
Invisível, se valeu desse estado e levantou a saia pesada, negra, sustentada por muitas anáguas. Recolheu as ondas do oceano de panos e esticou as pernas ávidas de sol. Seu marido não viu. O moço esquisito não viu. "Quem foi que disse que a morte não traz vantagens?", pensou com os botões da blusa abotoada até o cume do pescoço.
No topo da montanha escarpada em curvas e grotas de carne, os botões abandonaram as casas, descendo pela encosta como alpinistas à frente de uma avalanche. Ninguém percebeu o imperceptível abalo nas tábuas enceradas do assoalho e com enfado o empertigado escrivão continuou a escrever que às nove horas da noite deste dia de mil novecentos e oito falleceu Porciana Roza de Jesus, de pneumonia, aparentando oitenta annos de idade. Pronto. A morte fora lavrada e assinada.
Livre da saia, das anáguas e da blusa, Porciana se exibiu para Deus exatamente como Ele gostava de espiá-la no riacho. Ergueu-se da cadeira à frente da mesa do moço esquisito e, esticando-se na ponta dos pés, finalmente conseguiu abrir a janela. Ninguém percebeu o imperceptível tornado que embaralhou as letras rebuscadas, quase apagadas, do termo de seu óbito para formar um cifrado recado: eu, Porciana Roza de Jesus (e de Deus), sua trisavó, declaro que dos pecados cometi todos; acumulei o brilho das estrelas no cofre da alma, emprestei amor a juros tão altos que poucos amantes puderam pagá-los, gemi de prazer à cada botão desabotoado, invejei todas as aves de migração, lambi cada torrão de açúcar como se fosse o último, cobicei a prata da lua e o marulho das ondas, amaldiçoei o Criador por não ter me feito sereia ... e que os "aparentes" oitenta anos declarados pelo doutor ficam por conta dos óleos com que ungi meu corpo nos meus noventa e sete anos de vida.
6 comentários:
Você não imagina, não faz idéia: tenho um apaixão platônica por Vitalina! Deus do Céu, como ela me encanta...
Revi nas fotos do Fantasma o álbum dos antepassados, as poses dessas mulheres intensas e tão bonitas. Depois, só o nome do blog seria suficiente.
Beijo.
Que bom encontrá-la no universo dos blogs! Bom, agora que já te disse isso, irei ler os textos publicados por aqui.
[Neste momento, dois livros escritos por você olham para mim, esperando para serem lidos outra vez.]
Que lindo dom você tem, Márcia. Obrigada!
Beleza, Marcia, beleza é só o que posso dizer, tanto dos teus escritos que os tenho recebido e guardados num cofre, sem fechadura e sem segredo, para quem quizer conhecer-te, como do teu livro que adquiri hoje ao passar pela banca ouvi que me chamavam e quando olhei era ela, não resisti, e por seu blog, excelente, visite o meu e se soubessem como fazer, linkava o seu. Abraço e sucesso - http://odval.fotoblog.uol.com.br
realmente é muito enriquecedor gostaria que vc dessa uma olhada nos meu artigos publicados no meu blog http://alertageralonline.blogspot.com/
Felizes aqueles que vivem como Porciana viveu.
Seus textos são de uma delicadeza e poesia sem tamanho Márcia. Adoro!
Bjinhos.
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