Não sei se por velhice Divina ou se por embaçamento das janelas do céu - pode acreditar, a poluição também chega lá -
Deus se cansou de olhar os homens e se recolheu aos livros. Arrastou uma velha poltrona para perto da lareira, esqueceu dos conselhos médicos e desaposentou um maço de cigarros, colocou na vitrola um disco de
Chet Baker e tirou da estante o primeiro volume da trilogia de
Henry Miller.
Sexus. "Latim", pensou o
Diviníssimo, carregando o grosso volume para a poltrona.
E ali, entre a primeira baforada e o sopro reticente de
Chet,
Ele folheou a primeira página. O livro não era em latim. "Como? Que raio de língua é essa?"
Deus se perguntou, já desconfiado de que o tempo que havia criado lhe passara a perna. O tempo correra e o
Altíssimo ficara para trás, acreditando que a onipresença e a oniciência estavam para além das transformações da linguagem. Se
Ele tivesse dado ouvidos a
Crocce, ou a
São Tomas de Aquino ou se tivesse lido
Crátilo, de seu amigo
Platão, com mais atenção, decerto não estaria pagando tal mico. Mas você sabe,
Deus é
Deus e nem o
Diabo o convence do contrário.
Não sei se por desconsolo da idade ou se por carência afetiva que nenhuma
Santíssima supriria,
Deus chorou como um bebê. Esqueceu que era
Deus e caiu no melodrama. "Não posso morrer sem ler Henry Miller...", o
Diviníssimo choramingou com o rosto enterrado numa almofada.
Se foi um acaso da
Mortíssima bater perna no lugar errado mas na hora certa ou se tudo não passou de um acordo entre
Ele e
ela, isso eu não sei. O que sei é que hoje, meu amigo
Haroldo Netto, o melhor tradutor do mundo, foi chamado às pressas para socorrer o
Altíssimo...