
Se Vitalina não tivesse nascido no Brasil, certamente teria nascido no México. Disso eu tenho certeza! As evidências eram gritantes: como qualquer mexicana, Vitalina não cozinhava nem comia sem pimenta; amava (para desconsolo do refinamento de minhas tias) flores enormes, coloridas, e de preferência de papel; pintava as paredes da casa com cores que certamente o "bom-gosto" não aprovaria; cobria os móveis com paninhos que iam do rosa ao abóbora; não chamava a morte de "Chorona" , mas tinha com ela a mesma intimidade que os mexicanos...
Morte e Vida eram, para ela, a mesmíssima coisa: uma bênção a ser exaltada, proclamada e juramentada. Para ela, nascimentos e falecimentos eram motivos de festa e comilanças. Como uma antiga sacerdotisa asteca que acolhia as plumas ricas, as pedras preciosas (era assim que os astecas denominavam os recém-nascidos), com reverência e no quinto dia as banhava no temazcalli (banho de vapor) para depois entregá-las às mãos de um sacerdote que vinha benzê-las e aspergi-las com um pouco de água consagrada, Vitalina acolhia todas as crianças da família. Não sei se por ser rezadeira de "alma e coração", como ela mesma dizia, ou por não ter sido feliz com seus maridos (Vitalina casou muitas vezes), eliminou a presença do sacerdote e elegeu Luiza, minha bisavó, como benzedeira oficial dos rebentos. Luiza, que das festas amava os doces e as danças, aceitou o cargo com gosto e água na boca.
texto extraído de meu livro Guadalupe e as Bruxas, editado pela Editora Planeta e
um dos livros que mais gostei de escrever
quarta-feira, 5 de março de 2008
Amora e seus Amores

