domingo, 16 de março de 2008

Asas em Tempos não Idos


Ontem decidi que este ano não vou fazer 57 anos: assumirei minhas 57 asas. Vou mergulhar rasantes sobre o mar de Ipanema e aterrisar no Pier com 20 asas. Não me valerei de nenhum freio, afinal, com 20, quem deles necessita? Serei perdulária e me valerei de mais duas, só pra tomar um porre no Lamas e repousar a bebedeira sobre as páginas do Livro Vermelho de Mao e as folhas desgastadas do Écrits, de Lacan. Depois, mal sustentando as pernas, recolherei 11 asas e ganharei um beijo do menino sardento (seria Felipe, Luis ou Luis Felipe?) nas escadas do prédio, entre o segundo e o terceiro andar. Mas desta vez não ficaremos presos pelos nossos aparelhos ortodônticos e escaparei da vergonha. Não temerei uma provável gravidez já que terei a ciência da décima terceira asa que, apesar de odiar a monotonia científica da professora Célia, me garantiu que beijos não engravidam. Já devidamente tranquilizada, vou inventar uma nova matemática e das 13 asas pularei para a décima oitava. Empinarei o nariz e sobrevoarei as salas do velho IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais). Não assistirei as aulas de Lógica Matemática e desta vez não levarei bomba. Repetirei ad eternum as aulas de Metafísica e recitarei Aristóteles de trás pra frente (Platão, dividirei com os mais íntimos). Nos corredores, de preferência no da cantina, tramarei revoluções , mas desta vez optarei pelas estéticas. Está certo, confesso, ainda acredito no povo no poder, mas o que fazer quando as 38 asas sobressalentes me filiaram ao partido do Belo e me repetem que a arte unida jamais será vencida? Mas não importa, com a arte no poder, o povo está junto.
Este ano, quando a próxima asa encaixar nas minhas costas, o tempo não terá nenhuma importância. Vou ir e voltar na hora que me der na veneta. Serei idosa sem tempos idos.

sábado, 15 de março de 2008

Voodoo

Benedita enterrou muitas agulhas em muitos bonecos. "Raça desgraçada que não merecia viver", ela dizia, sibilando sons de uma boca sem dentes. Olhos postos nas alturas, em busca de um Deus que a compreendia como ninguém.

"Deus que nada, menina! É Satanás que ela invoca a cada furo!", dizia Vera, a cozinheira, benzendo-se, respeitosa. Se era Deus ou o Diabo, eu nunca Soube e de nada adiantaria saber: as agulhas, as linhas e as tesouras, por artes sabe-se lá de quem, descumpriam os desígnios, celestes ou infernais, e em pouco tempo davam cabo do infeliz.

Morte espetada, furada, cortada, amarrada com tal maestria que nem os doutores descobriam a causa. "Seu Osório morreu na noite passada. De nó nas tripas. Amanheceu de olhos esbugalhados, como se tivesse visto o Demo bem na hora de morrer!" disseram as empregadas do prédio ao comentarem a "misteriosa" morte do morador do segundo andar.

O mistério não era assim tão misterioso. Benedita trabalhara na casa de Seu Osório e diziam as más (?) línguas que o homem a despedira sem pagar uma montanha de salários atrasados. "Menos um nesse mundo que não é de Deus nem do Diabo", Benedita comentou, indiferente, ao saber do falecimento. "Indiferença suspeita", Vera afirmou, sabedora do boneco, igualzinho ao falecido, que Benedita espetava todas as noites, no redondo sombrio da meia-noite.

Se a morte se deu pelas agulhas enterradas na hora exata que a Mortíssima aceita a ajuda dos mortais, ou por coincidência despropositada, isso ficou entre Deus, o Diabo, a Mortíssima, e o atestado de óbito : sufocamento acidental; causa desconhecida, óbito ocorrido na zero hora. Exata.

Na hora do enterro do "morto sem alma", como Benedita disse para Conceição, a arrumadeira, Benedita prendeu o espírito ruim numa caixa amarrada em sete nós. Não enterrou. Despachou o embrulho na encruzilhada da Marquês de Abrantes com a Paissandú, rodeada por nove velas pretas emborcadas para baixo.

