sexta-feira, 28 de março de 2008

Um Escritor Sem Literatura


Conheci José na casa de Vitalina, numa segunda feira sem graça em que procurávamos nos distrair jogando víspora. Chegou bem na hora em que eu me preparava para botar um caroço de feijão sobre o número sete e completar o cartão. Talvez por isso, por ter estragado a festa da vitória, não lhe tenha dado a devida atenção e , confesso, o tratado como um reles vendedor de enceradeira. Um tipo tão insignificante que nem enceradeiras completas vendia. Negociava escovas para elas. É, aquelas redondinhas, espinhentas, que rodam velozes debaixo da engrenagem. Vovó o tratava com a mesma reverência que dedicava aos figurões que a visitavam. "Escovas dão brilho!", dizia ela, servindo ao pobre infeliz o melhor licor da despensa. A segunda feira além de monótona, já estava estragada, ou se preferir, encerada. Eu, com o feijão no bolso, implorava aos céus que levassem o pobre homem para a casa ao lado. Mas os céus não costumam ouvir as preces dos jogadores e simplesmente fecharam os ouvidos. Perdi o gosto da vitória para um par de escovas de enceradeira! Descrente do poder dos santos, do espírito e até de Deus, encolhi-me no sofá e espichei ouvidos irônicos para a ladainha do vendedor. "Essa escova espalha a cera com a mesma elegância de um poema de Rimbaud", dizia ele, arrematando a fala com algumas estrofes de "Iluminações". Ôpa, escovas iluminadas e ainda por cima letradas? A ironia cedeu vez à curiosidade. A tarde escorreu como um piso encerado, entremeada por escovas, ceras, enceradeiras , liquidificadores ( ele estava pensando em ampliar os negócios), filosofia, literatura, história e psicanálise.Vitalina, analfabeta por imposição do seu tempo, sorvia cada palavra. Com o passar das horas, as escovas enceravam os seus olhos e lhes davam brilho. Um brilho tão intenso que ofuscava! Depois da venda o homem se levantou para se ir embora. Perguntei-lhe o seu nome: "José da Silva, vendedor de escovas e escritor sem literatura", respondeu-me. Durante anos o vi tocando a campainha para vender badulaques. Até que um dia sumiu, evaporou da mesma forma que as enceradeiras. Vendeu escovas e letras. Morreu sem literatura, mas formou literatos. O feijão carunchou e não senti o tal gosto da vitória, preferi aprender como polir assoalhos com versos de Verlaine...




Um comentário:

betina moraes disse...

"Um escritor Sem Literatura", assim como "círculos & retas" são textos muito sensíveis e carregados da assinatura de sua fluídica escrita.
em "A morte no Khol dos Olhos das Meninas" você vai muito além da sensibilidade, o texto se mostra "sensitivo", produz uma percepção extra ao leitor. é um poema de dor e beleza. difícil misturar as duas coisas sem os apelos vulgares que estamos acostumados quando o assunto são as dores gerais, "globalizadas".
parabéns pelas excelentes e perturbadoras imagens criadas (captadas?)a respeito de uma agonia tamanha.
fico feliz por ter lido!

você é sem dúvida uma grande escritora, com capacidade de reconstruir a emoção de quem a lê!

um beijo,
betina.

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