segunda-feira, 31 de março de 2008

Dorothy Parker

Quando o fantasma de Virgínia
aqui em casa veio morar
não chegou desacompanhado
e trouxe outro pra assombrar.
Enquanto Virgínia vagava encharcada
entre os livros da biblioteca
Dorothy fuçava gavetas e armários
experimentando vestidos e sapatos
com ares de boneca.
Virgínia chorava pelas rugas
e pelos cabelos grisalhos.
Dorothy a socorria com cremes
e penduricalhos.

Um dia, Virgínia deu de andar cismada. Sentava calada num canto da sala e de lá não saía nem se Fátima a chamasse. Folheava um velho álbum de fotografias, enquanto resmungava aflita: “Deve estar por aqui aquela senhora que toda manhã cisma em me aparecer no espelho!”.

O Revolver dos Beatles

No ano de 1966 ganhei dos Beatles um revólver. As pessoas da casa nunca tinham visto uma arma tão estranha. Não era de aço, não tinha cano nem tambor. Mas como era certeira. Se o apontasse para o taxista ele não corria perigo. A senhora Eleonor Rigby (uma inglesa que morava no apartamento ao lado) não precisava esconder a carteira dentro do sutiã, o dorminhoco do segundo andar podia dormir tranqüilo, e aqui e acolá se estabelecia a ordem. Os marinheiros navegavam em submarinos amarelos, as moças diziam o que queriam dizer, e os dias sempre amanheciam ensolarados.Embora não tivesse calibre nem balas, o revólver que ganhei dos Beatles era mais poderoso do que qualquer canhão. Dos seus tiros os pássaros não fugiam e ao som do tiroteio qualquer passarinho podia cantar. O revólver não tinha dono. E por mais que o Dr. Robert (o americano do oitavo andar) afirmasse que ele era só seu, a verdade é que não era só dele. Era nosso e de quem o quisesse na sua vida. E como se quis. Mas como do amanhã ninguém sabe, chegou o dia que o colocaram de lado. Trocaram-no por um tal revólver de um certo Dr. Colt. Um homem sisudo, amargo que nem fel. Dizem que sofria dos males da bílis e das alucinações das enxaquecas.Não sei se por causa do amargor dos tempos ou de uma sociohepatite endêmica, as pessoas guardaram o revólver dos Beatles nas gavetas e encaixaram o do Dr. Colt nas cartucheiras. Os marinheiros pintaram de cinza o submarino amarelo; a senhora Eleonor Rigby mandou colocar três trancas na porta; o taxista que a servia deu de ter medo dela e dos outros passageiros; o dorminhoco passou a sofrer de insônia; John Lennon foi abatido na porta de casa e a polícia e os bandidos se espalharam por aqui e acolá.Durante todos esses anos preservei na vitrola o revólver que ganhei dos Beatles. Vez por outra o empunho... quando os tempos estão sombrios e o mundo precisa dar uma chance à PAZ .

sábado, 29 de março de 2008

Os Adultos São Tão Bobos


Luiza, do alto dos seus cem anos, não gostava dos adultos. Com eles era ríspida, malcriada, sarcástica e (por que não?) dissimulada. Dizia que eles lhe provocavam gazes. E não sei se por verdade ou encenação, costumava arrotar e soltar puns fedorentos quando algum adulto lhe tomava o tempo! Gostava mesmo era de crianças. Adorava conversar com elas e trocar guloseimas. Bem verdade que nas horas das trocas, Luiza se aproveitava da idade e trocava um biscoito por dois chocolates e cinco balas puxa-puxa (tinha todos os dentes,inclusive um de leite!). Mas as crianças não ligavam para estas pequenas chantagens anciãs. Trocavam de bom grado. Luiza, do alto (ou baixo?) dos seus cem anos sorria com a boca escorrendo açúcar... Quando fiz treze anos, Luiza começou a me olhar de gueira. Intensificou as trocas e, propositalmente, passou a trapacear com mais frequência. Me dava um biscoito e ficava só esperando. Respirava aliviada quando eu lhe retornava três pirulitos, um chocolate e um coração de abóbora. Não dizia uma palavra. Escorria o açúcar e me dava um beijo. Aos dezoito anos, intrigada pelas trocas diárias, acabei lhe indagando pela razão dos "ufas" e de tantas trocas. Luiza, limpando a boca com a barra da saia me respondeu: - Eu só estou me certificando de que você não cresceu. Me disse isso e mais nada. Retornou ao açúcar e a sua colcha de retalhos. Morreu pouco tempo depois, dormindo. Não tomou café com leite com todos da casa. Preferiu os sonhos que os anjos acabavam de assar para ela!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Círculos & Retas

Luiza era avessa às retas. A aversão era tão imensa, que ela acabou se transformando num todo redondo, numa espiral de carnes concêntricas que arfavam e se movimentavam em círculos. Tinha sido redonda desde que nascera de uma barriga redonda num domingo redondo de uma noite de lua redonda. Caminhava em círculos e assim chegava muito mais depressa a lugares que quase ninguém chegava. Não tinha pressa. "A pressa é reta", ela dizia com um sorriso redondo. E não sei se pela falta de pressa ou mania de andar em círculos chegou atrasada no encontro com a Morte. Quando chegou, a Morte já tinha ido embora, cansada de tanta espera.Foram necessários 110 anos para que as duas finalmente se encontrassem.








