domingo, 9 de março de 2008

Os Cajus, as Pitombas, as Mangas, e o Amor


No Piauí, as mulheres cheiram a fruta. As que estão tenras para as paixões, a caju; otras, quase prontas para o amor, a pitomba; e outras, maduras para o sexo, a manga. Mesmo com as vestes negras das viúvas, Raimunda cheirava a manga-rosa. Chegara na fazenda ainda mocinha, num tempo que cheirava a caju. Na trouxa dependurada num toco de pau, carregava dois torrões de rapadura que uma velha rezadeira lhe dera para repartir com o seu amor "num dia em que as pitombeiras florissem". Guardou-os com reverência e, vez por outra, os lambia, quando a solidão do agreste apertava. Era só. Solitariamente sozinha. Nascera de mãe que morrera e de pai que não conhecera. Dos irmãos não tivera tempo para sentir saudades. Sumiram todos na poeira da estrada quando ela ainda era um bebê sem fraldas. Aprendera a andar com a terra e os lagartos, e talvez por isso suas nádegas desenhassem tantas curvas. Cozinhou o primeiro feijão quando tinha cinco anos de idade e era ainda um broto de cajueiro. O feijão ficou tão gostoso, que naquele dia virou cozinheira. A fama correu léguas e bateu na porteira de nossa fazenda. Foi recebida sem pompas. Encolheu o pescoço, mirou o chão e desapareceu lá pelas bandas dos subalternos. Não fazia barulho. Os lagartos não fazem ruídos. Deixava, porém, um rastro de cheiro, um contorno de curvas. Mas os lá da banda dos senhores não viam. E assim despercebida foi virando muda de pitombeira. As ventas de Antônio se abriram, e ele, por amor às pitombas ou por pura gulodice, passou a regá-la diariamente. A pitombeira cresceu e virou uma mangueira frondosa que dava mangas com gosto de rapadura. Durante anos, Antônio chupou-as com a sofreguidão dos famintos. Um dia, talvez pelo sol que ardia em demasia ou pelo desejo de consumi-las até a exaustão, Antônio morreu de bucho cheio. Morreu com os dentes enterrados numa manga-rosa madura.


Este texto foi extraído do meu livro "Amor se Faz na Cozinha", editora Bertrand Brasil

2 comentários:

Ayla Cândido disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lola aronovich disse...

Muito bonito esse texto, Marcia, parabéns. Se puder, acrescenta o meu blog na sua lista de recomendados. Assim que eu aprender a fazer isso (ainda tô engatinhando nisso de blog), coloco o seu, ok? Abração!

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