domingo, 2 de março de 2008

Antonioni não Conheceu Antonio

Se Antonioni tivesse conhecido Antônio, certamente teria apontado para ele a câmera e um foco de luz. Mas Antonioni vivia lá pras bandas de Roma e o Piauí era tão distante que podia-se mesmo dizer não passar de mera abstração geográfica. Assim, ignorado por Antonioni, Antônio seguiu a sua vida de astro anônimo, lascando suor na lavoura e chupando manga nas poucas horas vagas que tinha.
Aos domingos, Antônio vestia uma calça rota de linho e, sem camisa, caminhava léguas até o cinema. Não entrava. O dinheiro lhe era tão abstrato quanto o Piauí para Antonioni. Mas não se avexava e, reconhecido do próprio anonimato, sentava-se no banco da praça e assistia a um filme que só ele via.
Quando a sessão terminava, Antônio esticava o corpo dormente de tantas horas debaixo do sol e, como quem não quer nada, acercava-se da saída do cinema só para assuntar as falações da fita. Assuntando ali e acolá, Antônio recolhia short cuts para as suas próprias fitas.
Quando retornava à fazenda, era recebido como um herói. Chegava bamboleando o corpo, exatamente como um cabra dissera que um tal de Jão Ueine fazia ao chegar numa vila, e mudo entrava num casebre de pau a pique, enfurnado numa grota bem nas margens do Poty.
Embora ele não permanecesse por mais de dez minutos dentro da casa, as pessoas acocoradas no terreiro o esperavam com a mesma paciência que esperavam a chuva.
Quando saía, Antonio vinha acompanhado da mulher emprenhada, dos noves filhos, de uma garrafa de pinga e de uma caneca de lata. Sentava-se num toco de banco e, entre um gole de aguardente e um suspiro, desenrolava a fita.
No horizonte abria-se então uma tela vermelho arroxeada, salpicada de flocos de nuvens que se recusavam a ir embora e dar lugar à lua e às estrelas.
Não sei se por infinita bondade cósmica ou mesmo por pura curiosidade, nesse dia a noite sentava-se sobre as águas do Parnaíba e de longe, lá da fila de trás, espichava os olhos para a tela avermelhada. E que tela! Que tela!
Com a língua sintonizada no girar do projetor que só ele via, Antônio arribava as sete saias de Mérilin Murrô com o bafo da lambreta alada de Oscarito e a aninhava nos braços de Grande Otelo, que além de sambista era também motorista de um avião dentado e bafento. O vilão, "o filho de uma égua que só serve pra atentar", era invariavelmente Clark Gable (Antonio tinha cisma com homem de bigodinho fino), que por sua vez já tinha matado de fome "a pobre da dona Escarléti".
Quando no céu roxo da tela as Três Marias e o Cruzeiro do Sul anunciavam um melancólico FIM, Antonio, bêbado, entrava na casa. As pessoas em silêncio, com um suspiro a aperrear a barriga, seguiam o rumo da noite a lhes apontar o sono.
Naquela noite Róliude ficava bem pro mode das bandas de lá, entre Juazeiro do Norte e a Bahia. E não sei se por milagre de Padre Cícero ou por pura coincidência, um dia Antônio ficou sabendo que lá em Salvador um moço fazia um filme.
Vestiu a calça surrada de linho, arrumou a trouxa e tomou a estrada. Andou léguas, assombrado por Deus e o Diabo na terra do sol.
Quando por fim chegou à Bahia, Glauber Rocha, com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, fez de Antônio um astro. Um astro de fulgurante figura a figurar figurante. E, se não fosse pela morte que o tocaiou lá pelas bandas do Crato, Antônio teria chegado a tempo de se ver na tela das falações do final da sessão de cinema!





Glauber

Always

Rocha

A Cidade e os Livros


Se havia uma coisa que Vitalina amava e temia era a palavra. A sua relação com as palavras era de tal modo sagrada que se poderia mesmo afirmar que ela as tinha como religião. Sussurrava versos que benziam e amaldiçoavam, e escutava as "cantorias" dos poetas como estrofes de poderosos curandeiros. Com Vitalina aprendi a amar e temer as palavras; aprendi a ver as carnes das sílabas; sentir o cheiro das letras; tocar as curvas dos acentos, vírgulas, pontos e travessões; escutar as batidas cardíacas das pausas e parágrafos, e mastigar os temperos e especiarias das frases. Mas Vitalina morreu sem me ensinar tudo. A decifração ficou por minha conta e a gramática mágica das letras, entregue aos Deuses. E foi assim que "A Cidade e os Livros", do Antonio Cicero, bateu hoje à minha porta. Eu, cá perdida numa trama de letras que nunca termina, arranquei o livro das mãos do carteiro como um pirata defendendo o seu ouro. O pobre homem não entendeu e me olhou desconfiado... Abri o envelope e as primeiras palavras surgiram num verso de Paul Klee ; um arranha céu estante, uma cidade delineada em lombadas de livros. Bem acima, uma rua de palavras : Cidade e Livros. Esperei o sinal abrir e entrei na primeira esquina: um beco de Rose Auslander. Enfrentei fantasmas e venci bandoleiros. Uma rua comprida e larga me esperava logo além do Espaço. E surgiram ruas, vielas e livros. Me pareceu estar no País das Maravilhas, mas Cicero já havia avisado que nele não se pode entrar. Calculei que estava e não estava, e me perdi entre a rua do Ouvidor e a rua México. Foi aí que surgiram os cheiros e os paladares : parei para um camarão empanado na Colombo e uma cerveja no bar Luis. As palavras do livro tinham me levado longe, num lugar que de tão distante ninguém se perde. Vitalina não tinha me ensinado essa lição : as palavras podem nos levar aos confins, só pra gente não se perder... Se Vitalina ouvisse os poemas do Antonio Cicero, certamente os guardaria como os mais preciosos encantamentos.
obs: o livro foi publicado pela Editora Record.





