sábado, 9 de agosto de 2008

Morrer Morrindo


Quando o sol esfriava a cabeça do cristo redentor e o fogo do desejo piscava no céu, disfarçado em primeira estrela, a língua da cidade balbuciava orações. Ave marias. Pai nossos. Salve rainhas. Credos. Água no copo. Radiofonia romana em césares subindo ladeiras.
Depois, quando a noite caía, acendia-se uma vela. De sete dias. Para um anjo em guarda. A intensidade da chama media a espada. Longa, se intensa; curta, se pálida. Em casos extremos as asas e a espada eram reforçadas pelo éter das almas benditas. "Alma dos inocentes, daqueles que morreram rindo com a boca e os olhos", dizia Benedita, a babá de Mauro, meu irmão caçula.
Morrer sorrindo... Como alguém pode morrer sorrindo? Morrindo? Morrer era então morrir. "Mas só para poucos", Benedita revelava, iluminada pelo tremeluzir frio da vela.
Quando morriu, num casebre perdido na clareira de uma favela, congelou o olhar de esperança e os deixou de herança para os filhos. Um tico de esperança muita. O mesmo tico que Deus deve ter deixado quando morriu para criar o Todo Tudo Possível.

2 comentários:

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

Eu acredito que morrer ,e tudo isso sim.Acredito que a morte liberta, descança, que na verdade vontamos para onde viemos.
Querida, fiz postagem nova, apareça por lá.Um grande abraço, e um bom final de semana.
O problema terrível não é morrer, é como se morre, pareçe que nos dias de hoje o "sistema" e a "conciência" fazem pessoas sofrer, não deixam "ir". Isto sim é um grande sofrimento . apareça no meu blog. marthacorreaonline.blogspot.com

Donzela Caçadora disse...

Márcia.
Que bom que eu me sinto uma aprendiz idiota ao ler essa fluidez toda sobre um evento fisiológico, blá, blá, blá. Sou cartesiana, puts. Só posso dizer que amei Benedita. E é maravilhoso ver por entre as várias camadas dos teus textos.
Todo gênio faz parecer tão simples, né?
Márcia, que bom.
Saudações.

Chet

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