Foi por puro acaso que Amora descobriu seus dons para o amor. À época ainda era verde, sem suco, sem coloração perfeita, mas já exibia as protuberâncias arredondadas que provocam água na boca dos meninos. Sem suco e sem o vermelho que tatua nódoas no corpo e no coração dos amantes, se valeu do perfume e da maciez da casca. Seduziu o menino que sentava na terceira fileira da sala, exatamente na segunda carteira à direita. No ângulo certo da visão do seu redondo joelho. Não sei se pelo perfume ou pelas curvas carnudas de um círculo que se estendia em coxa, Amora seduziu o seu primeiro amor. “Sedução geométrica”, disseram as amigas enciumadas. “Primeiro fruto!”, exultou a avó enquanto podava e preparava a terra de um enorme pé de amora que se enroscava na cerca do jardim. Talvez pelos espinhos ou pelos galhos que de tão enroscados sufocavam a cerca, o amor de Amora não durou muito tempo. Terminou por desavença geométrica e deslocamento físico: estendido numa reta que não se encaixava no círculo do seu joelho, o menino simplesmente mudou-se para uma outra cidade. O rompimento causou dores, mas não abalou o perfume nem as curvas da fruta e Amora permaneceu disponível em seu galho. Podada e aguada nas luas certas, e
m pouco tempo descobriu-se madura, suculenta, pronta para ser colhida. Seguindo a lógica quântica da natureza, Amora se fez verde, de vez e madura por infinitas vezes. Foi colhida por mãos que se perderam em suas protuberâncias curvilíneas e derramou líquidos em bocas que suspiravam em prazer. Depois de muitas luas descobriu o seu próprio segredo e resolveu revelá-lo: abriu uma pequena loja especializada em amoras. E lá, entre geléias, tortas, balas, bombons, licores e amoras frescas, Amora revelou-se perita em amores... O endereço da loja? Ah, esse fica por conta da geometria das mulheres!
m pouco tempo descobriu-se madura, suculenta, pronta para ser colhida. Seguindo a lógica quântica da natureza, Amora se fez verde, de vez e madura por infinitas vezes. Foi colhida por mãos que se perderam em suas protuberâncias curvilíneas e derramou líquidos em bocas que suspiravam em prazer. Depois de muitas luas descobriu o seu próprio segredo e resolveu revelá-lo: abriu uma pequena loja especializada em amoras. E lá, entre geléias, tortas, balas, bombons, licores e amoras frescas, Amora revelou-se perita em amores... O endereço da loja? Ah, esse fica por conta da geometria das mulheres!terça-feira, 4 de março de 2008
Os 260 calos de Frida
Nasceu numa Sexta-Feira da Paixão, justo na hora em que Cristo era pregado na cruz. Bem no instante em que Raimundo (o Cristo), por artes sabe-se lá de quem, deu de sangrar pelos olhos, boca, ouvidos e nariz. Se isso acontecesse nos domínios das cidades de Deus, certamente haveria um médico que diagnosticasse o sangramento, mas como aconteceu lá pras bandas das terras que o Diabo aceitou só pra não fazer desfeita, o sangue virou chaga de Cristo e para virar milagre ficou faltando pouco.Talvez pela carência de cego a enxergar de novo, de aleijado a largar muletas e de mudo a danar falação, o parto foi visto por todos como um pálido sinal dos céus. Como nas terras do Diabo as mulheres embucham e desembucham por sina, ninguém deu muita atenção ao sinal e, para não deixarem Deus chateado, deram ao nascido o nome de Maria da Ferida. Nome comprido, esquisito como o montinho de carne que de tão magro só tinha olhos e umbigo.
Com o tempo o fenômeno do sangramento foi ficando esquecido e o nome comprido, reduzido. Maria da Ferida encurtou pra Ferida e, de tanto o povo descascar síbalas e letras, Ferida virou Frida.
Se a criança barriguda e olhuda tivesse nascido lá pras bandas das cidades de Deus, certamente teria pela frente uma vida de estudo e futuro, mas como nascera nas terras que o Diabo aceitou só pra não fazer desfeita, Frida teve pela frente enxada e fardo.
Aos cinco anos de idade, o fardo, que pesava mais do que a cruz que Jesus carregou, deu à Frida os seus primeiros cinco calos. "Sinal dos céus", ela pensou e saiu correndo para exibi-los à família e aos vizinhos. "Calos de enxada", disseram indiferentes. A mãe, ignorante de qualquer teoria psicanalítica, estendeu as mãos caludas e, sem orgulho, num misto de resignação e raiva, exibiu os cento e cinquenta calos das mãos. Cento e cinquenta rochas carnudas, irregulares e cascudas como os cactos da caatinga.
Se Frida morasse nas cidades de Deus e não nas terras que o Diabo aceitou só por obrigação, certamente toparia com algum psicanalista a apontar uma provável competição materna. Mas como de Deus ela só conhecia a ferida e a mãe era tão rota que nada tinha para competir, preferiu considerar as mãos caludas como forma de sabedoria materna.
Aos dez anos brotaram mais alguns calos, entre o dedo polegar e o dedo enrolador de cachos (Frida era vaidosa). Dessa vez não os viu como sinal dos céus e continuou lascando ferida e suor no roçado. A mãe já tinha se ido sem completar duzentos e cinquenta calos. Morte comum, feia como a Chorona (Frida cismara que a Morte assim se chamava).
Se o falecimento tivesse ocorrido lá pras bandas das cidades de Deus, certamente o morto teria caixão e lápide, mas como o acontecido aconteceu nas terras que o Diabo aceitou só pra não fazer desfeita, o cadáver foi enterrado em rede e em pouco tempo foi descavado e roído pelos cães famintos.
O fardo, que era bem maior do que a cruz que Jesus carregou, feriu Frida de tal maneira que em dez anos brotaram mais calos. Ela, que de há muito perdera a paciência de procurar sinais no céu, não se surpreendeu ao vê-los. Acendeu um toco de vela para a mãe defunta, ateou fogo na lenha do fogão e esticou o lombo enquanto o pirão de farinha esquentav
a.Se o lombo doesse lá pras bandas das cidades de Deus, certamente seria diagnosticado como desvio da coluna, mas como doía nas terras que o Diabo aceitou só por obrigação, Frida trincou os dentes e dormiu faminta. O pirão que mal enchia três colheres grudou no fundo da panela que nem as feridas no lombo de Frida.
Quanto completou cinquenta e poucos anos, Frida tinha as mãos cobertas por duzentos e sessenta calos, cascudos e feios como a Chorona. O dedo enrolador de cachos já não enrolava cabelos e o polegar mal dava para apoiar o cabo da enxada. O fardo, que há muito superara o calvário de uns duzentos Cristos, perdera o fôlego da sobrevivência e agora arfava como cachorro velho e doente.
Se o fardo vivesse lá pras bandas das cidades de Deus, certamente teria hospital e médico para tratar a asma, mas como era fardo nascido nas terras que o Diabo aceitou só por obrigação, Frida não quis fazer desfeita e contentou-se com um tiquinho de ar que lhe garantisse um pouco mais de esperança.
FRIDA
Dolmens
Você surgiu como um fenômeno climáticoUm tornado no inverno
Um maremoto sem mar
Você surgiu como um traço de grafite
Num muro sujo da cidade.
Chegou como uma jazz band
Num funeral em New Orleans
Você surgiu como um eclipse apocalíptico
Uma trombeta sem anjos
Um macarrão sem molho
Uma lua sem São Jorge
Você surgiu na linha da esferográfica
Que, mesmo falhando, eu teimo em usar.
Virgínia não nascera para amar os homens. No dia em que nasceu, a Virgem planejara torná-la um dolmen. Uma dor de barriga do menino Jesus atrapalhou os seus planos. Virgínia veio então ao mundo como uma menina. Cresceu com estranhas manias : erguia dolmens por tudo quanto é canto. Tinha um no jardim, um no quintal dos fundos da casa, e até um bem pequeno no altar do quarto. Na igreja, jamais reverenciou os santos. Preferia as madonas, redondas, sólidas, aéreas como os seus dolmens.
Don't Explain

