sábado, 15 de março de 2008

Voodoo

Benedita enterrou muitas agulhas em muitos bonecos. "Raça desgraçada que não merecia viver", ela dizia, sibilando sons de uma boca sem dentes. Olhos postos nas alturas, em busca de um Deus que a compreendia como ninguém.

"Deus que nada, menina! É Satanás que ela invoca a cada furo!", dizia Vera, a cozinheira, benzendo-se, respeitosa. Se era Deus ou o Diabo, eu nunca Soube e de nada adiantaria saber: as agulhas, as linhas e as tesouras, por artes sabe-se lá de quem, descumpriam os desígnios, celestes ou infernais, e em pouco tempo davam cabo do infeliz.

Morte espetada, furada, cortada, amarrada com tal maestria que nem os doutores descobriam a causa. "Seu Osório morreu na noite passada. De nó nas tripas. Amanheceu de olhos esbugalhados, como se tivesse visto o Demo bem na hora de morrer!" disseram as empregadas do prédio ao comentarem a "misteriosa" morte do morador do segundo andar.

O mistério não era assim tão misterioso. Benedita trabalhara na casa de Seu Osório e diziam as más (?) línguas que o homem a despedira sem pagar uma montanha de salários atrasados. "Menos um nesse mundo que não é de Deus nem do Diabo", Benedita comentou, indiferente, ao saber do falecimento. "Indiferença suspeita", Vera afirmou, sabedora do boneco, igualzinho ao falecido, que Benedita espetava todas as noites, no redondo sombrio da meia-noite.

Se a morte se deu pelas agulhas enterradas na hora exata que a Mortíssima aceita a ajuda dos mortais, ou por coincidência despropositada, isso ficou entre Deus, o Diabo, a Mortíssima, e o atestado de óbito : sufocamento acidental; causa desconhecida, óbito ocorrido na zero hora. Exata.

Na hora do enterro do "morto sem alma", como Benedita disse para Conceição, a arrumadeira, Benedita prendeu o espírito ruim numa caixa amarrada em sete nós. Não enterrou. Despachou o embrulho na encruzilhada da Marquês de Abrantes com a Paissandú, rodeada por nove velas pretas emborcadas para baixo.

No dia seguinte, ao passar por lá a caminho do colégio, lá estava Seu Osório, esmigalhado pelas rodas dos carros e dos bondes. "Esse não encarna mais", Benedita falou arreganhando as gengivas. Se o vodu impediu que a ruindade de Osório não mais encarnasse, isso é coisa que só os parapsicólogos podem responder. O que sei é que depois do passamento (era assim mesmo que ela falava), o elevador nunca mais rangeu ao passar pelo segundo andar.

Quando Benedita ficou tão velha que já não podia trabalhar, retornou para sua amada Minas Gerais. Deixou-me um presente sobre minha cama: uma caixa de papelão branco, atada por uma larga fita de cetim cor-de-rosa. Dentro dela alguns bonecos, agulhas, tesoura e linha.

2 comentários:

Madja disse...

Este texto me lembrou Raimunda ,a bordadeira de O armário da Bruxa.Aliás, este livro eu ADORO.Gosto de todos os livros da Márcia mas este livro me fez perceber que o bordado, algo tão simples e que era esquecido na minha vida, pode ser edificante e transformador.

juliana disse...

Marcinha !!!
estou tendo a oportunidade de conhecer melhor seus textos agora !!
estou simplismente amando!!!!
vou ler tudooooo !!!
estou com fome de ler mais e mais !
é simplismente maraviloso!!!
obrigada por ter feito esse blog!
um beijo e boa noite!!
Juliana Ibraim

Chet

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Foi uma delícia escrevê-lo!