A variedade de universos que se escondia dentro dos banheiros da minha vida nunca me deixaram constrangida nem culpada pelas transformações. Essas transformações faziam parte da tradição mágica das mulheres de minha família. Assim, não me assustei quando aos cinco anos inundei as pastilhas brancas do assoalho com o sangue vívido e pastoso de uma fenda no pé, produzida pela lâmina vítrea de um caco de Chanel5. O âmbar do perfume mesclou-se com o vermelho do sangue, pontilhando ilhotas de lajotas portuguesas. Portugal nunca esteve tão próximo e tão concreto para mim. Naquele instante fui Carmina, Urraca, Afonsa, Domingas e todas as mulheres que me antecederam numa Lusitânia mais além da baía de Guanabara. Não tive medo. O sangue pingou os rostos ocultos na minha face.Quando os adultos me encontraram no banheiro, gravando no chão as pegadas de um jogo sanguinolento de amarelinha, custaram a entender a razão do meu silêncio; e, sem argumentos, preferiram atribuí-lo ao choque. Eu estava em estado de choque, cortada pela lâmina de Oyá e fulminada pelo seu raio.
Somente Virgínia, a senhora avó da verde Mangualde, viu o rosto da Deusa refletido na transparência da água que vertia do chuveiro. Somente Virgínia viu as faces ocultas na face de uma menina que, no dia em que completava cinco anos, escalou as brenhas íngremes da Serra da Estrela, disfarçadas em bancos de madeira, e travestiu de neve a chuva de granizo que insistia em cair lá fora. E foi nessa hora em que enxergou séculos nos meus cinco anos que Virgínia disse: "A miúda cortou-se como se cortou minha mãe!".
Nesse dia, muitos anos antes de ler, Oui 2, L' arcangelisme scientifique de Salvador Dali, entendi as suas palavras:
Minha metamorfose é tradição, porque tradição é precisamente mudança e reinvenção de uma outra pele. Não se trata de uma cirurgia estética ou de uma mutilação, e sim de renascimento. Eu não renuncio a nada. Eu continuo.
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Texto extraído do meu livro A Casa da Bruxa, publicado pela Editora Planeta