Alvaro, Gil e a Mortíssima

Quando numa sexta-feira, 9 de março, um dragão rasgou o início da noite, bufando poeira de estrelas pelas narinas, reconheci a amazona que o cavalgava: era a Mortíssima de quem Frida, em sua dolorosa saga de calos, tanto falara e representara na ponta dos pincéis.
Eram cinco horas da tarde! Lorca não se enganara. Exatamente quando os ponteiros marcavam cinco em ponto da tarde a velha senhora se apresentava, livre de qualquer atraso, de qualquer desculpa esfarrapada. Exata como uma equação matemática, pousou o dragão sobre o leito de hospital que Álvaro, meu pai, se encontrava. Não se confundiu com nomes nem solicitou à nenhuma enfermeira, informações sobre o leito.
Embora insastifeito com o local do encontro e, se lhe fosse dada escolha, preferisse o centro da praça, acatou a chegada, lembrando-se de uma canção que Gilberto Gil compôs num momento de inspiração metafísica onde afirmou a realeza solitária da Mortíssima. "Afinal, se a morte é rainha que reina sozinha, quem sou eu para reclamar do local do encontro", perguntou-se, cantarolando a canção enquanto a digníssima dama se aproximava.
Demonstrando sinais de agenda sobrecarregada por horários que desafiariam a mais requintada teoria quântico-filosófica, indiferente a dor, ao espanto e às súplicas dos doentes que por ela esperavam como se esperassem uma aplicação de morfina, a Mortíssima rainha se aproximou de Álvaro, pronta para lhe dar o mortífero beijo.
E foi nesse exato instante que os seus lábios descarnados se aguavam em gotas secas do Rio da Secura que deu-se o inesperado: dragões alados, cavalgados por poetas, heróis, filósofos, músicos, pintores, atores, juristas, anjos, santos, artistas, escritores, cantores e "gente poéticamente comum", como meu pai bem dizia, rasgaram o teto branco da enfermaria. E lá estavam, físicamente contrariando a corte solitária da rainha Mortíssima, a mãe, o filho, o pai, o irmão, as irmãs, as tias, os tios, os avós, as avós, os velhos amigos de infância de Álvaro, acompanhados por Roberto Lyra, Carlos de Araújo Lima e Sobral Pinto, seus companheiros juristas que o ensinaram a amar e praticar a justiça mesmo quando esta exigia dolorosos sacrifícios; Dolores Duran, Lupiscínio Rodrigues e Antônio Maria, companheiros de antigas noitadas pelos bares de copacabana e vielas da Lapa; Marx, Lênin, Che, Bolívar, Chico Mendes, Garcia Lorca, Pablo Neruda, Torquato Neto, Castro Alves, Fernando Pessoa, Gorki, Picasso, Frida, Rivera, Portinari, Mario Lago, Shakespeare, Maysa, Silvinha Teles, Agostinho dos Santos, e uma horda inumerável de heróis que com ele estiveram na praça que é do povo como o céu é do condor, provando - em circunstância material - que a morte só é solitária quando reina sobre os injustos e os canalhas.
Numa fração de tempo incontável e inregistrável, num último lampejo de uma lucidez que conseguira esconder do ladrão Alzheimer, Álvaro sorriu para a Mortíssima e lhe confidenciou no ouvido: "Me leva depressa porque tenho que contestar a tese do Gil."
Se entrou ou não com uma petição - amigável, que fique bem claro - isso é coisa que ficou por conta do segredo de justiça do STC (Supremo Tribunal Celeste).
A Mortíssima? Dizem os registros hagiográficos que naquele dia, contrariando a agenda superlotada, seguiu o cortejo de dragões alados e foi vista, acompanhada por ruidoso séquito, num boteco da Lapa, cantarolando as canções que Lupiscínio e Dolores entoavam, extasiada - talvez pela cerveja ou pelas palavras - com os argumentos e contra-argumentos travados entre os juristas, filósofos e poetas.
O resultado da ação impetrada no STC ainda permanece incógnito para nós, os vivos, mas rumores surgidos numa sessão espírita acontecida num subúrbio do Rio, dizem que o tribunal pegou fogo quando Pinochet, o grande canalha, trazido das víceras profundas do Diabo, declarou no banco das testemunhas, ter sido levado pela Mortíssima "sozinho como um cão danado".