Eu queria o sapato do Fred Astaire
E o vestido branco da Ginger.
Queria os peitos da Mae West
E os óculos da Greta Garbo.
Queria também a tolice da Marylin
E a idiotia da Doris Day.
Depois
Sairia por aí feito uma tola
E só falaria bobagens.
Esqueceria Proust
E casaria com um bancário.
Iria ao shopping nos sábados
E poliria as unhas quando elas lascassem
Não explicaria nada
E das indagações manteria distância.
Cultuaria zeros
E aboliria os cálculos.
Escreveria versos que rimassem
Tolices como amor e dor.
E das dores
Só conheceria a dos dentes.
E o vestido branco da Ginger.
Queria os peitos da Mae West
E os óculos da Greta Garbo.
Queria também a tolice da Marylin
E a idiotia da Doris Day.
Depois
Sairia por aí feito uma tola
E só falaria bobagens.
Esqueceria Proust
E casaria com um bancário.
Iria ao shopping nos sábados
E poliria as unhas quando elas lascassem
Não explicaria nada
E das indagações manteria distância.
Cultuaria zeros
E aboliria os cálculos.
Escreveria versos que rimassem
Tolices como amor e dor.
E das dores
Só conheceria a dos dentes.
um dia, enquanto raspava as panelas, Vitalina me revelou em segredo:
"Bruxas são mulheres gulosas!"
O Fantasma de Virgínia
Numa tarde fria de inverno
Vita incorporou na casa.
Chegou com os seus livros
As suas canetas
O seu chapéu
O seu casaco
E o seu diário.
Surgia nas horas mais impróprias
E até hoje me assusta quando abro o armário.
De início, não a reconheci com aquele casaco encharcado
Me pediu uma xícara de chá e reclamou do frio
Atropelava palavras num inglês acentuado
E demonstrava estranha fixação pelos rios.
Desde então nos tornamos amigas
Vamos ao shopping e ao supermercado
Trocamos segredos inconfessáveis
E no verão lemos poemas à beira do rio
Catamos seixos enormes e arredondados.
Virgínia os guarda no bolso do casaco
No início me assustei com essa mania
E confesso que temi perguntar
Quem sabe as pedras não terão serventia
No dia que o meu chapéu for comprar?
Vita incorporou na casa.
Chegou com os seus livros
As suas canetas
O seu chapéu
O seu casaco
E o seu diário.
Surgia nas horas mais impróprias
E até hoje me assusta quando abro o armário.
De início, não a reconheci com aquele casaco encharcado
Me pediu uma xícara de chá e reclamou do frio
Atropelava palavras num inglês acentuado
E demonstrava estranha fixação pelos rios.
Desde então nos tornamos amigas
Vamos ao shopping e ao supermercado
Trocamos segredos inconfessáveis
E no verão lemos poemas à beira do rio
Catamos seixos enormes e arredondados.
Virgínia os guarda no bolso do casaco
No início me assustei com essa mania
E confesso que temi perguntar
Quem sabe as pedras não terão serventia
No dia que o meu chapéu for comprar?
Era uma vez duas mulheres que tinham a alma de todas as mulheres. Chamavam-se Virgínia e Vitalina, Maria e Cristina, Josefina e Beatriz, Rita e Cláudia, Rosemary e Berenice, Marcia e Olívia, Alexandra e Andréia, Marina e Felícia, Juliana e Joana, Luiza e Daniela, Nádia e Leila, Leda e Lídia, Izabel e Raquel, Denise e Glória, Ana e Joana, Cecília e Clarice, Diana e Dorotéia, Sônia e Sandra, Lia e Sofia, Carolina e Jília, Flávia e Amália, Dolores e Natália, Neide e Joaquina, Neusa e Eleusa,Patrícia e Paula, Andréia e Fernanda, Sebastiana e Antônia, Clara e Mara, Zélia e Amélia, Ângela e Bruna...

Luizas, Lagoas e Jobim

Vem Cá Luiza...
A primeira vez que ouvi Jobim executar Luiza tive a nítida certeza daquilo que desconfiava desde os meus tempos de criança: Luizas são lagoas.
Plácidas, sombrias, iluminadas, salgadas, doces, encrespadas, espelhadas, transparentes, lisas, negras em noites sem lua, cintilantes em noites de céu estrelado e em dias de sol.
Esféricas, concêntricas, tanto afogam em traiçoeiros redemoinhos como emergem dragões lendários. Reticentes, sábias, implacáveis; permitem, ou não,
aproximações e distanciamentos.Abaetés, Titicacas, insanas, delirantes, rodopiantes em sapatilhas de bailarina, enraizadas nos confins da terra, afogadas em si mesmas, dodecafônicas em sinfonias que só elas ouvem, Luizas são notas musicais que escapam para si e em si e se bastam.
E por mais que os nossos pés brinquem nas suas bordas, por mais que atiremos em suas águas pequeninos seixos, elas permanecerão intocáveis, imutáveis, encrespadas em espirais engolidas por elas mesmas.
LUIZAS

LAGOAS

A idosa: vó Luiza, lagoa de caramelo.
A noiva: Maria Luiza, mãe que me apontou o caminho dos devaneios.
A bailarina de óculos escuros: Luiza Lagoas, amiga em águas de sapatilhas, mãe de Júlia Cristina e Vitória.
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Foi uma delícia escrevê-lo!
