quiabos da Felicidade" às "batatas do Dinheiro".

Virgínia, por sua vez, não era tão eclética com as receitas e achava que "não há mal que não se cure com um doce", conforme ela mesma dizia. Acreditava tanto nessa máxima que ela me parece ter sido a única avó a substituir a tradicional canja dos convalescentes por arroz-doce.

Confesso que na infância fui seduzida pela magia de Virgínia e que muitas vezes inventei dores em troca do seu famoso pudim de pão, ou de uma farta fatia de pudim do céu.

Embora poderosas e eficazes, as magias não eram iguais. A magia de Vitalina, pagã por natureza e coração, era mais explícita e desprovida de qualquer culpa cristã ( o seu famoso vinho de Eros que o diga...). Já a de Virgínia, católica e fervorosa devota de Maria, era menos envolvida com a gula da carne e mais voltada para as transcendências ( ela dizia que "as santas, os santos e os anjos não gostam de muitas intimidades"). Apesar de tão diferentes, o engraçado é que as duas formavam um perfeito equilíbrio que só entendi muitos anos mais tarde, quando estudei o maravilhoso sincretismo religioso que acontece no Brasil...
Texto extraído do meu livro "A Casa da Bruxa", publicado pela Editora Planeta
as receitas estão lá...

5 comentários:

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

Você é uma escritonota mil.Adorei.
marthacorreaonline.blogspot.com

CHRISTINA MONTENEGRO disse...

A primeira referência de "ritual pagão" que tive na vida, foi aos meus seis anos, na casa da minha avó Maria (alemã gordinha, bem alta, uma fortaleza), pegando uma galinha no quintal dela, matando e depenando ela para o almoço; fiquei impressionadíssima! não tive medo, nojo, nada disso; a sensação era de que estava acontecendo ali algo MUITO solene e importante; alguma coisa que - sem dúvida - tinha PODER. O que a saborosa galinha ao molho pardo só confirmou...rsrsrs
O teu texto acolhe a gente...
OBRIGADA!

Graciela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Graciela disse...

Marcia, adorei teu espaço.....não me canso de olhar, ler , desfrutar...parabéns!
posso anunciar o link do seu blog no meu site?
beijo grande!
graciela
www.gracielascandurra.com.br

MJFortuna disse...

Marcia, adoro o que você escreve. Esta junção do sagrado com o profano... é tudo de bom!
Um abraço

Maria J Fortuna

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Foi uma delícia escrevê-lo!