sábado, 13 de junho de 2009

A Visita de Dona Inveja

Anunciou sua visita sem nenhuma cerimônia. Não esperou convite e foi se convidando. Eu, cá do meu canto, não disse que sim nem que não: esperei que o interesse se extinguisse e aquela visita, que não foi convidada, desistisse de vir.
Não dei ouvidos aos meus fantasmas aflitos a me pedirem para que eu fechasse todas as portas e janelas, e dependurasse um cartaz no portão: CUIDADO! CÃES FEROZES!
Os dias se passaram e eu já tinha quase me esquecido dela, quando ela chegou. Mas uma vez não levei em conta os sinais de mau agouro. Fingi que não vi a sombra velando o olhar do motorista do taxi que a trouxera. Tapei os ouvidos para o canto de uma coruja em pleno meio-dia. Fechei os olhos para o sol que correu a se esconder atrás de uma nuvem e para o cadáver de um sapo que o táxi atropelara bem defronte do portão. Abri a porta e deixei que a Inveja entrasse. Entrou humilde, fingindo castidade. Distribuiu presentes e sorrisos numa boca sem dentes. Olhou para todos os cantos da casa. Sentou-se na sala e quis saber coisas. Eu bem que sabia que as suas perguntas seriam comidas por um gato. Não dei importância e deixei que a Senhora Inveja comesse da minha comida e depois a vomitasse, proclamando propiedade do vômito. Lembrei de Vitalina me dizendo que "a Inveja é uma senhora sem rosto, corpo, alma, e pousada, que vaga pelo mundo roubando a face e o lar do alheio". No momento em que se despediu, vi o meu rosto refletido na sua face distorcida. A máscara apertada não lhe coubera direito. O meu sorriso não cabia na sua boca sem dentes. O meu olhar não encaixou-se nos dois buracos do seu crânio... Partiu, deixando no ar o cheiro fétido da mentira. Um aroma que de tão medonho, assustou a fumaça negra do ônibus que a levou de volta para os pântanos da perfídia.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Blood & Moon

Quando a lua avermelhava no céu, Luiza catava ervas no terreiro, defumava a casa e as meninas (na casa só moravam mulheres). Cerrava as janelas, acendia velas e rezava o terço. Ñessa noite não dormia. Vigiava o mundo. Velava os vivos. Ouvia vozes que ninguém mais ouvia. Dentro da casa, as meninas rezavam.
Do lado de fora, os vizinhos espiavam. Luiza sabia que no dia seguinte as crianças da rua a acompanhariam com troças. Não ligava. "São anjos", ela dizia. Luiza compreendia a inocência dos anjos e sabia que eles nada podiam fazer. "A inocência às vezes é estúpida", filosofava com os seus botões. Sua mãe lhe ensinara a temer a hemorragia da lua. Dissera que era um aborto. A lua vermelha abortava pragas. Quando ela abortava, o Canhoto enchia a pança de maldade. Deus não podia fazer nada. Estava a léguas de distância, brincando com os anjos. A terra ficava entregue ao Canhoto e a Lua, à sua enfermidade. Luiza quis saber por quê a Lua, que era tão forte, ficava fraca. A mãe respondeu: "Para mostrar como os homens são estúpidos.". Luiza acatou de bom grado a resposta.
Seguiu os seus dias tomando conta do céu. A princípio, quando ainda acreditava na reversão da estupidez, bem que tentou avisar aos vizinhos que o céu prometia catástrofes. Ninguém ouviu. Então ela viu a Lua ficar vermelha antes da primeira guerra, antes do mar engolir o Titanic, antes da segunda guerra, antes do massacre no Vietnã, e antes de muitas epidemias. Como ninguém lhe deu ouvidos, preferiu silênciar e guardar para si os prenúncios das tragédias. Concluiu que a estupidez é coisa que não se reverte. "Ë obra do canhoto", definiu. Morreu com o terço na mão, pedindo à Mãe que velasse pelos estúpidos. Se na hora de se encontrar com a Morte, viu ou não uma outra Lua Vermelha, isso ficou entre ela e a Mortíssima. Só sei que não faz muito tempo, a Lua deu de sangrar no céu...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Zé e uma casa de campo no Sumaré.

Em meio a avenidas paulistanas,
entre faróis, buzinas e antenas,
uma casa na rua Petrópolis.
Defronte, uma praça.
Ao lado, um chinês maluco.
Dentro, ah, dentro... um campo
de Barbara, Tonico, Júlia e .
Uma casa de campo no topo do Sumaré?
Sim, pois é.


