domingo, 28 de dezembro de 2008

Resoluções Drásticas


se você já cansou de ver sua conta no vermelho, de ser íntegro, honesto, digno e fiel aos seus princípios; se já se deu conta de que este mundo definitivamente não tem lugar para os poetas, romancistas, pintores, cineastas, dramaturgos, escultores, filósofos, estetas e todos aqueles que sonham com um mundo mais justo e mais belo, talvez seja hora de aproveitar alguma das minhas resoluções...

Resoluções Drásticas

No ano que vem fecharei os olhos para o Belo e não mais procurarei estrelas em céu nublado. Queimarei todos os meus livros, principalmente os de filosofia e poesia. Não acreditarei mais nos utópicos e dos poetas manterei distância. Comprarei livros novos, especializados na "difícil" arte de vencer na vida sem fazer esforço ou de enganar os trouxas sem nenhum escrúpulo.
No ano que vem me filiarei a um partido e me tornarei capacho de algum político. Me especializarei na "nobre" arte da estupidez e engodo. Farei tudo que o mestre mandar e se ele disser que a Terra é quadrada, assinarei embaixo. Me tornarei exímia na "fabulosa" arte de escrever palavras vazias em discursos cheios de más intenções. Anularei de tal forma minha integridade e compostura que no final serei recompensada: virarei presidente de alguma estatal.
No ano que vem babarei o ovo de alguma estrelinha ou de algum galãzinho bonito que de arte só entendem a de revistas versadas em fuxicos e babados. Me esquecerei de Cacilda, Fernanda, Marília, Dina, Isabel, Natália, Ítalo, Walmor, Autran, Borghi, Petrin, Gracindo, Procópio e tantos outros, verdadeiramente abençoados por São Shakespeare. Por falar nele, o descanonizarei e o enviarei para o limbo, junto com o velho Lear.
No ano que vem desafinarei meus ouvidos e vibrarei com o máximo de lixo musical que conseguir ouvir. Quebrarei todos os meus discos de Jobim, João Gilberto, Maria Callas, Nara Leão, Elizeth Cardoso, Maysa, Ellis, Wanda Sá, Edu Lobo, Caetano, Mutantes, Gil, Maysa, Amália Rodrigues, Charlie Parker, Os Cariocas, Tom Waits, Marina Lima, Dorival, Nana, Ray Charles, Bessie Smith, Billie Holliday, Luis Melodia, Etta James, Jacques Brel, Edith Piaf, Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Joan Baez, Clementina de Jesus, Cartola, Dr. John, Nina Simone, os Chicos (Buarque e Cesar)... e comprarei todas as éguinhas-pocotó que encontrar pela frente.
No ano que vem me tornarei guru de alguma estrelinha, astro do futebol ou de uma nova emergente e cobrarei fortunas por cada palavra (?) que eu vier a falar. Aliás, não falarei nada. Guru que é bom é aquele que olha, fica calado e mantém um ar distande, acima de qualquer mortal.
No ano que vem farei previsões para o ano seguinte e aparecerei em todos os canais de TV (de preferência com o telefone para consultas devidamente creditado na tela). Vaticinarei acidentes e mortes de celebridades (sem citar nomes, é claro!), seguidas por possíveis triunfos da seleção, casamentos e divórcios de artistas, gongorras financeiras e desilusões políticas (como se isso fosse novidade!).
No ano que vem esquecerei o meu curso de Filosofia e arrumarei um diploma em alguma universidade holística ou de marketing empresarial. Ministrarei palestras e darei workshops caríssimos, voltados para temas ardilosos tipo "Descobrindo o seu Eu Interior", "Os Anjos e os Negócios", " Torne-se Afrodite em Dois Dias" e "Os Deuses Empresariais". Estarei rica em pouco tempo e nunca mais ficarei no vermelho. Platão, Kant, Sartre, Descartes, Hegel, Hume... certamente entenderão minha completa falta de princípios e excesso de fins.
No ano que vem fundarei mais uma igreja evangélica e afirmarei que Jesus cura em suaves prestações e que o Paraíso pode ser financiado pela Caixa Econômica sem assinatura de qualquer avalista. Tirarei encostos, exorcizarei demônios e vícios, muito mais barato que qualquer outro concorrente. E se os meus sermões convencerem, me tornarei dona de uma estação de tevê e de um partido político.
No ano que vem terei me tornado tão medíocre, tão abjeta, que se eu morrer nem o Diabo aceitará minha alma.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sweet Sertralina

Doce,
amarga na euforia.
Biombo das dores
oculta os ais
e escorre a vida... feliz.
Cadê meu comprimido?
Já desceu pelo canal da garganta?
E cadê eu que não me encontro
com a minha dor?
Cadê meus ais,
e sei lás?
Onde foi parar a lágrima
que nascia, eterna,
entre a ladeira do nariz
e o túnel dos olhos?
Ah, sweet sertralina,
tão doce como os adoçantes,
artificiais...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Janis Ian & Eu


Hoje a encontrei esquecida no quarto,
lacrada em dezenove voltas de durex.
Grogue, pastosa, aguda.
Zonza de cuba libre e gotas de calèche.
Lanhada no rosto, braços e virilha.
"Society's Child ild...ild...",
me disse,
repetindo a última sílaba.
Depois, apontou para uma agulha.
Não houve jeito de tocá-la.
O tempo tinha rodado

em vinil...



obs: se você gosta das minhas sandices (deve haver pelo menos um alguém que goste), dá uma passadinha numa livraria que eu estarei lá, esperando, sob o nome de Senhoras do Santíssimo Feminino, da editora Rosa dos Tempos. E... se de repente minhas sandices já tiverem se espalhado por todo o seu organismo, como um vírus ou uma bactéria vital, dá uma espiadinha em meus outros livros, tá?

