Poucas vezes presenciei o milagre da transubstanciação. E, embora a professora de catecismo afirmasse que ele acontecia quando a hóstia era engolida, a explicação não me convencia. Para mim, o corpo de Cristo não era uma lâmina insossa, desprovida de volume e líquidos. Não, definitivamente as hóstias não eram o corpo de Cristo! Eu já o tinha visto pendurado entre os seios fartos de Vera. Já o tinha flagrado banhando-se no rio de suor que descia pelo colo dela. Já tinha testemunhado seu amor quando, por causa de um abraço mais apertado de Raimundo, louco de ciúmes, ele se cravou no peito de Vera. A mancha de sangue nunca mais desgrudou do vestido e ficava ainda mais nítida com as lavagens. Vera até tentou tingir a roupa, mas foi em vão. A mancha ficou ainda mais viva. Com o tempo, o vestido transformou-se num Santo Sudário doméstico e vieram mulheres em romaria para vê-lo e tocá-lo. Cristo, aconchegado entre os seios de Vera, aprovava. Gostava de ouvi-las reclamando das patroas e fazendo planos para o Carnaval. Gostava de vê-las desnudas em frente ao espelho experimentando roupas. Gostava tanto, que nessas horas a mancha ficava molhada.
texto extraído do meu livro, Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand
5 comentários:
Isso dá até briga...rs
Que texto, Márcia! Soberbo! Teu blog é para mim um deleite diário... Grande abraço!
"Vamos retomando el paso herido.. que la historia nunca vio .. y en el fondo en nuestro pecho se durmió"
Beijos
Paula Savino
Querida, issso aqui tá cada vez melhor!
Passa lá no meu só pra eu ficar felizinha, rsrs...
(http://cadernodecabeceira.blogspot.com/)
Eu virei aqui sempre.
Mil luas.
Wow!!!
Já fiz muitos textos a roçar o obsceno, o blasfemo e o maroto, mas nunca fiz nada assim.
Muito bom!
Bjs
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