Deus devia estar sem amigos quando criou a morte...
obs: na foto, Ana Maria Santeiro & Zé.

sábado, 16 de maio de 2009

Quando Uma Cidade Faz Anos

Quando nos últimos meses do ano de 1963 a tubulação de gás da minha rua, Paissandú, foi para os ares num piscar de olhos, desconfiei que não vinha boa coisa pela frente. O odor insuportável de gás putrefato era de tal forma intenso que Vitalina, minha avó, afirmou categoricamente tratar-se da "catinga do Tinhoso" a anunciar sua chegada.
Eu, que nunca tinha encarado o Capeta olho no olho, confesso que de dentro do imaginário realista mágico dos meus doze anos passei a nutrir uma mórbida curiosidade quanto a sua aparência. Ao perceber este súbito interesse, vó Vitalina deu de defumar a rua e os seus buracos com ervas, alho e sal.
A sua convicção de que o Pai da Mentira emergeria das profundezas da Terra era tanta que logo arregimentou algumas amigas, rezadeiras poderosas, para juntas iniciarem uma vigília na boca do extenso buraco que, como uma serpente infernal, se dirigia ao imponente Palácio da Guanabara.
Quando o seu plantão na vigília era interrompido para o almoço, Vitalina aproveitava a ocasião para me dar maiores esclarecimentos sobre as artimanhas e nomes adotados pelo Senhor das Trevas, desde que o mundo é mundo. E foi entre garfadas de bife e batata frita que vim a saber que o tal Coisa-Ruim se chamou Nero, Calígula, Franco, Mussolini, Hitler, Salazar...e até Pilatos.
Das artimanhas de Belzebu, Vitalina narrou o estranho poder que ele tinha de provocar intrigas, delações, injustiças, pestes e feiúra.
As injustiças, delações e pestes eu já tinha presenciado nas ventas do buraco: o pai de minha amiga Vânia, um historiador amante de Marx, foi despedido do emprego da noite para o dia; o almirante que morava no quinto andar, inimigo número um das crianças e adolescentes do prédio, foi eleito síndico numa assembléia muito suspeita; e um surto de hepatite atingiu quase todos nós.
Sim, eu mesma já podia sentir na carne os primeiros sinais "visíveis" da devastação que viria pela frente...Não sei se pelo medo do Rabudo (que a essa altura eu já não queria conhecer) ou mesmo pela hepatite, o corpo e a alma amarelaram. E amarelaram tanto que acabaram amarelando toda a casa.
Meu pai, amante dos discursos inflamados e fiel defensor dos pobres e oprimidos, deu de falar baixo, deu de esconder os seus preciosos livros e a sobressaltar-se a cada toque da campainha.
O gás exalado pelo buraco da rua acabou chegando ao oitavo andar do prédio e me apresentando o primeiro suicida, a primeira vítima do Mofento. Se não tivesse passado quarenta anos, certamente eu ainda saberia o nome do morador bonito e calado, do 802, e ainda tremeria pela minha transgressão e bravura de ter roubado o volume Obras Escolhidas de Pablo Neruda, que solitário jazia no chão, abaixo do corpo a balançar amarrado ao lustre e marcado por um lacônico bilhete - que a polícia nunca leu - em que se lia: Confesso Que Vivi.
Quando a rua Paissandu foi tomada por militares no final de março de 1964, não me surpreendi. Vitalina já havia me alertado para a chegada do Senhor das Trevas.





Obs : hoje, passados tantos anos, no dia em que Nova Friburgo, a cidade que escolhi para morar, comemora seus cento e tantos anos de existência, constato que o Tinhoso continua a exalar fedor (e atos) pelas pequenas e grandes cidades do meu país. Hoje, 16 de maio de 2009, o jornal da nossa cidade foi vilmente obrigado a podar, castrar, impedir, calar as palavras de um jovem cronista, escritor e filho muito querido, cujo crime consistiu em criticar um aumento abusivo acontecido na cidade. De mãos atadas, o jornal A Voz da Serra silenciou a fala do poeta. Até quando viveremos sob o fedor da intolerância e ditadura do vil capital que sem usar armas consegue ser mais letal que a própria Mortíssima?





obs2: na foto, Daniel e Ronaldo.



quinta-feira, 7 de maio de 2009

O Poty & O Pote

No fundo do jardim, um pote
de barro.
Lama que babava em dedos
enfiados,
escorregados numa trilha
de vacas e bois.
Cheiro de terra, estrume
e água.
No fundo do precipício, um rio
plácido, musguento,
sonolento de piabas.
Um rio pote
de sucuris douradas.
Sem começo nem fim,
sem vazio nem cheio.
Lá no fim onde canoas
boiavam estacionadas
aprendi a nadar canina,
quase afogada.
Do fundo da água pesada
em meio a bolhas
galhos
cipós
e areia
o rio se disse chamar Poty.
Ouvi, por ti.
E por mim Poty se fez meu
como um dia se fez para o Piauí
e para a sucuri que quase me comeu.