No dia seguinte, ao passar por lá a caminho do colégio, lá estava Seu Osório, esmigalhado pelas rodas dos carros e dos bondes. "Esse não encarna mais", Benedita falou arreganhando as gengivas. Se o vodu impediu que a ruindade de Osório não mais encarnasse, isso é coisa que só os parapsicólogos podem responder. O que sei é que depois do passamento (era assim mesmo que ela falava), o elevador nunca mais rangeu ao passar pelo segundo andar.

Quando Benedita ficou tão velha que já não podia trabalhar, retornou para sua amada Minas Gerais. Deixou-me um presente sobre minha cama: uma caixa de papelão branco, atada por uma larga fita de cetim cor-de-rosa. Dentro dela alguns bonecos, agulhas, tesoura e linha.

A Lua dos Malefícios



Quando a lua avermelhava no céu, Luiza catava ervas no terreiro, defumava a casa e as meninas (na casa só moravam mulheres). Cerrava as janelas, acendia velas e rezava o terço. Nessa noite não dormia. Vigiava o mundo. Velava os vivos. Ouvia vozes que ninguém mais ouvia. Dentro da casa, as meninas rezavam. Do lado de fora, os vizinhos espiavam. Luiza sabia que no dia seguinte as crianças da rua a acompanhariam com troças. Não ligava. "São anjos", ela dizia. Luiza compreendia a inocência dos anjos e sabia que eles nada podiam fazer. "A inocência às vezes é estúpida", filosofava com os seus botões. Sua mãe lhe ensinara a temer a hemorragia da lua. Dissera que era um aborto. A lua vermelha abortava pragas. Quando ela abortava, o Canhoto enchia a pança de maldade. Deus não podia fazer nada. Estava a léguas de distância, brincando com os anjos. A terra ficava entregue ao Canhoto e a Lua, à sua enfermidade. Luiza quis saber por quê a Lua, que era tão forte, ficava fraca. A mãe lhe respondeu: "Para mostrar como os homens são estúpidos.". Luiza acatou de bom grado a resposta. Seguiu os seus dias tomando conta do céu. A princípio, quando ainda acreditava na reversão da estupidez, bem que tentou avisar aos vizinhos que o céu prometia catástrofes. Ninguém lhe ouviu. Ela viu então a Lua ficar vermelha antes da primeira guerra, antes do mar engolir o Titanic, antes da segunda guerra, antes do massacre no Vietnã, e antes de muitas epidemias. Como ninguém lhe deu ouvidos, preferiu silênciar e guardar para si os prenúncios das tragédias. Concluiu que a estupidez é coisa que não se reverte. "É obra do canhoto", definiu. Morreu com o terço na mão, pedindo à Mãe que velasse pelos estúpidos. Se na hora de se encontrar com a Morte, viu ou não uma outra Lua Vermelha, isso ficou entre ela e a Morte. Só sei que não faz muito tempo, a Lua deu de sangrar no céu...


Miséria Física

Se havia uma coisa que em Vitalina provocava compaixão até pelo seu pior inimigo, sem dúvida era a miséria física. "Na hora da doença se esquece de qualquer desaforo", ela dizia, ao mesmo tempo em que preparava um xarope para alguém que não queria ver "nem pintado de ouro".


Quase ninguém entendia aqueles momentos de trégua, quando Vitalina suspendia as rusgas enquanto colhia ervas e criava remédios para os seus maiores inimigos. "Coração cristão", muitos diziam, "alma magnânima", outros repetiam. Vitalina ria.


Levei muitos anos para desvendar o mistério e só o solucionei quando um dia, ao ver minha avó preparando um dos seus unguentos para uma vizinha que liderava uma campanha difamatória contra ela, perguntei pela razão de tanta generosidade. Com cara de nojo, ela me respondeu: "Não há nada mais humilhante que lutar com um inimigo doente!"




Texto extraído de meu livro O Caldeirão da Prosperidade, publicado pela Editora Planeta.

