segunda-feira, 3 de março de 2008

Binóculos, Moças e Cavalos

Vita adorava os binóculos. Guardava-os num desses cofres que se costuma ver nos filmes de mafiosos. Vez por outra destrancava o segredo. Girava o círculo de ferro, ajustava os números, e... depois ia para a janela espiar os humanos. Não ficava muito tempo. As lentes lhe causavam coceira nos olhos.Voltava então para guardá-los outra vez no cofre. Travava o segredo, e ia conversar com os cavalos...

Abstrações oceânicas
No olhar de égua.
Uma linha
Um fiapo
Uma strega.
Cofres de organdi
No viés das pregas.
Um salto
Um giro
Um trampolim.
Anágua de meretriz
Na piscina sem água.
Um corte
Um rasgo
Uma cicatriz.
Fome metafísica
No garfo do desejo.
Última ceia
Reticência
Um beijo

As Coxas de Cristo



Quando veio de Portugal, Virgínia trouxe um estranho missal: um caderno com receitas de pães, biscoitos e massas. O marcador era um cristo nu, pendido na sensualidade das coxas cruzadas. Embora crucificado, não demonstrava dor. Cheirava a pão e farinhas. Às vezes, era salgado, outras, doce, e algumas vezes, apimentado. Virgínia beijava-o antes de iniciar qualquer receita do velho missal. Fechava os olhos, suspirava um pouco, dava-lhe um demorado beijo e, depois, com os dedos roliços, acariciava-o. Jesus aprovava... Quando fiz 15 anos, Virgínia chamou-me para fazer um pão. Ofereceu as coxas de Cristo para que eu as tocasse. E foi nesse dia que aprendi que luxúria não é pecado!


Pão da Luxúria

Ingredientes:
1 tablete de fermento de pão
1/2 xícara de água morna
1 xícara de batata amassada (cozida)
1/2 xícara de mel
1 colher de chá de sal
1 xícara de leite morno
1 xícara de água de batata
farinha de trigo para deixar a massa elástica
Modo de Fazer:
Dissolva o fermento na água morna e, depois de devidamente dissolvido, junte todos os outros ingredientes. Trabalhe a massa e coloque-a para descansar e crescer. Depois de crescida, transfira-a para uma forma de pão e asse por 45 minutos, em forno bem quente.

Obs: se você gostou da receita, dê uma olhadinha no meu livro "Amor se Faz na Cozinha"
editado pela Bertrand Brasil.

Moças


As moças que eu conheço
Se enroscam como gatas
Enquanto lambem as patas.
Encurvam as retas
Desconhecem setas
E sempre avançam o sinal.
As moças que eu conheço
Arranham os cumes
Exalam perfumes
E espiam pelas frestas.
São bailarinas profanas
Meretrizes sagradas
Tão descaradas
Tão descaradas...
Assoviam para os homens
E se beijam entre si.
Não ligam para os avisos
E desconhecem as bulas.
Com gula engolem o mundo
Enquanto levantam as saias
E violam nuvens.
São moças fálicas
Selvagens falácias
Impuras como as águas
Perfeitas como os erros.
Aterros femininos
Tão leves!
Engomam o céu das bocas
E vomitam tempestades.
Afrodites nuas
Caçadoras de luas
Aves fugidias, sombrias.
As moças que eu conheço
Pedem carona na estrada
E se lançam dos penhascos.
São teimosas e geniais.
Nada mais.
As moças que eu conheço
São fumaças voláteis
Que inebriam e viciam.
Sinuosas fantasias estendidas
Na alvura solácea dos varais.

Wishes


Vita me ensinou as primeiras lições do feminino anárquico. E bem antes dos sutiãs serem queimados nas praças ,ela me veio com o primeiro fósforo. Fizemos uma bela fogueira no seu quintal e realizamos o meu primeiro ritual. Dentro do fogo jogamos as pieguices românticas, os laçinhos, os bibelôs e o pinguim da geladeira. Queimamos todos os princípes encantados e casamos com os sapos. Rolamos na terra e fizemos amor com os répteis de Lilith. Criamos asas. Pintamos com barro os nossos rostos e declaramos guerra ao Paraíso. Nos aliamos as medusas e rasgamos os códigos da boa dona de casa.

