sábado, 1 de março de 2008

Circe e Medéia


Vitalina costumava dizer que as crianças eram filhas da inveja. E invejou tanto que pariu rebentos. Os rebentos, por sua vez, continuaram a cadeia e invejaram tanto que pariram outros rebentos. E foi assim, invejada, que invejei outro rebento. Mas a inveja é uma senhora insaciável que teima em atormentar os vivos (se os mortos tivessem inveja, certamente ela com eles estaria), e na meia idade - não na terceira; números não combinam com a velhice! - eis que a velha senhora chega sem pedir licença. Chegou numa noite de eclipse, acompanhada por Luiza e as duas filhas, Julia Cristina e Vitória.
Talvez pela escuridão da noite ou por um pas des deuex imprevisto (Luiza é bailarina), ninguém enxergou as meninas. Julia Cristina, a mais velha, ciente da paternidade divina (não era para falar, mas o pai é Deus mesmo!) sentou-se numa poltrona perto da janela e ficou quietinha observando os domínios do pai, Vitória, filha de uma auto fecundação da menopausa, livre de toda e qualquer paternidade, soltou-se pela casa a furungar gavetas, portas trancadas, buracos de fechadura, e prateleiras da geladeira. O eclipse durou o tempo da visita e Luiza e as filhas se foram quando a lua despontou no céu. O embrião da inveja já havia fecundado a minha imaginação ociosa.
O dia amanheceu e saí à procura de Deus para que ele me fecundasse. Procura insana! Deus nunca está onde a gente procura. Depois de vasculhar cada confim de Deus, fui encontrá-lo numa clínica geriátrica. Deus estava velho, senil e brocha! Desculpou-se procurando desviar a minha atenção da sua impotência, alegando "motivos superiores". Mas se Deus é superior a todas as coisas, que raios de motivos eram esses? - Mentira! O senhor está é brocha! - falei. Não fiquei para ver a reação, mas deu para ouvir a voz do Divino tentando cantar uma enfermeira. Nessa hora constatei que Deus também é adepto da transferência...
Quando estava quase saindo, vi que a salinha dos remédios estava vazia. Entrei e roubei algumas caixas de soníferos. A esta altura devo confessar que a inveja andava me tirando o sono e que não resisto à uma pílula de Morfeu.
Cheguei em casa acompanhada de pílulas e desânimo. A auto fecundação estava descartada. Luiza aproveitara um alinhamento dos astros, e este só se repetiria nos próximos mil anos. Tive que engolir o sapo e umas duas pílulas. O sono chegou acompanhado pelo Diabo, que por sinal, estava no apogeu da fertilidade. Pensei cá com meus botões que se Rosemary pudera, por que não eu?
Na manhã seguinte pari gêmeas: Circe e Medéia.

6 comentários:

Liz Christine disse...

adorei como você escreve! obrigada por colocar meus links... também coloquei o seu!

helio disse...

OLÁ MARCIA, ESTIVE CONFUNDINDO AS PESSOAS, ACHEI QUE VOCÊ FOSSE UMA CONHECIDA MINHA, FIQUEI SURPRESO AO VER QUE VOCÊ NÃO ERA A AMINHA CONHECIDA! SRSRS, MAS MESMO ASSIM ADORO SEUS TEXTOS, GOSTO DE LER TODOS QUE RECEBO POR E-MAIL. A FINAL VOCÊ É DE ONDE? E COMO NOS CONHECEMOS? RSRSRS
TAMBÉM ESCREVO, NÃO SOU MUITO BOM NISSO, MAS SE QUISER CONFERIR ESSE É O MEU BLOG: WWW.HELIOTAQUES.ZIP.NET
BEIJOSSSS E MUITO SUCESSO

Georges disse...

Marcia!

O blogspot nunca mais será o mesmo com vc por aqui!

Visitarei sempre!

Angela disse...

Márcia querida! Muito bem vinda à blogosfera!
Seus textos, como sempre, únicos! especiais, cheios de simplicidade culta e criativa!
de quando em vez virei beber nesta fonte de prazer.
Beijo da Angela.

beatrice ferenczi disse...

Le premier blog que je vois avec le fantasme de chet baker, ça m'a fait sourire, et c'est agréable á lire. au hasard , je reviendrai.

finczi

JC Duarte disse...

Sou fã incondicional de "Vitalina" e, quando posso, dou-lhe uma colherzinha de chá, aqui deste lado do atlântico.
Agora que a encontro por cá, neste labirinto virtual, será bem mais fácil deliciar-me.
Obrigado e parabens.

Chet

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