Texto extraído do meu livro Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand

Um Escritor Sem Literatura


Conheci José na casa de Vitalina, numa segunda feira sem graça em que procurávamos nos distrair jogando víspora. Chegou bem na hora em que eu me preparava para botar um caroço de feijão sobre o número sete e completar o cartão. Talvez por isso, por ter estragado a festa da vitória, não lhe tenha dado a devida atenção e , confesso, o tratado como um reles vendedor de enceradeira. Um tipo tão insignificante que nem enceradeiras completas vendia. Negociava escovas para elas. É, aquelas redondinhas, espinhentas, que rodam velozes debaixo da engrenagem. Vovó o tratava com a mesma reverência que dedicava aos figurões que a visitavam. "Escovas dão brilho!", dizia ela, servindo ao pobre infeliz o melhor licor da despensa. A segunda feira além de monótona, já estava estragada, ou se preferir, encerada. Eu, com o feijão no bolso, implorava aos céus que levassem o pobre homem para a casa ao lado. Mas os céus não costumam ouvir as preces dos jogadores e simplesmente fecharam os ouvidos. Perdi o gosto da vitória para um par de escovas de enceradeira! Descrente do poder dos santos, do espírito e até de Deus, encolhi-me no sofá e espichei ouvidos irônicos para a ladainha do vendedor. "Essa escova espalha a cera com a mesma elegância de um poema de Rimbaud", dizia ele, arrematando a fala com algumas estrofes de "Iluminações". Ôpa, escovas iluminadas e ainda por cima letradas? A ironia cedeu vez à curiosidade. A tarde escorreu como um piso encerado, entremeada por escovas, ceras, enceradeiras , liquidificadores ( ele estava pensando em ampliar os negócios), filosofia, literatura, história e psicanálise.Vitalina, analfabeta por imposição do seu tempo, sorvia cada palavra. Com o passar das horas, as escovas enceravam os seus olhos e lhes davam brilho. Um brilho tão intenso que ofuscava! Depois da venda o homem se levantou para se ir embora. Perguntei-lhe o seu nome: "José da Silva, vendedor de escovas e escritor sem literatura", respondeu-me. Durante anos o vi tocando a campainha para vender badulaques. Até que um dia sumiu, evaporou da mesma forma que as enceradeiras. Vendeu escovas e letras. Morreu sem literatura, mas formou literatos. O feijão carunchou e não senti o tal gosto da vitória, preferi aprender como polir assoalhos com versos de Verlaine...




quinta-feira, 27 de março de 2008

A Morte no Khol dos Olhos das Meninas



Os olhos do deserto já não refletem a noite no khol dos olhos das meninas, nem desaguam líquidos no oásis das beduínas. O deserto enviuvou, secou como a vagina da Medusa a menstruar sangue dos soldados, Cristos dependurados, corpos açoitados . Os olhos do deserto foram furados pela lança do cowboy de Édipo, pelo falo de um deus camelô, cheirado e embriagado, a vender armamentos de guerra e ações de petróleo pela TV . Vai levar, freguês? APROVEITA QUE É HOJE SÓ! Mísseis a preço de ocasião. Compra um e leva de brinde um canhão! Os olhos do deserto se esconderam aterrados em buracos. Olhos à procura da Mãe . Querem voltar pra casa. Querem o khol, o carmim e a vulva. Querem a brisa morna das noites dos jardins da Babilônia, o calor dos seios da amada Ishtar. Exaustos, acuados, torturados, órfãos de Nabucodonosor, os olhos não querem mais o sangue viscoso do negror das florestas petrificadas em óleo.

Os olhos do deserto não querem fumaça a cegar os olhos das mesquitas, nem morte a gelar a carne das suas meninas. Querem olhar outra vez o sêmen do pênis do Eufrates a engravidar as tamareiras. Querem as fitas, os rodopios, os véus e as verduras e frutas das mulheres do mercado. Querem de volta o cio e a ternura do sândalo e das especiarias. Querem recontar estrelas e reinventar uma nova matemática. Os olhos do deserto não querem mirar a imagem dos seus filhos mutilados em fotografias. Ao deserto basta somente mirar a Lua e parir caminhos nas estrelas...

quarta-feira, 26 de março de 2008

Spell


Preciso de agulhas de ouro
uma gota do sangue de uma
virgem
uma estrela ainda viva
um retalho da colcha de alguma rainha
uma nota musical desconhecida
e um novelo de raios da lua.
Preciso também de um eclipse
(e se possível, uma tempestade)
Necessito urgentemente de ventos
e também de calmarias.
Depois de misturar tudo no meu caldeirão
finco o seu corpo num meteoro
rasgo a noite com uma tesoura de luz
invoco o fantasma de Cole Porter
e vamos ao Village
escutar uns blues!
Quando VITA se apaixonava, não escrevia cartas nem poemas. Saía para o jardim e fazia feitiços!

Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!