Eu queria ter um zíper na imaginação
Para só abri-lo em situações de emergência.
Queria ter um bolso sobressalente
Escondido entre o ventre e o coração.
Nele,eu guardaria coisas inúteis
Como paixões
Angústias e risos.
De vez em quando acrescentaria coisas
Ainda mais inúteis
E que ninguém presta atenção:
Nuvens
Terremotos e vendavais.
Eu queria ter um saquinho mágico
Para guardar varinhas e estrelas
Só para dizer que as tinha
Pois nenhuma delas eu usaria!
Eu queria ter um chapéu de toureiro
E... se possível, também um touro
Que trancaria no armário.
Eu queria falar muito
E dizer palavras muito feias
Que causassem uma boa impressão.
Queria ter um aparelhinho para surdez
Para poder escutar melhor as conchas
E espalhar boatos sobre o mar...
Queria ter a lua
O sol e os planetas
E de quebra alguns demônios
E anjos tocando trombetas.
Queria ser avarenta e emprestar dinheiro
Só para cobrar beijos como juros.
Aliás,eu queria mesmo era ser Deus.
Só para desfazer o que foi feito
E inventar coisas novas!


O poder de Vita concentrava-se no desejo. O mundo para ela era um enorme sorvete que só lhe implorava uma lambida. E Vita lambia a vida com a gula de uma criança! Ela não tinha o mínimo pudor de exibir um coração lambuzado, babado de sonhos e os desejos mais loucos. Para Vita a magia era isso: desejar, desejar, desejar, e desejar sempre. Os seus feitiços eram dedos furtivos sobre o glacê colorido do bolo da vida. E se alguém, por acaso lhe perguntasse de onde vinha tamanho poder, ela certamente responderia : "Vem do fundo da goela da gula."

Anorexia Quântica

Vita odiava dietas! Para ela o mundo haveria de ser eternamente banhado em muita manteiga e molhos caramelados. Comia as horas, minutos e segundos, e lambia os dedos e raspava a panela. Para Vita nenhuma porção era o bastante.Nela não havia vez para as medidas. A sua fome ultrapassava a física. Era apetite quântico.

Eu queria te comer inteiro
Despejar adoçante na tua barba
E lamber todo o açúcar.
E se o psicanalista insistisse
Naquelas explicações tísicas
De antropofágica fome de pai
Não o escutaria e o comeria!
Eu queria te mastigar sem pressa
Como uma criança ranhenta
Que se delicia com os líquidos do resfriado.

domingo, 2 de março de 2008

Madame e Outras Histórias

Ao terminar a leitura de Madame e Outras Histórias, encaixei mais uma peça do quebra-cabeça feminino. Lá estava ela, a peça minúscula a responder as perguntas que me fiz durante toda a vida: por que só algumas mulheres são chamadas de madame? Terão elas um algo mais que as distinguem das outras? O título é produto exclusivo de uma classe social? Por que os homens aveludam a voz e abaixam os olhos quando chamam uma mulher de madame ? E por que as mocinhas se postam em reverência quando se aproximam de uma madame?
Tentei, sem sucesso, responder a essas perguntas em diversas fases de minha vida. Na adolescência, época em que me equilibrava entre o romantismo exacerbado e as lições de moça bem comportada, criei uma estranha ponte que ligava as aulas de francês ao amor. E sem relutância, com a audácia teórica que só se tem aos quinze anos, elaborei uma teoria: o homem elege uma madame porque carrega consigo (por código genético ou mesmo por reencarnação) reminiscências trovadorescas de um tempo em que a amada era ma dame, a dama que o amor lhe reserva só sua.
Não sei se por rejeição freudiana - nenhum namorado me chamou de madame - ou se pelo caleidoscópio de informações que a universidade apontava, abandonei a teoria afetivo-linguística e, nos primeiros anos acadêmicos, mergulhei de cabeça nas teorias sócio-políticas que os novos tempos exigiam. E assim, movida pelas perguntas que me assombravam e pela arrogância teórica que assombra aos jovens acadêmicos, criei mais uma teoria: madame era o símbolo de uma classe social perversa, escravagista e autoritária. Sem pudor, esqueci das madames que me cercavam e exigi uma nova Bastilha!
Do centro de sua sabedoria madamesca, com a cabeça pendida pelos golpes de ensandecida guilhotina, vovó presenciou a revolução com enigmático sorriso...
Não sei se por ineficiência revolucionária ou por deficiência estrutural na teoria - afinal, se Bovary era burguesa, nem toda burguesa era Madame Bovary; se Coco Channel se fez madame, Mary Quant não se fez Madame Channel -, a intrincada teia de perguntas ficou sem respostas. Mas eis que um dia, sem pedir licença nem enviar emissário, os originais de Madame e Outras Histórias entraram em minha vida, oferecendo a resposta! E foi depois de ler Marion que compreendi que madame é a mulher que em sorriso de Mona Lisa carrega histórias.