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Joni Mitchell & Eu


Não usou relógio,
não foi apressada
e achou que Deus era um bicho-papão.
Andou de taxi,
mas só nos grandes,
velhos e amarelos.
No azul catou notas de blues,
dissonantes, tristantes.
No verde encolheu e encolheu
até parir em little green.
Em Jó só conheceu Joni,
a dos dós, dos rés e dos sis.


Obs: se você quer se dar ( não vale pedir para alguém) um presente de natal pra ficar guardado no cofrinho da memória, passa numa loja de discos e leva a Joni Mitchell pra casa. E se der tempo ( e sobrar dinheiro ) dá um pulinho numa livraria e me leva também - eu juro que sou uma hóspede comportada - disfarçada de Senhoras do Santíssimo Feminino, da editora Rosa dos Tempos ou de Amor se Faz na Cozinha, da editora Bertrand, ou de Guadalupe e As Bruxas, da editora Planeta.

sábado, 25 de outubro de 2008

Dezessete Palmeiras, Rua Paissandu & um Rio Grande


Da praia,

dezessete palmeiras até minha casa.

Dezessete gigantes

a guardar passos e tropeções.

Na primeira esquina,

uma lanchonete, americana.

Do lado outro da rua,

um rolls-royce negro

estacionado em uniforme espera

de fumaça continental.

Quarenta e cinco passos adiante,

sapatos sem pés em vitrine

e frascos de remédios em prateleiras,

geometricamente posicionados

entre a marquise

e o buraco do suicida.

Depois do sinal, verde, é claro,

mais cento e cinco passos

e alguns sacolejos dos dedos

ao longo de grades enferrujadas.

Parada obrigatória na cerca de ficus.

Alguns assovios e depois fuga,

dos lacerdinhas.

Enfim, os últimos passos.

Dois bancos de mármore

num jardim art deco.

186 arfadas

mais nove degraus de um rio grande

que descia em tapete vermelho

para desaguar em elevador de madeira

com botões de marfim,

grade dourada e um poço escuro.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Tubinhos, Traças & Chaves


Cadê meu velho armário?
Em quais cabides
se esconderam os tubinhos,
as kilts inglesas
e os conjuntos de cashemere?
Cadê os sapatinhos baixos,
cavados até o dedão?
Cadê as tardes de sábado
e vitrola suitcase
preparada para a festa?
Cadê a festa?Quem apagou a luz
e chamou o síndico?
Cadê Billie que não canta,
Chet que não sola,
João Gilberto que não namora
e Elvis que não rebola?
Em qual buraco se meteu
a dor trágica dos amores
sempre não correspondidos?
Em qual vácuo do ar
se dissipou o pinho silvestre
do cheiro dos meninos?
Cadê o coração que não dispara,
a voz que não defunta a garganta
e a boca que não molha?
Chaves trancaram o armário
e no centro do quarto vazio
um espelho em viuvez
reflete um bau de lembranças...
roídas pelas traças.
Obs: se você gostou, dá uma lida em meu livro O Feitiço da Lua, publicado pela Editora Bertrand. Aposto que você gostará.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Sorvete, Jóias & Freud

Aos sábados, pela manhã, Nazair me levava para tomar sorvete na Colombo. Depois, empanzinada de caramelos, calda de morango, cobertura de chocolate, marshmellow coroado por rubra cereja, eu a seguia pelas vielas estreitas do centro da cidade num cortejo bizarro de experimentações de chapéus cujas plumas me provocavam espirros, vestidos negros de lantejouladas transparências, sapatos suspensos por agulhas que quase alcançavam o céu. A cidade era então um mistério acetinado, um enorme rolo de tecido prestes a rolar do balcão e cobrir a gigantesca Avenida Rio Branco, que por sua vez não era um rio nem era branca.
A peregrinação se aproximava da hora do a qualquer momento quando Nazair gentilmente, com a característica desplicência dos ricos de bolso e espírito, empurrava uma transparente porta de vidro decorada por floreados e letras douradas. Nessa hora meus olhos ardiam como se mirassem o sol, um sol travestido de diamantes, esmeraldas, trançados de fios de ouro e platina que lânguidamente penetravam pelos dedos, punhos, colo e orelhas de Nazair. Mesmo sem ter a mínima idéia do que era sexo, rotulei-o como uma porta de cristal aberta para lânguidíssimos movimentos de gemas. Sexo era isso e ponto final.
Alheia as minhas conjeturas eróticas, Nazair escolhia algumas jóias que ritualísticamente eram colocadas em caixas de couro negro estofadas com cetim. As jóias eram cadáveres de belas adormecidas em ataúdes escuros, à espera de um beijo. Morte e sexo se trançavam num mesmo nó, num instante de gozo e desfalecimento, numa porta que se abria para uma caixa que se fechava. E eu ainda nem tinha lido Freud...



Se você quiser conhecer um pouco mais de Nazair, dê uma lida em meu livro, Guadalupe e as Bruxas, publicado pela Editora Planeta.

Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!