quinta-feira, 1 de maio de 2014

Era Uma Vez Um Vestido Amarelo


A culpa certamente foi de Courrèges. O que é que eu tinha que cravar os olhos naquele vestido? Como é que minhas pernas roliças caberiam dentro daquelas botas que engoliam os joelhos? Como eu conseguiria andar?  E - o pior - como poupar a bolsinha branca dos murros que  meus joelhos  desfechariam na pobre coitada. Tão frágil, branca como uma Branca de Neve abatida num fedorento curtume, dificilmente a bolsinha aguentaria os trancos dos meus joelhos. Os pows e plaft plaftes deles não eram para qualquer uma, só minha velha mala de couro do colégio os encarava de frente.  Corajosa, audaz, carregada de livros e um estojo de madeira e mais uma caixa de lápis de cor (com VINTE E QUATRO lápis guardados por um um tucano), minha fedorenta  mala além de aguentar os trancos, revidava. Bem verdade que os revides deixavam hematomas, tanto nela como nas rótulas carnadas, mas isso é uma outra história; a verdade é que  da página da revista de moda de minha mãe lá estavam eles - o vestido, um par de botas brancas e uma bolsinha raquítica piscando os olhos para mim.
Quando apontei para o trio e anunciei a vontade de possuí-los, minha mãe me olhou de soslaio. Ela sempre olhava de soslaio em situações constrangedoras, mas eu, a encarnação familiar do constrangimento, ignorei. Afinal,estávamos quites em matéria de constrangimento:  ela (juntamente com todas as minhas tias lindissimas & chiquérrimas),  constrangida por ser mãe de um ser não identificado, desengonçado, de joelhos sempre esfolados, e eu, por  ser filha da própria Afrodite. Você acha que é fácil ser filha de Afrodite? Dói, dói muito...
Doendo como dente com nervo exposto a chupar gelo, persisti no desejo. Mamãe deu de ombros (quando ela dava de ombros era guilhotina, na certa) e telefonou para a costureira e marcou hora. Dona Hortência. Costureira de fino trato e mãos de alfinetes. Nos olhamos, não, ela me olhou e olhou para a fotografia na revista e abriu um sorriso de alfinete de fralda. Eu devia ter reparado no alfinetão a prender uma risada, mas me fiz de tonta. 
Mamãe escolheu os tecidos: shantung, se não me engano. Tirei a roupa e dona Hortência me tirou as medidas. O alfinetão à boca e fita métrica a postos. Foram dias de alfinetes. Dias e dias de alinhavos, de olhares de soslaio e meneio de ombros e alfinete de fralda, mas resisti e o vestido ficou pronto. Os acessórios já tinham sido comprados. Só faltava um convite para uma festa. Não teve.
Estóica (ou masoquista) aguentei o tranco e decidi tomar sorvete, sozinha, na confeitaria da esquina. Americana, ela se chamava. A caminhada se resumiu a metros e metros de briga acirrada, desleal mesmo, entre os meus joelhos e a bolsinha branca, e a um cortejo Daliniano de pessoas com bocas fechadas por alfinetões de fralda. Nunca mais usei amarelo... e fiz de Courrèges meu inimigo nº1.
Marcia Frazão

Um comentário:

Marcia Queiroz disse...

Olá Senhora de Todos os Tempos. Sou sua admiradora. Que bom que voltou !*!

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