sexta-feira, 7 de março de 2008

Freud, Barro e Jardins


Vita se foi sem me dar a receita do impermeabilizante da alma. Esqueceu de me avisar que, como as paredes, a alma também é vulnerável às infiltrações. "Alma descuidada é como casa velha: cria goteiras e mofo!", afirmava vaidosa do seu sistema impermeabilizante. Descobrira-o ainda na infância, enquanto brincava com o barro do jardim num dia em que os adultos velavam um defunto. Chorou por osmose, mas por não saber as leis da química, preferiu acreditar que pegara um vírus. "Tristeza é que nem gripe e sarampo: pega se você chega muito perto." , dizia ao final de qualquer sentença. Freud, se a escutasse, talvez vislumbrasse uma provável histeria, mas o que os ouvidos não escutam, a mente não codifica. E como não a escutou, a histeria escorreu pelo ralo e Vita seguiu colocando o encanamento em ordem.
Dava gosto a ordem! A fechadura do coração nunca travava, os canos da paixão não entupiam, as telhas da segurança suportavam qualquer tempestade, as torneiras da vaidade não gastavam a carrapeta, as descargas dos amargores nunca perdiam a pressão. A ordem era tanta que da noite pro dia Vita não precisou mais dos artifícios das expressões. Deixou de rir e chorar. Virou estátua. Mas não era um bloco de pedra sem alma. Tinha tanta alma que atingiu o em si. Mas isso é coisa da filosofia e Vita não entendia a fala dos filósofos. Freud se a visse talvez vislumbrasse uma provável catatonia, mas desta vez provavelmente erraria, afinal ele não entendia nada de barro e jardins.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Ana, São Jorge Derreteu!


Ontem, quando acordei e vi São Jorge derretido no chão da sala, afogado em um mar de açúcar, desconfiei que podia ser algum sinal. Bem verdade que quando o ganhei de presente de Ana Durães, ela me aconselhou a comê-lo ao invés de guardá-lo. "Vai derreter, " ela disse.
Mas quem, em sã consciência, comeria um santo? Por mais que os músculos dele saltassem da armadura de ferro, por mais que aqueles olhos azuis provocassem terremotos e arrepios na carne, santo é santo! Comer São Jorge? Nem morta!
Face à minha determinação, Ana, formada e diplomada nas artes dos santos, sugeriu uma camada de verniz. "De repente, impermeabiliza", ela disse.
A princípio, a solução pareceu acertada. Mas quantas camadas seriam necessárias? Certamente muitas, se ele não fosse santo e fosse homem, mas santo, sem nenhuma nódoa para esconder e nenhuma vaidade para exibir, é uma outra história. Não havia pincel no mundo que deslizasse um quase tico de verniz desnecessário.
Não sei se pelos muitos copos de vinho ou pela euforia de estarmos reunidos - eu, Ronaldo, Ana, André Mux, Adriana Reis e Allison - a degustação do santo foi esquecida. De cima da mesa São Jorge nos espiava com olhar pidão, e Adriana jurou ter visto umas gotas vermelhas escorrerem do canto da boca dele. Se fosse em outro contexto, numa ocasião mais sóbria, todos nós admitiríamos o milagre, mas já estávamos na sexta (ou seria oitava?) garrafa de vinho, com os pés enfiados na região onde milagre é ficar sóbrio, e deixamos Jorge quieto no seu canto.
Melado, caramelado, desengonçado na sela do seu cavalo branco, o santo brandia a lança sem o mesmo ímpeto de antes. "São Jorge está bêbado. É melhor comê-lo", disse Adriana sem um mínimo pudor.
Receosos de recairmos em pecado mortal, não nos aproveitamos da santíssima embriaguez e Jorge ficou na mesa, chapado. Depois que todos foram embora o carreguei para o altar. E lá ele dormiu por alguns meses, até que Gilda Brasileiro, minha amiga química, filha de Iroko e Oxum, me aconselhou a servir cerveja para ele. "Mas só serve em copo de prata", ela recomendou.
Durante um ano ele se entupiu de cerveja, até que ontem, por coma alcoólico ou mistério que só os santos conhecem, São Jorge derreteu. Escafedeu-se sem deixar nenhum bilhete, deixando no ar uma sinistra pergunta: teria sido melhor comê-lo?

