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Marcia Frazão
Escritora, bruxa, anarco-feminista, caótica, visionária, ensandecida, alucinada, caipira pós-moderna, lunática e... brasileira!!!! Mãe do melhor escritor do mundo, Daniel Frazão, que escreveu um livro BÁRBARO, "CERCO", publicado pela editora Rocco e que já está lançando o segundo, "Apenas Um Herói", pela mesma editora.
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Freud, a Mortíssima & Eu

A Mortíssima bem que podia ter me avisado que levaria Maria Luiza em pleno sono. Mas não, preferiu se fazer de sonsa e não avisou. Fingiu despreocupação supérfula e optou por perguntar pelo capítulo da novela que perdera na véspera. "Dia afobado. Andei tanto que estou cheia de bolhas nos pés," ela disse, exibindo os pés descarnados. Como se bolhas brotassem de ossos...
Fingindo não dar atenção ao meu desconforto, acomodou-se de crânio e ossos na poltrona mais confortável da sala. "Morreu tranquila... sonhando com seu pai," disse enquanto escorregava um biscoito pela boca escancarada, sem goela. O que sabia ela de sonhos? Atarefada pelo ofício de recolher almas - e corpos - , a Mortíssima mal diferia de um gerente de banco ou de um burocrata que sorri para rostos sem faces. Que pelo menos ela não tenha sorrido quando estendeu as mãos ossudas para minha mãe... Que tenha tido a gentileza de esperar o final do sonho...

Alheia aos pensamentos que revolviam meu cérebro como larvas de bicheira de cavalo que perfuravam toda a massa encefálica até torná-la fluida, impalpável enxaqueca, a Ossuda prosseguia com o rol de assuntos descarnados, maquiados com os mesmos tons das visitas que chegam sem chegar. Gutural, áspera, arenosa, lodosa, sua voz penetrava pelos meus ouvidos como uma agulha de tricô metálica, comprida, fina... que tricotava medonhos buracos entre o coração e o esôfago. Devo ter demonstrado claramente a minha agonia porque que lá pelas tantas seus ossos paralisaram num olhar oco, encovado. Do fundo das duas covas rasas, empedradas, secas, depauperadas, eclodiu um eco: por que você, monte de ossos, não me avisou antes?

Indiferente, a Mortíssima sacolejou os ossos, ajeitou o crânio, alongou as extremidades ossudas e olhou para o relógio à parede. Quarenta e cinco minutos exatos tinham transcorrido desde a sua chegada. Em impassível indiferença a Ossuda se foi, sem se despedir nem agendar uma nova visita...

domingo, 29 de novembro de 2009

Portugal, o Baú & Virgínia

Quando chegou ao Brasil, Virgínia guardou Portugal dentro de um enorme baú de madeira. Cobriu-o com um lenço florido e franjado. Ali a Lusitânia ficava quieta, esperando que Virgínia o abrisse quando sentisse saudades. A princípio o baú era aberto umas três vezes ao dia. Virgínia descalçava os sapatos, sentava na borda e enfiava os pés nas toalhas, fronhas, lençóis e álbuns de fotografias do Rio Dão. Alheio às estranhas águas, o rio rolava seixos por entre os dedos da rapariga que um dia conhecera em Mangualde. Nessas horas, Virgínia chorava. As lágrimas molhavam as roupas do oceano que margeava Lisboa. Subitamente os seixos secavam para que ela e Amália Rodrigues subissem a Rua do Capelão. Subiam cantando como só as portuguesas cantam. Portugal nessas horas também chorava. Pegava uma guitarra esquecida no fundo do baú e desenhava notas num fado. Não sei se por fado ou destino, Virgínia um dia mergulhou no Dão e nunca mais retornou. O baú continua no mesmo lugar, fechado, cerrado, dolorido como o fado. A chave? Virgínia a levou com ela...



Trecho extraído do meu livro, Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Vazio & Portas

Dessa vez a campainha não afundou no mar da insistência pregado um pouco abaixo do umbral da porta. Muda, sem ousar uma só nota, anunciou minha chegada no apartamento vazio. Nenhum som se fez na sala. Nenhuma tosse apontou a velha asma. Nenhuma estrela cintilou em olhos úmidos, curiosos, sombreados pela névoa da idade. O tempo parara equilibrado na tênue teia de aranha que pendia de um dos cantos do teto. Mas o apartamento não tinha teto, nem chão nem paredes... Só portas e vazio.
Entrei pela porta que outrora ligava ao quarto e não havia quarto. Contei dez passos e entrei pela porta que antes ligava ao banheiro e não havia banheiro, nem pia nem água. Onde eu estava? Em que dimensão ela se escondera? Em que vão eu me perdera?
Se ao menos ela tivese deixado um bilhete, um recibo de alguma viagem comprada ou só um recado seco indicando uma ida ao supermercado... Se ao menos ela tivesse deixado uma torneira aberta, uma panela no fogo, uma peça de roupa no varal... Se ao menos o telefone tocasse... Mas não, não encontrei bilhete, nem panela, nem recado, nem roupa no varal. O apartamento se equilibrava no vazio como uma teia de aranha capenga cheia de portas que não ligavam a nenhum lugar...
Se ao menos ela tivesse levado uma mala...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

