sexta-feira, 5 de junho de 2009

Blood & Moon

Quando a lua avermelhava no céu, Luiza catava ervas no terreiro, defumava a casa e as meninas (na casa só moravam mulheres). Cerrava as janelas, acendia velas e rezava o terço. Ñessa noite não dormia. Vigiava o mundo. Velava os vivos. Ouvia vozes que ninguém mais ouvia. Dentro da casa, as meninas rezavam.
Do lado de fora, os vizinhos espiavam. Luiza sabia que no dia seguinte as crianças da rua a acompanhariam com troças. Não ligava. "São anjos", ela dizia. Luiza compreendia a inocência dos anjos e sabia que eles nada podiam fazer. "A inocência às vezes é estúpida", filosofava com os seus botões. Sua mãe lhe ensinara a temer a hemorragia da lua. Dissera que era um aborto. A lua vermelha abortava pragas. Quando ela abortava, o Canhoto enchia a pança de maldade. Deus não podia fazer nada. Estava a léguas de distância, brincando com os anjos. A terra ficava entregue ao Canhoto e a Lua, à sua enfermidade. Luiza quis saber por quê a Lua, que era tão forte, ficava fraca. A mãe respondeu: "Para mostrar como os homens são estúpidos.". Luiza acatou de bom grado a resposta.
Seguiu os seus dias tomando conta do céu. A princípio, quando ainda acreditava na reversão da estupidez, bem que tentou avisar aos vizinhos que o céu prometia catástrofes. Ninguém ouviu. Então ela viu a Lua ficar vermelha antes da primeira guerra, antes do mar engolir o Titanic, antes da segunda guerra, antes do massacre no Vietnã, e antes de muitas epidemias. Como ninguém lhe deu ouvidos, preferiu silênciar e guardar para si os prenúncios das tragédias. Concluiu que a estupidez é coisa que não se reverte. "Ë obra do canhoto", definiu. Morreu com o terço na mão, pedindo à Mãe que velasse pelos estúpidos. Se na hora de se encontrar com a Morte, viu ou não uma outra Lua Vermelha, isso ficou entre ela e a Mortíssima. Só sei que não faz muito tempo, a Lua deu de sangrar no céu...

5 comentários:

Lunna Montez'zinny disse...

Boa noite, te segui lá do twitter até aqui. É a primeira vez que venho ao seu blog e já me surpreendi com uma "leitura" lunar. Acho que eu já li um livro seu há alguns anos atrás...
Bem, vou espiar minha lua, que está quase prateando minha escuridão por aqui. Blessed be

Andarilha disse...

Gosto tanto do que você escreve...

João Videira Santos disse...

Conjugando as palavras na visão da mulher...viajei!

Althea disse...

Oi márcia, preciso muito que você me tire uma dúvida!!! Possuo aqui um texto que suponho ser de um dos seus livros. Mas não tem a fonte... Você poderia confirmar para mim se é seu, e se for qual é o livro porque eu quero comprar!!!
Se alguém mais aqui souber me responder eu tb agradeço!
Grata!!!

Etiene.

Texto:
"Pag. 105
ERVAS MÁGICAS

Abacate (persea americana) - planta feminina, tendo por planeta regente vênus. É dedicada a Afrodite e ìsis. Seu poder está ligado à beleza e ao amor. Deve ser usada quando vênus estiver em Libra.
Quando vênus estiver em libra, e a lua, no seu crescente, pegue um caroço de abacata e pique-o muito bem. Coloque-o para secar(...)"

Luiz Alberto Machado disse...

Maravilha tudo por aqui, adorei. Indicarei nas minhs páginas,aguarde.
Beijabrações & tataritaritatá!!!!
WWW.luizalbertomachado.com.br

Chet

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Home Sweet Home

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Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

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Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

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O poder sagrado Delas.

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E no princípio era a GULA...

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Foi uma delícia escrevê-lo!