Cariocas e Ostras



Quando as primeiras palavras brotaram na minha boca, o S saiu aconchegado e embrulhado dentro de uma ostra; um S redondo e chiado como as ondas de Copacabana. A princípio não me dei conta do clausuro aquático de uma letra e pensei que todos nós, brasileiros, éramos filhos de Afrodite e Posídon.... O tempo foi passando dependurado no bonde que ligava a cidade ao Flamengo. Vez por outra era era cortado por um negro táxi guiado por Manuéis ou Joaquins. Táxis que se pegava no ponto e que tictavam como relógios escondidos bem atrás do taxímetro... O Rio era então uma enorme ostra que arredondava os S e badalava sinos nos bondes e tictava relógios nos taxímetros... Nesse tempo não havia tempo para sermos violentos e inseguros. A violência não combinava com os ruídos, e vamos convir que não se pode ser inseguro dentro do aconchego das ostras. E mesmo quando o mesmo ultrapassava os trilhos dos bondes e assumia a face do improvável, mesmo assim o inesperado, por mais bizarro que fosse, travestia-se de romance. E foi assim, entre o desvio do mesmo e os travestimentos, que me deparei com a primeira violência : A Fera da Penha! Mas as ostras teimam em transformar as impurezas em pérolas, e a fera, por acaso ou sina, transformou-se em romance. A professora feiosa, leitora de fotonovelas e romances, confundiu-se entre a piedade e o ódio. A vítima, uma menina de cachinhos negros, num piscar de olhos virou santa. Depois, ávida pelos dramas e santificações, vi Mineirinho, um bandido baixinho e simpático, vestir a roupa de Robin Hood e se juntar ao bando dos desvalidos. Sucedeu-lhe Cara de Cavalo, o centauro. Naquela época éramos ainda amantes do belo e costumávamos nos divertir no carnaval. Costurávamos estrelas no céu e os barracões tinham tetos de estrelas. Dizíamos bom-dia aos vizinhos e desconhecidos e nunca esquecíamos os nomes dos porteiros. Éramos pérolas polidas pela polidez das virtudes. Não éramos ingênuos. Não, foi muito depois que a generosidade travestiu-se em ingenuidade. Éramos gentis e redondos como as pérolas. Tínhamos o dom de transmutar o feio e torná-lo romance. O tempo passou e pensamos que ele correu depressa demais. E começamos a correr como loucos. Esquecemos o bom-dia e os romances. Caímos na armadilha. Mas... o Rio continua lindo, esperando pelos romances. E aos pessimistas ele só diz: só as pérolas conhecem o segredo da transmutação do impuro!

obs: se vc gostou do texto (tá legal, é chantagem mesmo) dá uma lidinha em meu novo livro, O Armário da Bruxa, editora Planeta.

Lusitanias




Portugal não me virou as costas. Eu virei as minhas para ela. Torci o nariz para os tamancos, para os lenços floridos e para o "ai Jisus" ( é Jisus mesmo) . Portugal nessa época se chamava Virgínia Ribeiro Cabral. Uma rapariga roliça que viera lá dos confins de Mangualde e tinha a estranha mania de adocicar os ovos. Aliás, os adocicava de tal maneira que eles nevavam açúcar e fiavam linhas dulcíssimas. Mas eu, com esta insana mania de dietas, torci o meu nariz e Portugal foi se cristalizando dentro dos vidros que Virgínia guardava na dispensa. O açúcar virou pedra e depois de muitos anos, sabe-se lá por qual mistério, aguou-se . Se fez uma água doce que morria de saudade do lençol de sal que cobre o bacalhau. Mas Portugal ( talvez influenciado por Freud ) entendia os mecanismos que me faziam torcer o nariz para o Vira, e todo dia procurava novas formas de me agradar. Tricotou meias, cozinhou legumes e verduras com paio, pediu a Fátima que me protegesse.
Quando debutei, Virgínia me deu as safiras que um dia uma ancestral as usara na corte. Achei o presente tosco, fora de moda, e brilhei os meus olhos para a calça Lee que alguém me dera. Portugal ficou lá encolhidinha numa cadeira, enquanto eu rebolava ao som de Elvis. Não ficou zangada. Entendeu e, no fim da festa, me deu um beijo e disse "Que Jisus te abençoe!". Depois foi embora, deixando no salão um aroma de rosmarino e alfazema... Portugal morreu sem que eu pudesse lhe dizer que a amava. Partiu em silêncio ( ninguém lembrou de velá-la ao som de Amália), num dia que já nem me lembro...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Pá Lavra


Vitalina não gostava de esclarecimentos. Fugia deles como o diabo foge da cruz. E se por acaso não conseguisse fugir, inventava uma melodia e tampava os ouvidos. Os esclarecimentos eram irmãos das desculpas e filhos das mentiras. Faziam parte da família que ela dizia ter se formado "no rabo do canhoto". Achava chato ouvir cantilenas explicativas. "O mundo não se explica", dizia ela com cara de enfado. Para Vitalina os argumentos não eram bem vistos, dizia que era coisa de janota e de gente que não sabe se queimar ao sol. Gostava das palavras. Das verdadeiras. Dizia que eram laranjas que escorriam o caldo sem se precisar espremer. Ah, como Vitalina amava as palavras. Amava tanto, mas tanto mesmo, que acabou cismando que elas tinham um nome e uma alma. Eram almadas, sagradas, santificadas. Brincava com as letras sem nem mesmo saber escrevê-las. E se encontrasse um outro mastigador de palavras, palavreava, palavreava e palavreava. Não explicava nada. Não aceitava explicações. Amava as palavras e nelas acreditava. Talvez este amor pelas letras e pelo som das palavras, fizeram com que ela se recusasse a escrevê-las. Acreditava nelas, e só isso bastava.

Jogo da Velha


Uma cruz no almoço
e ao meio-dia +
Um círculo
na limpeza do porão 0
Uma cruz na louça
e panelas na pia +
Um círculo
cozinhando no fogão 0
Uma cruz no vidro
e na janela +
Um círculo
no mingau da panela 0
Uma cruz
no meio da agonia +
Um círculo
na cruz do dia 0

Lacanianas

Uma tela de Dali
um pouco mais ali do isso
muito além de Gala.
Uma curva freudiana
um desvio do ça
bibelôs de Lacan
no afã de gala.
Metáforas da fala
néant no boulevard do ser
seta para o dali
na curva do ali
além da Espanha e Paris
uma estrada de giz.
O pincel de Picasso
coça o céu da boca de Lorca
muito além das cinco badaladas
do sino da garganta
cinco horas
só na praça!
Um lampião rodopia
acorda a noite de Gala
enquanto Freud inala
& Lacan fala.





Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!