No Vão das Coxas Dela

Ela dizia que doí quando despontei à beira do poço escondido no vão das suas coxas. Doí uma dor que ela nunca sentira. Dor doída, sangrada, melada, enrolada em tripa. Doí tanto que de susto os mamilos fecharam as bicas e empedraram a Via Láctea. Susto doído, gritado, esperneado, faminto, desamparado. Susto mariano, enrolado em mantas franjadas e fraldas molhadas. Susto - que me perdoem os Josés - solitário, frio por paredes frias de maternidades mais frias ainda...
Hoje, passados cinquenta e oito anos de vida aninhada em seus seios murchos, caídos, carcomidos pela terra que agora a cobre num poço escuro, sem coxas e sem vão, a dor - a dor danada - me estilhaça em Via Láctea sem leite, estrelas e vida. Doídamente descubro que aniversário só tem sentido quando as mães estão por perto...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Caixas & Orfandade

Seis dias órfãos. Seis dias de vãs tentativas de guardar cheiros, sorrisos, toques, suspiros, olhares... dentro de caixas. Mas caixas só guardam roupas, sapatos e objetos. Caixas não guardam almas. Caixas são desalmadas. Caixas encaixotam corpos que ficam largados, esquecidos em buracos ocos. Caixas sufocam, caixas desalmam...
Amor a gente guarda no coração sangrado, apertado de lembranças que morrem de medo de um dia serem esquecidas...

Obs: não tenho palavras para agradecer o carinho que recebi de amigos tão especiais. É tão bom ter amigos...

Obs2: na foto, Maria Luiza, minha mãe, ainda menina. Dando um tchau para nós.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Maria Luiza, Letes & Anjo


Ontem, as oito e meia da noite, um anjo levou Maria Luiza Pereira Frazão, minha mãe, para as terras do Letes.
Partiu dormindo, sonhando com os seus mortos que da outra margem do rio acenavam. Me deixou órfã, solitária como um quebra-cabeças faltando mil peças...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O Fantasma de Chet Baker


Eu devia ter desconfiado quando de repente a bolacha negra surgiu do nada na velha loja de livros velhíssimos. O que faria uma bolacha negra no meio de poeira e traças, exibindo-se em balé de 33 rotações? Seria algum recado da cantora de blues que se mostrava - mostrava não, se insinuava - nas últimas frases da Náusea de Sartre? Mas Sartre já tinha morrido e os anjos já o tinham entupido de sal de andrews. Simone já estava ao seu lado e já tinham até alugado um conjugado no céu... Não, não era a cantora de jazz nem o estômago delicado do filósofo. A bolacha vinha de algum lugar do Além que ficava além de minha nauseada imaginação.
Está certo, confesso, eu andava meio nauseada, meio desligada, tão meio desafinada que entrara na loja à cata de um livro qualquer de auto-ajuda - pode rir, é pra rir mesmo - de qualquer livro de no máximo oitenta páginas burramente distribuídas em cento e oitenta parágrafos que dissessem absolutamente nada. Nada do ser e do nada nem de filosofias que me confirmassem que não há nada mais cruel que ter idéias na cabeça. Eu precisava de um tudo estofado como um sofá das Casas Bahia, de preferência em suaves prestações, comprado com um cartão de crédito que o livrinho certamente me ensinaria como obter...
Foi no intervalo entre o desejo de me perder de "si" e me achar em "dó" de mim financiado pela Fininvest ou qualquer coisa que não valha que a bolacha rodopiou aos meus pés. Estiquei os olhos e lá estava Chet Baker, o fantasma que não era de Bakersville, mas uivava para a lua com um trumpete. Lá estava ele, saído do Nada da cantora da Náusea, do Uivo de Guinsberg e das estradas de Kerouac. Me olhou com aqueles olhos de belas heroínas e me chamou para dançar. Dançar?! Eu estava ali para encontrar o Graal da mediocridade em suaves prestações! Eu já tinha jogado fora todos os meus livros e os meus discos de jazz. Agora eu queria mais era jazer numa vida despreocupada, embalada por churrasco, cerveja e piadas idiotas. Eu queria aprender de cor todas as marcas de carros (parei no chevete), aparelhos eletrônicos e tralharias digitais. E lá me vinha Chet Baker numa hora dessas me chamar para dançar? Ele e sua heroína que continuassem a girar em trinta e três rotações. E que engolissem a agulha de diamante. Eu mesma já tinha jogado a vitrola fora...
Mas por artes da heroína de Chet ou do ácido lisérgico que os anjos cismam em misturar ao ar dos poetas, a bolacha começou a tocar sozinha. O que fazer? Como não fugir de "si" no "sol" de tanta música? E foi naquele segundo em que Chet começou a tocar que desisti da mediocridade medíocre de vencer na vida com titica na cabeça e, uivando os primeiros versos do Uivo, coloquei fogo na prateleira dos livros de auto-ajuda. Levei Chet para casa e dançamos a noite toda ao som de My Funny Valentine...

Livros & Livrarias

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Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.