sexta-feira, 4 de abril de 2008

Bolo de Santa Marta


Ingredientes

1 xícara de manteiga

1 3/4 xícara de açúcar

1 colher de chá de essência de baunilha

3 ovos e 1 gema

3 xícaras de farinha de trigo

2 colheres de chá de fermento

1/2 colher de chá de sal

3/4 de xícara de leite

1 xícara de amêndoas picadas



Modo de Fazer

Bata a manteiga com o açúcar até obter um creme leve e fofo. Adicione a baunilha, os ovos e a gema extra, batendo vigorosamente até obter uma mistura homogênea. Acrescente os demais ingredientes e bata por mais alguns minutos. Asse em forno moderado, previamente aquecido, por aproximadamente 45 minutos.



Dádiva Mágica

Um dia eu estava pesquisando a vida das Santíssimas e descobri que Santa Marta é a protetora da cozinha e responsável pela fartura da despensa. Resolvi então afixar uma imagem Dela na porta da despensa. O resultado não poderia ser melhor; abundou alimento na casa. E como Ela demonstrava um especial prazer em me ver fazendo esse bolo - acredite, Sua imagem balançava, ficava mais colorida e às vezes até despregava da porta -, decidi dedicá-lo exclusivamente a Ela. Quando asso esse bolo, convido-a para sentar à mesa da cozinha e me ajudar na feitura, enquanto agradeço por tudo que Ela me tem oferecido.
texto extraído do meu livro A Cozinha Mágica de Marcia Frazão, publicado pela Editora Ediouro

O Sexo de Deus

Quando Ele me revelou o rosto na segunda-feira do último carnaval, custei a acreditar que fosse o Santíssimo. Afinal, durante toda a minha vida eu escutara histórias que narravam as aparições solitárias, os auto flagelamentos, os jejuns de quarenta dias, as visões da clausura e até a épica de Charlston Heston travestido em Moisés. Mas no carnaval!? Espalhado no pipocar do trio elétrico, vestido de mulher em plena avenida Rio Branco, tocando tamborim na bateria da Camisa Verde, esguichando água-de-cheiro num cordão de Olinda? Ah, não!!! A aparição não correspondia em nada às lições do catecismo, aos relatos episcopais e muito menos aos roteiros de Hollywood. Se ao menos se avistasse por perto um deserto escaldando tentações, se houvesse ao dispor um topo de montanha e umas tábuas de pedra, uma cela de convento ou até mesmo um vislumbre de luz em meio às trevas... Mas não, Deus tinha que achar de anunciar a Sua Santíssima presença com ziriguidum e telecoteco!
Não contente com tal anunciação, Deus vestiu uma camisa listrada e saiu por aí a jogar confete e serpentina nas meninas. De vez em quando, cansado do sexo dos meninos, vestia os balangandãs e as rendas da baiana, só pra ver o que é que a baiana tem. E foi numa hora de troca-troca de fantasia que Deus me deu uma segunda revelação: Ele é menino e menina.
Eu, do alto do pensamento tomista, vi os primeiros tomos despencarem da estante quando O flagrei mergulhado num copo de cerveja e com a boca (e que boca!) lambusada do azeite que escorria de um pastel de carne. Naquela hora não deu para recorrer aos compêndios da escolástica, não deu para pedir socorro a Agostinho (que a essa altura se confessava no colo de uma passista da Mangueira), não deu para encontrar Maria nem Gabriel. A Virgem tinha saído cedo de casa, levando o menino Jesus - uma gracinha de criança, fantasiada de índio- para ver a banda passar, e Gabriel andava sumido, enfiado sabe-se lá onde, desde a noite de sexta-feira...
Além de abandonada pelos santos, me vi sem pai nem mãe quando procurei a filosofia. Ela, vexada pela afirmação do espírito e pela eliminação do corpo de Deus, se enfurnara num retiro filosófico, deixando na secretária eletrônica o aviso que só retornaria na quarta-feira de cinzas. Tive então que mirar o fato na seca, sem anestesia. E lá estava Ele, de corpo e alma, espalhado entre milhões de rostos que berravam Mamãe Eu Quero. Foi nesse instante que um jato de lança-perfume reativou o inconsciente e descobri que Deus é a apoteose do Desejo de Lacan. Deus, além de Onipresente e Oniciente, também é Inconsciente e Desejo.
Quando decifrei o quero do mamãe eu quero, me benzi três vezes, ciente de ter revelado o irrevelável. Aguardei os inquisidores com a dignidade própria dos pecadores. A espera foi longa. Além do trânsito ficar um caos no carnaval e por isso ter que dar voltas e voltas pelas ruas da cidade, a Inquisição ainda teve que dar um pulinho nos barracões das Escolas para tapar a sexualidade divina de algumas alegorias, alas e destaques.
Enquanto aguardava a chegada dos Guardiões da Fé, da Moral e dos Bons Costumes, liguei a televisão. E lá estava Ele outra vez a revelar-Se desejo na voz de Margareth Menezes, na Bahia de Caetano, João Gilberto, Dona Canô e Dorival, nas tranças de Gil e no rodopio dos abadás seguindo Ivete, Daniela, Dodô e Osmar. Lá estava Deus, do alto de um trio elétrico a revelar um outro mistério: Deus é brasileiro em sotaque, acento e desejo.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Pane Aqualouca

