quinta-feira, 6 de março de 2008

Cariocas e Ostras



Quando as primeiras palavras brotaram na minha boca, o S saiu aconchegado e embrulhado dentro de uma ostra; um S redondo e chiado como as ondas de Copacabana. A princípio não me dei conta do clausuro aquático de uma letra e pensei que todos nós, brasileiros, éramos filhos de Afrodite e Posídon.... O tempo foi passando dependurado no bonde que ligava a cidade ao Flamengo. Vez por outra era era cortado por um negro táxi guiado por Manuéis ou Joaquins. Táxis que se pegava no ponto e que tictavam como relógios escondidos bem atrás do taxímetro... O Rio era então uma enorme ostra que arredondava os S e badalava sinos nos bondes e tictava relógios nos taxímetros... Nesse tempo não havia tempo para sermos violentos e inseguros. A violência não combinava com os ruídos, e vamos convir que não se pode ser inseguro dentro do aconchego das ostras. E mesmo quando o mesmo ultrapassava os trilhos dos bondes e assumia a face do improvável, mesmo assim o inesperado, por mais bizarro que fosse, travestia-se de romance. E foi assim, entre o desvio do mesmo e os travestimentos, que me deparei com a primeira violência : A Fera da Penha! Mas as ostras teimam em transformar as impurezas em pérolas, e a fera, por acaso ou sina, transformou-se em romance. A professora feiosa, leitora de fotonovelas e romances, confundiu-se entre a piedade e o ódio. A vítima, uma menina de cachinhos negros, num piscar de olhos virou santa. Depois, ávida pelos dramas e santificações, vi Mineirinho, um bandido baixinho e simpático, vestir a roupa de Robin Hood e se juntar ao bando dos desvalidos. Sucedeu-lhe Cara de Cavalo, o centauro. Naquela época éramos ainda amantes do belo e costumávamos nos divertir no carnaval. Costurávamos estrelas no céu e os barracões tinham tetos de estrelas. Dizíamos bom-dia aos vizinhos e desconhecidos e nunca esquecíamos os nomes dos porteiros. Éramos pérolas polidas pela polidez das virtudes. Não éramos ingênuos. Não, foi muito depois que a generosidade travestiu-se em ingenuidade. Éramos gentis e redondos como as pérolas. Tínhamos o dom de transmutar o feio e torná-lo romance. O tempo passou e pensamos que ele correu depressa demais. E começamos a correr como loucos. Esquecemos o bom-dia e os romances. Caímos na armadilha. Mas... o Rio continua lindo, esperando pelos romances. E aos pessimistas ele só diz: só as pérolas conhecem o segredo da transmutação do impuro!

obs: se vc gostou do texto (tá legal, é chantagem mesmo) dá uma lidinha em meu novo livro, O Armário da Bruxa, editora Planeta.

2 comentários:

Hilda disse...

Nosinhaaaaaa, muito bom seu Blog,vou voltar aqui v�rias vezes, pois tenho muito pra ler....
Vc est� de parab�ns Marca!!!!

Beijus no cora�o e fique com Deus!!

. disse...

Mais um cantinho que lerei semmpre com muito cuidado e carinho.
Bênçãos e um grande beijo,
Évora

Chet

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