Ametista a Fada que Era Dentista


E era uma vez uma fada que era dentista. Seu nome? Ametista. Traçada pela ponta do lápis de Mariana Massarani, tatuada em letras, por mim, e exibida pela Cosac&Naify.

As Asas de Vita

Vita deixou bem claro que era avessa ao "casamento". Tinha horror às alianças. E certidões então, nem se fala! Casara-se quando ainda brincava com bonecas. "No papel", como ela mesma dizia. Não foi feliz nessa primeira experiência e, não sei se por justiça divina ou pelas revoluções de seu fígado (Vitalina amaldiçoava com a bílis), logo ficou viúva. Mas não chorou o finaldo. "Era filho do canhoto", dizia ela. Floresceu da noite pro dia. Ficou tão bonita que logo despertou a cobiça de muitos pretendentes. Dispensou todos, porque não queria casar. O dedo anular já tinha desinchado e a certidão fora usada como archote para o fogão a lenha num dia que cozinhava galinha ao molho pardo, prato que o finado mais detestava.
Os pretendentes cansaram-se de pedi-la em casamento quando notaram uma pequena protuberância em suas costas. Assustara-se com os dois montículos nas extremidades dos ombros, que cismavam em se agitar quando a cortejavam, prometendo uma vida "manda e estável". Quando isso acontecia, eles saíam correndo e espalhavam para todos que Vitalina era uma bruxa. Passavam até a elogiar o finado e seu pai, o canhoto. Mas ela não ligava, corria para o quarto, desabotoava a blusa e afrouxava o espartilho para que suas asas se abrissem. E as asas se abriram tanto que a levaram até a terra em que se ama sem compromisso.

sábado, 1 de março de 2008

Circe e Medéia


Vitalina costumava dizer que as crianças eram filhas da inveja. E invejou tanto que pariu rebentos. Os rebentos, por sua vez, continuaram a cadeia e invejaram tanto que pariram outros rebentos. E foi assim, invejada, que invejei outro rebento. Mas a inveja é uma senhora insaciável que teima em atormentar os vivos (se os mortos tivessem inveja, certamente ela com eles estaria), e na meia idade - não na terceira; números não combinam com a velhice! - eis que a velha senhora chega sem pedir licença. Chegou numa noite de eclipse, acompanhada por Luiza e as duas filhas, Julia Cristina e Vitória.
Talvez pela escuridão da noite ou por um pas des deuex imprevisto (Luiza é bailarina), ninguém enxergou as meninas. Julia Cristina, a mais velha, ciente da paternidade divina (não era para falar, mas o pai é Deus mesmo!) sentou-se numa poltrona perto da janela e ficou quietinha observando os domínios do pai, Vitória, filha de uma auto fecundação da menopausa, livre de toda e qualquer paternidade, soltou-se pela casa a furungar gavetas, portas trancadas, buracos de fechadura, e prateleiras da geladeira. O eclipse durou o tempo da visita e Luiza e as filhas se foram quando a lua despontou no céu. O embrião da inveja já havia fecundado a minha imaginação ociosa.
O dia amanheceu e saí à procura de Deus para que ele me fecundasse. Procura insana! Deus nunca está onde a gente procura. Depois de vasculhar cada confim de Deus, fui encontrá-lo numa clínica geriátrica. Deus estava velho, senil e brocha! Desculpou-se procurando desviar a minha atenção da sua impotência, alegando "motivos superiores". Mas se Deus é superior a todas as coisas, que raios de motivos eram esses? - Mentira! O senhor está é brocha! - falei. Não fiquei para ver a reação, mas deu para ouvir a voz do Divino tentando cantar uma enfermeira. Nessa hora constatei que Deus também é adepto da transferência...
Quando estava quase saindo, vi que a salinha dos remédios estava vazia. Entrei e roubei algumas caixas de soníferos. A esta altura devo confessar que a inveja andava me tirando o sono e que não resisto à uma pílula de Morfeu.
Cheguei em casa acompanhada de pílulas e desânimo. A auto fecundação estava descartada. Luiza aproveitara um alinhamento dos astros, e este só se repetiria nos próximos mil anos. Tive que engolir o sapo e umas duas pílulas. O sono chegou acompanhado pelo Diabo, que por sinal, estava no apogeu da fertilidade. Pensei cá com meus botões que se Rosemary pudera, por que não eu?
Na manhã seguinte pari gêmeas: Circe e Medéia.
Quando as visitas se foram , Vitalina calçou seus patins e saiu pela casa arranhando o assoalho. Nunca mais encerou o chão e espanou os móveis. Aproveitou as penas do espanador para uma fantasia

Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!