quinta-feira, 10 de setembro de 2009

No Vão das Coxas Dela

Ela dizia que doí quando despontei à beira do poço escondido no vão das suas coxas. Doí uma dor que ela nunca sentira. Dor doída, sangrada, melada, enrolada em tripa. Doí tanto que de susto os mamilos fecharam as bicas e empedraram a Via Láctea. Susto doído, gritado, esperneado, faminto, desamparado. Susto mariano, enrolado em mantas franjadas e fraldas molhadas. Susto - que me perdoem os Josés - solitário, frio por paredes frias de maternidades mais frias ainda...
Hoje, passados cinquenta e oito anos de vida aninhada em seus seios murchos, caídos, carcomidos pela terra que agora a cobre num poço escuro, sem coxas e sem vão, a dor - a dor danada - me estilhaça em Via Láctea sem leite, estrelas e vida. Doídamente descubro que aniversário só tem sentido quando as mães estão por perto...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Caixas & Orfandade

Seis dias órfãos. Seis dias de vãs tentativas de guardar cheiros, sorrisos, toques, suspiros, olhares... dentro de caixas. Mas caixas só guardam roupas, sapatos e objetos. Caixas não guardam almas. Caixas são desalmadas. Caixas encaixotam corpos que ficam largados, esquecidos em buracos ocos. Caixas sufocam, caixas desalmam...
Amor a gente guarda no coração sangrado, apertado de lembranças que morrem de medo de um dia serem esquecidas...

Obs: não tenho palavras para agradecer o carinho que recebi de amigos tão especiais. É tão bom ter amigos...

Obs2: na foto, Maria Luiza, minha mãe, ainda menina. Dando um tchau para nós.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Maria Luiza, Letes & Anjo


Ontem, as oito e meia da noite, um anjo levou Maria Luiza Pereira Frazão, minha mãe, para as terras do Letes.
Partiu dormindo, sonhando com os seus mortos que da outra margem do rio acenavam. Me deixou órfã, solitária como um quebra-cabeças faltando mil peças...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O Fantasma de Chet Baker


Eu devia ter desconfiado quando de repente a bolacha negra surgiu do nada na velha loja de livros velhíssimos. O que faria uma bolacha negra no meio de poeira e traças, exibindo-se em balé de 33 rotações? Seria algum recado da cantora de blues que se mostrava - mostrava não, se insinuava - nas últimas frases da Náusea de Sartre? Mas Sartre já tinha morrido e os anjos já o tinham entupido de sal de andrews. Simone já estava ao seu lado e já tinham até alugado um conjugado no céu... Não, não era a cantora de jazz nem o estômago delicado do filósofo. A bolacha vinha de algum lugar do Além que ficava além de minha nauseada imaginação.
Está certo, confesso, eu andava meio nauseada, meio desligada, tão meio desafinada que entrara na loja à cata de um livro qualquer de auto-ajuda - pode rir, é pra rir mesmo - de qualquer livro de no máximo oitenta páginas burramente distribuídas em cento e oitenta parágrafos que dissessem absolutamente nada. Nada do ser e do nada nem de filosofias que me confirmassem que não há nada mais cruel que ter idéias na cabeça. Eu precisava de um tudo estofado como um sofá das Casas Bahia, de preferência em suaves prestações, comprado com um cartão de crédito que o livrinho certamente me ensinaria como obter...
Foi no intervalo entre o desejo de me perder de "si" e me achar em "dó" de mim financiado pela Fininvest ou qualquer coisa que não valha que a bolacha rodopiou aos meus pés. Estiquei os olhos e lá estava Chet Baker, o fantasma que não era de Bakersville, mas uivava para a lua com um trumpete. Lá estava ele, saído do Nada da cantora da Náusea, do Uivo de Guinsberg e das estradas de Kerouac. Me olhou com aqueles olhos de belas heroínas e me chamou para dançar. Dançar?! Eu estava ali para encontrar o Graal da mediocridade em suaves prestações! Eu já tinha jogado fora todos os meus livros e os meus discos de jazz. Agora eu queria mais era jazer numa vida despreocupada, embalada por churrasco, cerveja e piadas idiotas. Eu queria aprender de cor todas as marcas de carros (parei no chevete), aparelhos eletrônicos e tralharias digitais. E lá me vinha Chet Baker numa hora dessas me chamar para dançar? Ele e sua heroína que continuassem a girar em trinta e três rotações. E que engolissem a agulha de diamante. Eu mesma já tinha jogado a vitrola fora...
Mas por artes da heroína de Chet ou do ácido lisérgico que os anjos cismam em misturar ao ar dos poetas, a bolacha começou a tocar sozinha. O que fazer? Como não fugir de "si" no "sol" de tanta música? E foi naquele segundo em que Chet começou a tocar que desisti da mediocridade medíocre de vencer na vida com titica na cabeça e, uivando os primeiros versos do Uivo, coloquei fogo na prateleira dos livros de auto-ajuda. Levei Chet para casa e dançamos a noite toda ao som de My Funny Valentine...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Amora & Amores


