quarta-feira, 19 de março de 2008

Vide Bula


Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?
Que fome é essa que me embrulha o estômago?
Que gordura é essa que me assombra?
Que desgosto é esse que me amarga a boca?
Que fúria é essa que me faz biliosa e feia?
Que espelho é esse que reflete essa desconhecida?
Em qual farmácia encontro o remédio?
Se ao menos eu achasse a bula...

terça-feira, 18 de março de 2008

Sexus


Conheci Henry Miller num almoço na casa de Nazir. Ele me olhou da estante e piscou o olho. Apaixonei-me à primeira vista. "Um amor impossível!", comentaram minhas amigas do colégio. Afinal, Henry era muito mais velho e "proibido para menores". Não dei atenção às proibições e pedi-o emprestado a Nazir. Ela o emprestou de bom grado. Levei algum tempo para devorá-lo - Henry é metódico e gosta de etapas! No colégio, as meninas morriam de inveja. Não fui egoísta e emprestei-o para elas.
texto extraído do meu livro Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand

Águas Femininas


Nos banheiros da minha vida, as mulheres reuniam-se para narrar aventuras interditas e fantasias malditas, e para planejar noites de beleza e prazer. Nas suas paredes, impregnavam-se perfumes das mais variadas essências, vozes dos mais variados tons, vidas das mais variadas formas, assombrações das mais variadas épocas, curativos dos mais variados machucados, sangue das mais variadas menstruações, idéias dos mais variados pensamentos, deuses dos mais variados panteões, palavras das mais variadas páginas, linhas dos mais variados desenhos, curas das mais variadas doenças e banhos dos mais variados líquidos...
texto extraído do meu livro A Casa da Bruxa, publicado pela Editora Planeta

Ontem perdi meu daimon na pia. Bem verdade que ela estava escorregadia pelo detergente, um pouco sombria de gordura , soterrada pela louça de vários dias.Mas nada disso consistia em razões para engolir meu daimon! Ela o engoliu por pura gula. Para fugir do tédio circular do bom-bril na panela. Quis o meu daimon para fantasias escusas, dessas que só se vê nos filmes... O meu daimon não se fez de rogado. Escorregou na viscosidade do detergente e foi sumindo pela garganta escura da pia. A louça, essa entediada dama amante dos horários, torceu o nariz e lançou olhares maledicentes...Na solidão ladrilhada da cozinha, restaram eu - sem meu daimon - e o exército de panelas, pratos, copos, talheres e quinquilharias plásticas. O relógio, impaciente nos seus ponteiros, apontava para as funções do cotidiano. E o meu daimon, evadido sabe-se lá em qual confim do esgoto. Peguei então três xícaras de farinha, três ovos, uma xícara de leite, uma colher de chá de fermento, duas xícaras de açúcar , uma pitada de sal e cinco gotas de baunilha.Coloquei tudo numa tijela e bati um bolo ( sem daimon ). Assei-o em forno moderado. Não o comi. Estava solado como a alma das mulheres que perderam seus daimons!A pia? Essa acabou o perdendo numa curva do cano.


No amor e na cozinha há de se comer sempre com os olhos, passear a língua sobre os lábios e engolir todos os líquidos da gula. Deve-se elevar a imaginação a céus nunca dantes navegados e cobiçar com a intensidade dos avarentos. Não se deve poupar um milímetro do fio do desejo, nem o guardar para olhares futuros. O olhar da gula não tolera poupanças e é sempre perdulário.
texto extraído do meu livro, Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Aeróbicas


Não explicar nada.
Não tentar saltos abruptos.
Não forçar os músculos.
Esquecer os aquecimentos.
Alongar vírgulas e reticências.
Não forçar a barra.
Mergulhar no caldo sem levantar gota.
Ignorar o apito.
Não olhar o placar.
Não buscar medalhas.
Perder a competição e enxugar o suor.
Por fim, uma vitamina & um suspiro em círculos.
UM SOLO DE CHET...

Métricas

Vita costumava dizer que "o comprimento não é coisa dos centímetros e metros". O seu sistema métrico ignorava os tracinhos das réguas e era definitivamente avesso às fitas.Media no olho. Olhava sabe-se lá para qual ponto, estendendo um fio imaginário que vez por outra me surpreendia com a exatidão neo-científica de uma bruxa analfabeta. Invertia a lógica e ria-se de qualquer tonto que tentasse convencê-la da inexatidão dos seus cálculos. Um dia, chegou lá em casa um homem estúpidamente alto, comprido como uma vara, e ela nos disse que ele era "baixo que nem verme minhoquento". Minhoca?! O homem media quase dois metros! Mas olhando para o tal ponto incógnito, Vita insistia em afirmar a minhoquês do gigante. De nada adiantou medi-lo, exibir a prova definitiva da fita métrica. Vita não se convenceu. Continuou afirmando que o gigante não passava de uma minhoca. O tempo passou e um belo dia estourou uma notícia na casa: o grandão dera um desfalque no banco que trabalhava! Vita nos olhou e sorriu zombeteira: "Eu não disse que o tal era baixo que nem verme minhoquento?"... Desde então, tenho procurado no espaço o tal ponto incógnito. Aposentei as réguas e fitas métricas, e estico os centímetros entre as pestanas. Descobri que o tal ponto pode estar no intervalo criado pelo piscar dos olhos. Ali, no vácuo da percepção. Escondido e exposto, em movimento e parado. Com o exercício desta neo-ciência, percebi que a métrica transcende o comprimento, altura, circunferência e peso. Me dei conta de que, por mais disparatado que seja, a métrica pertence ao universo dos adjetivos e não dos números. Sim! A analfabetice de Vita estava certa: " emSão as palavras que esticam, encolhem, engordam e emagrecem o mundo.".

Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!