sábado, 1 de março de 2008

Sinatra Revisitado



Sob a minha pele se escondem escamas
Que de noite arranham o cobertor
E despejam maresias no lençol.
Debaixo da minha pele mora uma ursa
Mal humorada e rabujenta
Que se assusta com o movimento
De estranhos na floresta.
Sob a minha pele ela afia as garras
E me engole com os dentes.
Debaixo da minha pele mora um oceano
Que afoga peixes e dilacera marujos
Nas noites menstruadas e sem lua.
Sob a minha pele se abriga o medo
O pavor petrificado da Medusa
No instante exato que mirou o homem.
Um dia Vita percebeu que era a dona da casa e mandou todo mundo embora...

Varal Noturno


Entre o pregador
O fio e o pano
Um olhar de moça assustada
Estica-se como um elástico
Pronto a prender um rabo-de-cavalo.
Sensação de roupa na corda
Vento com cheiro de água sanitária
Uma lambida de cloro
Arreganhar de pernas
Lavadeiras modernas
Eternas.
Entre o sabão e as águas vaginais
A liberdade das perversões
Agitadas nos varais.
Desvios oclusos
Sinais vesgos.
Enxague e não deixe pistas
A menor mancha
Pode estragar o trabalho.
Esfregue as pregas
E as bordas.

Óbvias Noivas Não Tão Óbvias


Das noivas, Vita só apreciava os vestidos. Nos casamentos, ficava do lado de fora da igreja. Não cumprimentava os noivos e sempre recusava o bolo... Nos chás de panela, nunca aparecia. Era avessa às travessas de plástico e aos escorredores de arroz...

Não Tão Óbvio

Cansei das transparências aquáticas
De ver o mundo pelos copos de requeijão.
Cansei das deformidades plásticas
De ver a vida pelo vidro do fogão.
Cansei das cebolas
Dos alhos
Ervilhas
E pimentões.
Quero outros temperos
Uma xícara de letras
Uma pitada de giz
Meia dúzia de palavras
Uma colher de pontos
Algumas gotas de vírgulas
E reticências a gosto.

Dona de Casa & Casa da Dona

Mistérico
Elas lavam louças
E desintegram a cozinha
Num gozo volátil de detergente.
Arranham as panelas como éguas
Que engolem o mundo com os dentes.
Se penteiam como cadelas
Lambem os seus corpos
Como as esponjas lambem panelas.
Como brilham...
Como brilham...
Descascam as batatas
Cortam maçãs
Arreganham vaginas aquáticas
Enquanto descaroçam romãs.

Vitalina não era uma "boa dona de casa". Era anarquista demais para se prestar a hábitos e horários! E se você a visitasse, certamente sairia da casa dela fugindo! Mas se você não ligasse para papagaios empoleirados em cadeiras, esbravejando palavrões para um pequinês deitado no centro da mesa... certamente com ela sorveria muitas xícaras de café, e... se tivesse sorte, umas boas goladas de vinho !

Vitalua & Luavita

Vita rezava para a Lua. Na sacada da varanda conversava com a mulher azul que chegava no finzinho da tarde. Conversa prateada, trançada, estrelada. Vita lhe confiava segredos. A lua, desejos. De tão íntimas, eram uma. Vita era Lua e Lua era Vita. Vitalua, Luavita. Duas moças anciãs à espera de um namorado.

&

Virgínia rezava para Fátima. No avarandado do fundo da casa conversava com a moça azul que chegava ao final da tarde. Conversa azulada, encantada, refogada. A moça ajudava o preparo da janta enquanto Virgínia orava e catava feijões. Orações culinárias, ensopadas, encorpadas. De tão íntimas, eram uma. Virgínia era Fátima e Fátima era Virgínia. Uma era virgem. A outra, nem tanto.

Vitalina detestava carros, ônibus, trens, aviões, e navios. Dizia que os pés eram amantes das estradas, e que os caminhos, o destino das solas...



Bulgáricas

Eu nunca fui à Bulgária
E muito menos conheci um búlgaro
De lá não pude trazer nada
E mesmo se pudesse
A alfândega confiscava!
Aliás, no dia que consegui o visto
O aeroporto estava em greve.
Fui então ao açougue e comprei um bife
Um pedaço de bull sangrento
Suculento
Que na frigideira
Como Zeus
Me deu a Europa!

Vita e Virgínia


Vita e Virgínia não eram comuns: eram mulheres! Assim como todas nós, elas escondiam “estranhos” poderes dentro das gavetas, nos bolsos do avental, na caixa de costura, na caixinha de jóias, na saboneteira, no pote de pó de arroz e em cada cantinho disponível à magia. Eram bruxas como todas nós. Usavam e abusavam dos feitiços e dos encantamentos, e não sentiam a menor culpa quando lançavam terríveis maldições. Quando eram boas, eram boas, mas quando eram más, eram ótimas! Exatamente como todas nós.
Vita e Virgínia não eram óbvias, eram mágicas como todas nós. Amaram, odiaram, trabalharam, suaram, sofreram, fizeram limonada de um limão, multiplicaram pães, sonharam com grandes paixões, fantasiaram romances, reclamaram da vida, exaltaram os dias nublados em que só elas avistavam o sol, cantaram na chuva, viraram lobas a defender a cria... exatamente como todas nós.
Outro dia elas me visitaram, enquanto eu coava o café. Chegaram agitadas, envoltas no tule diáfano dos fantasmas. Pediram-me para escrever um livro que pudessem decorar. Perguntei a razão e Vita, a mais faladeira, respondeu-me com uma interrogação: “Você se esqueceu que as mulheres carregam livros na memória?”.

Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!