segunda-feira, 31 de março de 2008

O Revolver dos Beatles

No ano de 1966 ganhei dos Beatles um revólver. As pessoas da casa nunca tinham visto uma arma tão estranha. Não era de aço, não tinha cano nem tambor. Mas como era certeira. Se o apontasse para o taxista ele não corria perigo. A senhora Eleonor Rigby (uma inglesa que morava no apartamento ao lado) não precisava esconder a carteira dentro do sutiã, o dorminhoco do segundo andar podia dormir tranqüilo, e aqui e acolá se estabelecia a ordem. Os marinheiros navegavam em submarinos amarelos, as moças diziam o que queriam dizer, e os dias sempre amanheciam ensolarados.Embora não tivesse calibre nem balas, o revólver que ganhei dos Beatles era mais poderoso do que qualquer canhão. Dos seus tiros os pássaros não fugiam e ao som do tiroteio qualquer passarinho podia cantar. O revólver não tinha dono. E por mais que o Dr. Robert (o americano do oitavo andar) afirmasse que ele era só seu, a verdade é que não era só dele. Era nosso e de quem o quisesse na sua vida. E como se quis. Mas como do amanhã ninguém sabe, chegou o dia que o colocaram de lado. Trocaram-no por um tal revólver de um certo Dr. Colt. Um homem sisudo, amargo que nem fel. Dizem que sofria dos males da bílis e das alucinações das enxaquecas.Não sei se por causa do amargor dos tempos ou de uma sociohepatite endêmica, as pessoas guardaram o revólver dos Beatles nas gavetas e encaixaram o do Dr. Colt nas cartucheiras. Os marinheiros pintaram de cinza o submarino amarelo; a senhora Eleonor Rigby mandou colocar três trancas na porta; o taxista que a servia deu de ter medo dela e dos outros passageiros; o dorminhoco passou a sofrer de insônia; John Lennon foi abatido na porta de casa e a polícia e os bandidos se espalharam por aqui e acolá.Durante todos esses anos preservei na vitrola o revólver que ganhei dos Beatles. Vez por outra o empunho... quando os tempos estão sombrios e o mundo precisa dar uma chance à PAZ .

4 comentários:

JC Duarte disse...

Juro que não gastei o meu exemplar!
Perdido na voragem do tempo, talvez que emprestado a alguém que gostava de buraquinhos ao meio ou que pensava que o som espiralado se assemelhava ao da galáxia.
Volta e meia dou uma voltinha no que aqui tenho agora. Mas não o vejo, que o toca CDs tirou-nos o prazer de assistir ao saltitar do braço da vitrola.
E, guardado ali algures na gaveta das coisas que não são úteis nem inúteis mas tão só agradáveis, tenho ainda um buraco portátil. Ou será no bolso das calças?

martha barbosa disse...

Marcia, que delícia de texto, que cabeça previlegiada você tem ,Amei.Um abraço martha

Carlos Edu Bernardes disse...

Para gnomos teria que ser uma ervilha, mas para nós, beatle-humanos, tinha que ser uma maçã. Verde. Vermelha. Amarela. Um farol, um sinaleiro, um semáforo controlando o trânsito das nossas percepções sobre frutas, músicas e besouros.

Uma maçã é uma maçã é uma maçã. E ela começou tudo. No paraíso fez de Adão o primeiro palhaço terreno, na exposição de Yoko fez John levar um pito ao abocanhá-la, na cabeça de garotos fez a fama de Guilherme Tell. No quadro adquirido por Paul ela o encantou.

Uma maçã é uma maçã, é uma maçã.

Ela tem o 'eme' de Magritte e também o de Matisse, além do 'eme' de morte, que pensa que já levou John e George...

Delícia olharmos para nossos elepês tão conservados, onde a maçã representa dias maravilhosos em que ficamos vendo-a rodar nas nossas eletrolas dos anos sessenta, setenta e oitenta, rescendendo o seu aroma único e inimitável de Beatles.

Felizes os que colocaram uma maçã no prato do toca-discos e mataram a sua fome de música.

Felizes os que foram convidados para o banquete da Beatlemania, onde a maçã jamais apodreceu e gerou, incansável, frutos maravilhosos na vozes de John, Paul, George e Ringo.

E a maçã nos alimenta até hoje; e pulsa sua seiva incrível a contagiar novos corações.

Uma maçã é uma maçã.
Quem, além de beatlemaníacos, sabe tanto sobre ela?

Liz Christine disse...

belo texto!

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