Foi por puro acaso que Amora descobriu seus dons para o amor. À época ainda era verde, sem suco, sem coloração perfeita, mas já exibia as protuberâncias arredondadas que provocam água na boca dos meninos. Sem suco e sem o vermelho que tatua nódoas no corpo e no coração dos amantes, se valeu do perfume e da maciez da casca. Seduziu o menino que sentava na terceira fileira da sala, exatamente na segunda carteira à direita. No ângulo certo da visão do seu redondo joelho.

Não sei se pelo perfume ou pelas curvas carnudas de um círculo que se estendia em coxa, Amora seduziu o seu primeiro amor. “Sedução geométrica”, disseram as amigas enciumadas. “Primeiro fruto!”, exultou a avó enquanto podava e preparava a terra de um enorme pé de amora que se enroscava na cerca do jardim.

Talvez pelos espinhos ou pelos galhos que de tão enroscados sufocavam a cerca, o amor de Amora não durou muito tempo. Terminou por desavença geométrica e deslocamento físico: estendido numa reta que não se encaixava no círculo do seu joelho, o menino simplesmente mudou-se para uma outra cidade. O rompimento causou dores, mas não abalou o perfume nem as curvas da fruta e Amora permaneceu disponível em seu galho. Podada e aguada nas luas certas, em pouco tempo descobriu-se madura, suculenta, pronta para ser colhida.

Seguindo a lógica quântica da natureza, Amora se fez verde, de vez e madura por infinitas vezes. Foi colhida por mãos que se perderam em suas protuberâncias curvilíneas e derramou líquidos em bocas que suspiravam em prazer.

Depois de muitas luas descobriu o seu próprio segredo e resolveu revelá-lo: abriu uma pequena loja especializada em amoras. E lá, entre geléias, tortas, balas, bombons, licores e amoras frescas, Amora revelou-se perita em amores... O endereço da loja? Ah, esse fica por conta da geometria das mulheres.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Dando um Help para Deus


Quando Deus nos deu a vida, também nos deu a liberdade de darmos vida. Simone, e muitos outros, está precisando de nós. A doação não dói. Vamos doar e espalhar na Net o pedido? Deus certamente nos agradecerá por isso...
Obs: a Simone está no meu facebook . Que tal uma prosinha com ela? Ela é um doce!!!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Luiza & Mary Stuart

Durante a velhice, Luiza preparou-se para uma outra vida, em que seria rainha ou, na pior das hipóteses, princesa. Embora não tivesse nem mesmo um remoto laço genealógico com Mary Stuart, agia como se lhe fosse próxima. Não sei se por uma ser da Escócia e a outra do Estácio, as duas eram muito parecidas. Mary Stuart não ficou redonda como Luiza, mas em compensação não escutou as rodas de samba do Estácio. Mary Stuart nasceu rainha. Luiza nasceu para ser rainha numa outra vida. Apesar das pequenas diferenças, eram irritantemente parecidas. Mary amava as golas, Luiza as detestava. Mary arrastava saias negras pelos aposentos do palácio; Luiza, pelos becos do Estácio. Mary caçava raposas com cachorros; Luiza caçava as dezenas do cachorro. Mary guardava doces numa caixinha de prata; Luiza, numa lata. Mary reinava em nome de Cristo, Luiza tinha um Cristo que reinava na parede da sala. Mary dividia a coroa com a prima; Luiza, uma parca aposentadoria. Mary casou com um rei; Luiza, com um operário. Mary sentava-se num trono; Luiza, numa cadeira Chipendale. Mary era Stuart, Luiza, Correa.
Quando se encontrou com a morte, Luiza pediu-lhe que não a fizesse rainha. Preferiu uma cama, pois estava muito cansada...



obs: texto extraído do meu livro Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand

Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!