terça-feira, 1 de julho de 2008

Casa, Física & Polegares

Quando saía de casa, Vitalina carregava com ela a casa. E de nada adiantava tentar convencê-la do excesso de carga, porque ela não escutava. Simplesmente trancava os ouvidos e balançava os ombros com desdém, lançando a quem lhe aconselhava o mesmo olhar que dirigia aos estúpidos. "Onde já se viu deixar a casa em casa?", perguntava com ar de reprovação. Ao conselheiro restava o silêncio e, na medida das hipóteses, a resignação de ajudá-la a carregar a sacola...
Certa vez, um conselheiro mais intrépido, recém-saído de um curso de Física, bem que tentou demonstrar a impossibilidade "física" do deslocamento das casas pela cidade. Vitalina, que naquele dia estava na posse do seu melhor humor ( ou quem sabe interessada nas leis da Física ), deixou que o pobre infeliz traçasse uma profusão de cálculos, retas, curvas, pontilhados, vetores e incógnitas sobre pilhas de papel.
Ao chegar na última folha, após uma exaustiva exposição do deslocamento da massa no espaço, o físico arrematou os cálculos com um pomposo resultado: IMPOSSÍVEL! Vitalina ficou por momentos em silêncio, rodando os polegares em direções opostas. Eu, que já conhecia o trajeto desses dedos e sabia muito bem aonde eles podiam chegar, bem que tentei impedir o desfecho, convidando o físico para conhecer as gardênias que acabavam de florescer. Mas os homens de ciência são teimosos e entre gardênias e definições sempre optam pelas últimas. Assim ele preferiu se agarrar aos seus cálculos e fechar os olhos para o trajeto assimétrico da curva dos polegares.
Se ele tivesse prestado atenção no movimento dos dedos de Vitalina, não ficaria tão espantado com a resposta que ela deu aos seus cálculos. Se pelo menos tivesse medido a trajetória e o ritmo daquelas curvas, não teria ficado com cara de tolo ao ouvir sua resposta. Ah, se ele tivesse apreendido aquele instante em que as curvas, dando um rodopio no tempo e no espaço, cessaram o movimento com movimento e pararam em lugar nenhum, isso o impediria de expor a face da burrice quando ela, categórica, lhe disse: "Onde já se viu deixar a casa em casa!"
Depois dessa resposta, Vitalina virou de costas e foi preparar a casa para um passeio. Na bolsa guardou o banheiro, o quarto e a sala. Na gola do vestido pregou a cozinha com um broche. No bolso da saia abrigou o quintal e os móveis. Abriu as janelas por detrás dos olhos e escancarou as portas do coração. Não levou chaves. Não trancou recintos.
Texto extraído de meu livro A Casa da Bruxa, publicado pela Editora Planeta.

6 comentários:

Guto Leite disse...

Gostei muito, Márcia! Adoro a moda da tua prosa de serpentear e desenrolar-se. As mulheres que nela surgem também são um alumbramento!
Grande abraço

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

Você me surpreende, suas histórias, são extremamente adoráveis.Você é demais.Continue sempre nos fazendo felizes. Um beijo

Luigi disse...

Vitalina é fantastica, diria que nos dias atuais carregaria o bolsão debaixo do braço e um oculos grande pra não chamar atencao nos seus olhares.
Sempre deliciosa suas historias, me delicio como um doce de goiaba da serra.
beijo

Marco Aqueiva disse...

Eu particularmente gosto muito de textos que exploram os limites de uma idéia insólita.
E você o fez muitíssimo bem!
Estou, aos pouquinhos, acompanhando sua produção no blogue.
Um abraço!
Marco Aqueiva
marcoaqueiva@ube.org.br

Nimbus disse...

Ola querida.

A benção dos Deuses a voce e a todos os seus! ^^

Vitalina é mulher incrivel! rsrs
Lembrou-me muito minha avó.

Adoro o modo como escreve. Como transborda vida em suas palavras.
Lindo, vivo, intenso.

Ankh, Udja, Seneb!

Beijos

Jhou disse...

Olá, é a primeira vez que visito deu blog e adorei!!!
Meu nome é Jhonathan e tenho 16anos, descobri a arte da bruxaria lendo A cozinha da bruxa, depois dessa leitura nunca mais parei sou fascinado pelos seu livros, e o pouco que sei aprendi com você, pois ao contrario de muitos não vim de familia de bruxos,mas continue assim sempre, passando um pouco da sua sabedoria para nó.
Muitas felicidades...

Chet

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