O livro de Marion Mac Dowell, "Madame e Outas Hisrórias" foi publicado pela Edições Consultor. É um livro lindo que só mesmo uma amiga tão especial poderia escrever.

Um Pouco Acolá do Mais Ali Adiante




a resolução de endurecer sem ternura (para amargor do velho Che) já estava quase me tomando quando Ana Durães, minha irmã de trauma, me falou de uma flor que só ela conhecia a existência. "Como, uma flor que ninguém mais conhece?", perguntei aguçada pela curiosidade que só os agricultores conhecem. "Pois é, não é que a flor nasceu da noite pro dia, um pouco acolá do mais ali adiante", Ana respondeu com a mineirice lógica de Guimarães.
A conversa desviou para as mundanices da vida e vez por outra a flor desabrochava entre vírgulas, letras, exclamações e pontos, acenando de um acolá carente de geografia. "Tua flor tá parecendo com as rosas do Diego", eu disse, já me preparando para o acolhimento de um milagre. "Pois é, acho que é flor de Maria", Ana respondeu, agarrando um escapulário de Santa Bárbara.
Se a flor pertencia a Maria ou se era de Guadalupe, de Santa Bárbara ou de algum botânico que a criara por vias híbridas, não interessa. A verdade é que se anunciou o milagre: as resoluções drásticas que eu semeara no solo fértil da alma, voaram com as últimas folhas de um calendário que tenho grudado na porta da geladeira. Bem verdade que eu preferia um pinguim, daqueles de louça, vestidos a rigor e com biquinho amarelo, mas pinguins andam em falta e, na falta deles , um calendário da "Panificação Flor de Olaria" cumpre o mesmo papel. Mas deixando a estética de A. Moles de lado e voltando as resoluções, ao terminar a conversa alguma coisa havia mudado...
Olhei para os lados e dei de cara com a minha horta, os meus livros, os meus discos e a matutice de minha rua. "Bão dia", disse Dona Isaura, minha vizinha, conduzindo o seu vira-lata por uma cordinha. Não deu tempo para responder, pois ao passar Isaura deixou cair uma flor. "A flor de Ana!!!!", exclamei eufórica.
Despetalada como a boca sem dentes de Isaura, tímida como um discreto bão dia, inocente como um vira-lata conduzido por uma corda, ali estava a tal flor. Verde, amarela, rajada de azuis e com perfume de extrato barato. Lembrei-me do colo de minha babá e afundei o nariz no odor de talco cashemire bouquet, coloquei-a na boca e senti o gosto de tapioca, angu e arroz com ovo. Sacudi-a no ouvido e ouvi os tambores do bumba meu boi, as cuicas da mangueira e as ladainhas das procissões.
Dona Isaura estranhou quando me viu agarrada a uma flor despetalada e murcha. Mas não disse nada. Seguiu o seu rumo em direção à venda, com uns poucos trocados para comprar a linguiça da ceia do ano novo.
E foi assim que a ternura de Che me inundou a alma e decidi anular as resoluções. No ano que vem continuarei (e sei que muitos assim o farão) a ver beleza num povo que de tão belo ofusca qualquer ouro. E... afinal, por mais ouro que possam ter os corruptos, nada se compara a glória de ter amigos que enxergam flores um pouco acolá do mais ali adiante!



Duas Anas, Durães e Santeiro. A primeira, traça santidades em tintas (e que tintas!), a segunda, agencia a nós,escritores, pobres anjos decaídos.

Ana Durães me deu a capa de Senhoras do Santíssimo Feminino, editado pela Rosa dos Ventos e... um coração cheio de santas.








Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!