Eles flutuam sobre as toalhas
nas pregas imersas no anil do tanque.
Conhecem os desvios óticos
que confundem o mar com o mangue.
São panos embranquecidos pelos dedos
de mulheres mortas.
Damas que esfregam sonhos na bacia
e estendem a luxúria em varais.
São retalhos esquizofrênicos
espantalhos cênicos
notas de um blues no palco.
São falos das lavadeiras
que escorregam no sabão da heroína
de um pano de prato drogado.

Levei muito tempo para descobrir a razão do desemparelhamento dos brincos de Vitalina: ela amava a liberdade.

Uma Avó Inventada

Vitalina amava as invencionices. Gostava de mirar o céu e inventar estrelas. E se alguém porventura ( ou por desgraça ) lhe dissesse que não se pode olhar o céu e inventar cometas, ela certamente olharia o infeliz e inventaria mais um tolo. Para ela, o mundo não passava de uma invenção dos Deuses que imploravam aos inventados que inventassem coisas. E Vitalina obedeceu e inventou. Criou um mundo novo, um admirável mundo não tão novo, propício aos precipícios das invenções ( ou invencionices, como ela mesma falava ). Equilibrou-se num pé de vento, levantou as saias e pariu rebentos. Não gostava de chamá-los de filhos e inventou novas palavras que os significasse. Alvaro, o pequeno, foi chamado de Vico assim que mostrou a cabeça na arrebentação da vagina. Nazira virou Nazir, a amazona. E assim os rebentos se sucederam nomeados e desmamados. O primeiro leite foi retirado da Via Láctea, escorrido das tetas de uma vaca sagrada que adorava comer torresmo. Um leite gorduroso, inadequado como as invencionices das mães. Mas Vitalina não ligou e seguiu inventando carnes e gorduras. O mundo era então um filé gordo e mal passado. E se alguém, por ventura ( ou desgraça ) lhe dissesse que só os Deuses digerem os filhos, ela inventava um novo profano... E foi assim que, por artes das invencionices de Vitalina ou do ventre de Maria, arrebentei num setembro. Mamei nas tetas de uma vaca negra que Vitalina trouxera de uma galáxia que inventara. Maria dormia enquanto eu mamava. Dormia um sono inventado, criado por uma velha inventada para inventar estrelas e não ter medo de Deus.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Sono de Açúcar