O Tarô de Guadalupe


Margarida não lia o tarô: lia as cartas. Lia sem que você pedisse. Por puro prazer e "necessidade". Se você não se interessasse em saber o que nas cartas estava escrito, ela não se importava e lia do mesmo jeito. Em silêncio.
Depois, levantava-se da mesa, guardava o baralho numa gaveta do móvel da sala, ia até a cozinha, pegava um copo d'água e o levava até o quarto. Depositava-o em silêncio sobre a mesinha de cabeceira, entre as imagens de Nossa Senhora da Glória, Santa Edwiges, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora Aparecida, Menino Jesus de Praga, Santo Antônio e mais alguns anjinhos. Sentava-se então na beirada da cama e rezava baixinho.
Se a reza se dava por aquilo que vira nas cartas ou por culpa de a elas ter recorrido ( Margarida era católica apostólica romana e temente a Deus ), isso não vem ao caso. Rezava em busca de um horizonte que as janelas do apartamento não mostravam. "Rezava para não chorar!", Vitalina certamente diria.


Texto extraído de meu livro Guadalupe e as Bruxas, publicado pela Editora Planeta.

O Pão da Abelha


1 colher de sopa de sal
1 colher de sopa de folhinhas (frescas) de alecrim
30 gramas de fermento fresco ou 2 colheres de sopa de fermento em pó
cerca de 7 xícaras de farinha de trigo
2 1/2 xícaras de água
1 colher de sopa de manteiga amolecida
1 ovo ligeiramente amolecido
1 gema
1 colher de sopa de mel

Modo de Fazer:
Numa tigela grande misture o sal, o alecrim, o fermento e 2 1/2 xícaras de farinha de trigo. Numa panela com capacidade para 2 litros, esquente a água e a manteiga em fogo baixo, até ficar bem quente. Adicione gradualmente os líquidos aos ingredientes secos, bata a mistura vigorosamente. Acrescente mais 3 1/2 xícaras de farinha e bata até obter uma massa macia e pegajosa. Coloque-a numa tigela e cubra; deixe crescer até dobrar de volume (uns 30 minutos). Abaixe a massa e transfira-a para uma superfície polvilhada e amasse até ficar lisa e elástica (leva uns 10 minutos). Como é difícil encontrar uma forma com o formato de abelha, sugiro transferir a massa para uma forma redonda (e pensar que a abelha deu uma engordada!), untada e enfarinhada e deixá-la crescer por uns 30 minutos. Antes de colocá-la no forno pincele com a gema batida com o mel e depois asse por 30 minutos.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Aparecidas

Se não fossem mulheres, não "apareciam". Decerto enviariam mensageiros para anunciar a sua chegada ou criariam algum pretexto para aparecer. Não boiariam em águas profundas, não mergulhariam em charcos, não habitariam grutas nem vagariam por regiões áridas a semear rosas. Surgiriam na marra, à frente de batalhões ou de algum dragão decapitado.

Se não fossem mulheres, decerto apareceriam só para parecer. Por exibição ou por umbigo não cortado, girariam as próprias células em torno do si: mesmo, idêntico, imutável.

Mas como eram elas e não eram eles, deram de aparecer em santidade quântica. Por pura aparecência se espalharam por grotas, oceanos, rios, lagos, janelas e charcos. Em silêncio. Sem alarde. Por gosto muito além da língua e do paladar.

E foram mastigadas em comunhão profana por toda ela outra que aparecia. Em princípio eterno, sem Verbo e ponto final, abraçaram o mundo em santíssima reticência.

Chet

Chet

Home Sweet Home

Home Sweet Home
Que buraco é esse que me faz comer a geladeira?

Livros & Livrarias

Livros & Livrarias
Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.

Senhoras do Santíssimo Feminino

Senhoras do Santíssimo Feminino
O poder sagrado Delas.

A Pergunta de Lacan

A Pergunta de Lacan
O mistério do gozo das mulheres

Afrodite & Panelas

Afrodite & Panelas
E no princípio era a GULA...

A Casa

A Casa
O mundo olha pelas nossas janelas...

Um Lance de Dados

Um Lance de Dados
Jamais abolirá o acaso

O Caldeirão

O Caldeirão
Ele não está no final do arco-íris

Armário e Gavetas

Armário e Gavetas
O que será que eles revelam?

Minha Cozinha

Minha Cozinha
Onde tudo começou.

Meus Segredos

Meus Segredos
Laços e refogados culinários

Nossas Luas

Nossas Luas
E são treze...

Seduções & Devaneios

Seduções & Devaneios
Eu o escreveria mil vezes!

Guadalupe, a Santíssima Mestiça

Guadalupe, a Santíssima Mestiça
Como amei descrevê-la!

Amor e Cozinha

Amor e Cozinha
Foi uma delícia escrevê-lo!