obs: esta história é verdadeira. Passei minha infância no Piauí, em Teresina, numa fazenda chamada Primavera. O Poty a atravessava. Majestoso ele caçoava da majestade da nossa casa empoleirada no cocoroco de um monte. De lá de baixo ele nos observava. Soberbo, matreiro, silencioso, ronronante como um tigre de Bengala. Para chegar até ele eu cruzava o jardim e descia por uma trilha de barro que dava num platô onde ficava a vacaria. Depois de ver Esperança, minha zebu mosquenta, era só descer mais um pouco e, lá na beira, ele me recebia rindo da minha figura bizarra,vestida num maiô com um ridículo babadinho. Levou algum tempo para que travássemos amizade, mas no fim, depois de me salvar de um afogamento (a sucuri fica por conta da minha fértil imaginação), ficamos amigos até debaixo d'água. E como amigo a gente não abandona nas horas difíceis (nem prazerosas), peço a todos que olhem para o Poty, para o Piauí e para aquela gente bonita que lá mora e os ajudem.
obs²: na foto estou eu, tia Nazir segurando meu primo, Carlos Augusto Vinhais, tia Nazair abraçando a mim e a Guilherme Cavalcante de Mello, meu primo. Não éramos bonitinhos? Ah, a foto foi tirada na fazenda Primavera.







sábado, 2 de maio de 2009

Aparecidas aparecências

Se não fossem mulheres, não "apareciam". Decerto enviariam mensageiros para anunciar a sua chegada ou criariam algum pretexto para aparecer. Não boiariam em águas profundas, não mergulhariam em charcos, não habitariam grutas nem vagariam por regiões áridas a semear rosas. Surgiriam na marra, à frente de batalhões ou de algum dragão decapitado.

Se não fossem mulheres, decerto apareceriam só para parecer. Por exibição ou por umbigo não cortado, girariam as próprias células em torno do si: mesmo, idêntico, imutável.

Mas como eram elas e não eram eles, deram de aparecer em santidade quântica. Por pura aparecência se espalharam por grotas, oceanos, rios, lagos, janelas e charcos. Em silêncio. Sem alarde. Por gosto muito além da língua e do paladar.

E foram mastigadas em comunhão profana por toda ela outra que aparecia. Em princípio eterno, sem Verbo e ponto final, abraçaram o mundo em santíssima reticência.

obs: se você gostou desta minha/nossa SANTÍSSIMA, dê uma olhadinha no meu livro Senhoras do Santíssimo Feminino, publicado pela Editora Rosa dos Tempos (do Grupo Record ), onde muitas outras Santíssimas esperam loucas para aparecer e contar histórias.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Porciana & Persianas Genealógicas

Quando apareceu, optou pelos números. À direita, o número redondo da folha. À esquerda, escondido num canto iluminado pela tênue luz da lamparina, o número do termo. Muda, invisível, inodora, alheia ao tempo e à caligrafia rebuscada, quase apagada, do empertigado escrivão do cartório. "Moço esquisito", pensou, sufocada pelas paredes amarelecidas da sala abafada, sem sol. Quis abrir as janelas, mas as trancas eram altas demais para sua altura pouca.
Invisível, se valeu desse estado e levantou a saia pesada, negra, sustentada por muitas anáguas. Recolheu as ondas do oceano de panos e esticou as pernas ávidas de sol. Seu marido não viu. O moço esquisito não viu. "Quem foi que disse que a morte não traz vantagens?", pensou com os botões da blusa abotoada até o cume do pescoço.
No topo da montanha escarpada em curvas e grotas de carne, os botões abandonaram as casas, descendo pela encosta como alpinistas à frente de uma avalanche. Ninguém percebeu o imperceptível abalo nas tábuas enceradas do assoalho e com enfado o empertigado escrivão continuou a escrever que às nove horas da noite deste dia de mil novecentos e oito falleceu Porciana Roza de Jesus, de pneumonia, aparentando oitenta annos de idade. Pronto. A morte fora lavrada e assinada.
Livre da saia, das anáguas e da blusa, Porciana se exibiu para Deus exatamente como Ele gostava de espiá-la no riacho. Ergueu-se da cadeira à frente da mesa do moço esquisito e, esticando-se na ponta dos pés, finalmente conseguiu abrir a janela. Ninguém percebeu o imperceptível tornado que embaralhou as letras rebuscadas, quase apagadas, do termo de seu óbito para formar um cifrado recado: eu, Porciana Roza de Jesus (e de Deus), sua trisavó, declaro que dos pecados cometi todos; acumulei o brilho das estrelas no cofre da alma, emprestei amor a juros tão altos que poucos amantes puderam pagá-los, gemi de prazer à cada botão desabotoado, invejei todas as aves de migração, lambi cada torrão de açúcar como se fosse o último, cobicei a prata da lua e o marulho das ondas, amaldiçoei o Criador por não ter me feito sereia ... e que os "aparentes" oitenta anos declarados pelo doutor ficam por conta dos óleos com que ungi meu corpo nos meus noventa e sete anos de vida.

Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!