Um dia, logo após uma tempestade que quase varreu o Rio de Janeiro, Maria Luiza caiu num sono profundo. A princípio, ninguém percebeu a profundeza do sono, já que todos estavam ocupados com as notícias da tempestade. Ruas foram varridas pelas águas, palmeiras se transformaram em pinguelas no meio do asfalto, móveis viraram barcos e até pessoas foram engolidas pelos bueiros. Alguns juravam ter visto polvos emergirem das poças e jacarés saírem dos ralos. Uma senhora chegou a afirmar ter visto Nossa Senhora da Conceição brotar de um chafariz e curar um enfermo. Se curou ou não, até hoje não se sabe; o chafariz continua na praça e vez por outra amanhece cercado de velas e santinhos de agradecimento.
Enquanto todo mundo se ocupava com a tragédia que assolara a cidade, Maria Luiza dormia. Dormiu por três noites e três dias. Ninguém achou estranho. Vera chegou a dizer que chuva dava sono. E deu sono. Muito sono. Ninguém ousou acordá-la, e ela acabou acordando sozinha, com uma baita fome de doces. Comeu todas as compotas da casa, depois as geléias e por fim todo o açúcar da despensa. Ninguém achou estranho. Maria Luiza tinha hábitos estranhos. Depois de tanta comilança, caiu outra vez no sono. Mais uma vez ninguém achou estranho e deixou que ela dormisse. Acordou quatro dias depois, trazendo consigo um menino invisível, um moleque chamado Manequinho da Praia. Dessa vez, estranharam e chamaram os doutores. Os médicos disseram que ela sofria de desordem da personalidade. Vitalina balançou negativamente a cabeça e disse: "Ela é médium."
Depois da tempestade sonífera, Manequinho passou a conviver na casa. Vez por outra, quando o céu enegrecia e os raios gritavam no céu, nós lhe dávamos um doce. A chuva caía mansa e não enchia a cidade.


Texto extraído do meu livro "Amor se Faz na Cozinha", publicado pela Editora Bertrand

terça-feira, 1 de abril de 2008

Luiza & Mary Stuart



Durante a velhice, Luiza preparou-se para uma outra vida, em que seria rainha ou, na pior das hipóteses, princesa. Embora não tivesse nem mesmo um remoto laço genealógico com Mary Stuart, agia como se lhe fosse próxima. Não sei se por ser da Escócia e a outra do Estácio, as duas eram muito parecidas. Mary Stuart não ficou redonda como Luiza, mas em compensação não escutou as rodas de samba do Estácio. Mary Stuart nasceu rainha. Luiza nasceu para ser rainha numa outra vida. Apesar das pequenas diferenças, eram irritantemente parecidas. Mary amava as golas, Luiza as detestava. Mary arrastava saias negras pelos aposentos do palácio; Luiza, pelos becos do Estácio. Mary caçava raposas com cachorros; Luiza caçava as dezenas do cachorro. Mary usava uma coroa de ouro; Luiza, uma trança enrolada. Mary guardava doces numa caixinha de prata; Luiza, numa lata. Mary reinava em nome de Cristo, Luiza tinha um Cristo que reinava na parede da sala. Mary dicidia a coroa com a irmã; Luiza, uma parca aposentadoria. Mary casou com um rei; Luiza, com um operário. Mary sentava-se num trono; Luiza, numa cadeira Chipendale. Mary era Stuart; Luiza, Correa.

Quando se encontrou com a Ossuda, Luiza pediu-lhe que não a fizesse rainha. Preferiu uma cama, pois estava muito cansada.



Texto extraído do meu livro, Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand

Ética Divina

Quem o visse passar pela rua certamente o confundiria com um velho. Afinal, se considerarmos a velhice como um mero acúmulo de anos, cabelos brancos, ossos carcomidos, rugas e tremores diversos, sem dúvida ele não passava de mais um velho em meio a tantos. Inofensivo, trêmulo em isquemias, semi cego por águas turvas de gosmentas cataratas, ossos curvados em arco prestes a se partir; tudo isso dava a ele um vil disfarce de velhice. Mas não era velho; era roto.
Puído exibia na alma quase cem retalhos de vilania. Vis, dissimulados, escorregadios, ardilosos, medonhos, odientos e dados à mentira, ao roubo e ao engodo, os retalhos se pensavam eternos e resguardados da justiça.
Em seus quase cem anos de ignóbil cerzimento, não plantou árvores, não escreveu livros nem desenhou lembranças que valessem a pena lembrar. Por vilania tamanha nem o Diabo, nem Deus nem a Ossuda o quiseram levar. "Ética divina", os três alegaram voltando-lhe as costas para que na Terra apodrecesse como esterco maldito a alimentar frutos podres.

Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!